Quem são as pessoas LGBTs?

Os primeiros conceitos fundamentais para entender quem é a população LGBT são sexo, gênero e orientação afetivo-sexual

Quem são as pessoas LGBTs?

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Há pouco tempo, uma amiga médica, cis e heterossexual, me mandou uma mensagem no Instagram após eu divulgar um dos textos da nossa coluna: “Branquinho, desculpa a ignorância, mas o que é uma pessoa cis?”. Pouco tempo depois, recebo outra mensagem de um amigo, cis, heterossexual e também psiquiatra, pedindo indicação de uma fonte para entender melhor sobre as diferentes preferências sexuais e identidades de gênero.

Essas duas mensagens me levaram a refletir sobre o conteúdo da coluna. A proposta, que é falar de saúde e particularidades da população LGBT, vem sendo cumprida semana após semana. No entanto, não havia parado para pensar que talvez, para uma parcela considerável do público, fosse interessante deixar claro algo que pode ser uma premissa básica para todos os outros textos: quem é a população LGBT de que tanto falamos aqui?

Primeiramente, devemos lembrar que hoje, com a evolução dos debates sobre gênero, sexualidade e identidade, mais e mais denominações vêm surgindo para caracterizar os indivíduos. Por isso, apesar de aqui usarmos a sigla LGBT (que seria uma abreviação de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais/Travestis), por ser mais curta e mais conhecida pela maior parte das pessoas, há outras siglas possíveis que aparecem em outros lugares (LGBT*, LGBTQ+, LGBTQIA+ etc). Independente da sigla, ao nos referirmos à essa população, estamos falando das minorias sexuais, ou seja, grupos marginalizados e que não possuem as mesmas oportunidades e privilégios que o grupo dominante (população cis e heterossexual) devido à sua sexualidade e/ou identidade de gênero.

Para me ajudar nessa discussão e no esclarecimento dos termos de que vamos falar (e lembrando que há um extenso debate sobre esses termos entre estudiosos e pessoas autodeclaradas, portanto, esse artigo tem apenas caráter de disseminar informação ao público geral), eu pedi a ajuda do querido Ricardo Sales, um dos maiores expoentes em diversidade no Brasil, que gentilmente me cedeu sua tese de mestrado como bibliografia, na qual ele fala sobre políticas de respeito à diversidade sexual no ambiente de trabalho (link pra a tese aqui).

Os primeiros conceitos fundamentais para entendermos quem é a população LGBT são sexo, gênero e orientação afetivo-sexual.

Quando falamos do sexo de uma pessoa, estamos falando de suas características biológicas, com os aspectos anatômicos, morfológicos e fisiológicos (como a genitália, a capacidade reprodutiva, os cromossomos sexuais e os hormônios produzidos) e indica como a pessoa foi identificada ao nascer.

Já o conceito de gênero não remete apenas ao biológico e sim a uma construção sociocultural. Essa construção determinaria o que a sociedade considera esperado e apropriado em termos de comportamentos, papéis, atributos e atividades para homens e mulheres. Podemos também introduzir outro conceito a identidade de gênero, que nada mais é do que o gênero com o qual a pessoa se identifica e cujo reconhecimento reivindica.

Quanto à orientação afetivo-sexual, ela indica por quem um indivíduo sente atração afetivo-sexual (por um dos gêneros, por mais de um gênero ou por nenhum deles).

Voilà! Tendo esses conceitos em mente, podemos falar um pouco mais sobre outros termos relacionados a esses primeiros.

As definições que estão ligadas à orientação afetivo-sexual de uma forma geral são mais conhecidas da população geral e compreendem:

Heterossexuais: são pessoas que sentem atração afetivo-sexual por indivíduos de gênero diferente daquele com o qual se identificam.

Homossexuais: são pessoas que sentem atração afetivo-sexual por indivíduos de gênero igual àquele com o qual se identificam. Dentro desse grupo de pessoas, é comum denominarmos os homens homossexuais de “gays” e as mulheres homossexuais de “lésbicas”.

Bissexuais: são pessoas que sentem atração afetivo-sexual por indivíduos de dois gêneros ou mais.

Pansexuais: são pessoas que sentem atração por indivíduos de qualquer identidade de gênero ou por pessoas independente do seu gênero. Pode ser vista como uma manifestação política, uma forma de afirmar que a identidade de gênero é irrelevante ao se falar de atração afetivo-sexual.

Assexuais: são pessoas que não sentem atração sexual por outras pessoas, independente do gênero. Podem, no entanto, desenvolver relações e parcerias afetivas.

Já quanto ao gênero e à identidade de gênero, os termos mais utilizados são:

Cisgênero/Cissexual/Cis: termos utilizados para designar pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascimento.

Transgênero/Transexual/Trans: termos utilizados para designar pessoas que não se reconhecem no gênero que lhes foi atribuído ao nascimento.

Então, por exemplo, um homem cis é uma pessoa que se reconhece social e legalmente como homem e que ao nascimento foi identificado como sendo do sexo masculino, enquanto um homem trans é uma pessoa que se reconhece social e legalmente como homem, no entanto, ao nascimento foi identificado como sendo do sexo feminino.

Há ainda mais dois termos que podemos analisar em relação ao gênero/identidade de gênero:

Travestis: Trata-se de uma identidade em disputa, eminentemente latino-americana. Não há consenso absoluto a respeito da melhor definição. Algumas travestis são pessoas que não se identificam com a classificação binária homem-mulher, e entendem-se como integrantes de um terceiro gênero. O processo de identificação pode ser marcado por posicionamentos políticos e recortes de classe e raça. Deve-se sempre utilizar o artigo feminino, ou seja, “a travesti”.

Não-binário: Pessoa que não se identifica com nenhum dos gêneros ou se percebe como uma combinação deles. Refuta o sistema binário homem-mulher.

Portanto, quando falamos aqui da população LGBT, falamos de todas essas pessoas que fazem parte dessas minorias sexuais, ou seja, não são cis e heterossexuais. A sociedade vem evoluindo no reconhecimento dessa população e dessas novas definições e é importante que a informação e o respeito sejam sempre propagados, para que todos se sintam à vontade para serem quem são, sem violência e sem preconceito.

 

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Psiquiatra formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. É também psicanalista de orientação lacaniana e atua como psiquiatra voluntário no projeto da Casa 1.

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