Quando a maternidade pode ser uma escolha?

A ideia da maternidade pode aparecer muitas vezes como forma de normalizar a relação entre duas mulheres, de ser mais aceita na sociedade

Gravidez. Foto: Pxhere.

Gravidez. Foto: Pxhere.

Diversidade,Saúde LGBT+

Existem de fato escolhas para as mulheres numa sociedade patriarcal?

Estava esses dias ouvindo um podcast, que minha namorada encontrou nas buscas dela pela internet atrás de informação de qualidade, quando ouvi essa frase e não consegui mais sair dali. A mente então viajou para minha infância e foi percorrendo cada “escolha” que fiz nesses meus 32 anos de vida. Foram realmente escolhas?

Então parei em um ponto bem atual e recorrente aqui em casa: a maternidade.

Após anos de passos dados na direção do que é imposto e cobrado às mulheres, no que é esperado de mulheres, na luta contra um sistema e, finalmente, tentando chegar à superfície e respirar, questiono: a maternagem, na nossa sociedade, é de fato uma opção?

Enquanto mulheres, vemos desde a infância uma série de obrigações impostas pelo modelo patriarcal e, de braços dados com a heteronormatividade compulsória, a maternidade faz parte desses papéis que somos cobradas a desempenhar. E para aquelas que não cumprem o esperado, é reservado o lugar de questionamento do feminino e da sua figura social como mulher.

Dentro desse ˜entendimento˜ de feminilidade, a maternidade é vista como o ponto auge da vida da mulher. Através de uma construção social, que desde a infância delineia o incentivo e a romantização da maternagem, garantem o lugar de consumo e manutenção da mão de obra, tão interessantes para o capitalismo e a continuação da primazia do patriarcado. Por fim, a maternidade compulsória acaba por ser a maior maneira de tornar a mulher refém da heteronormatividade.

Uma das maiores transgressões da lesbianidade, ao negar a heterosexualidade, está em lidar com seu futuro reprodutivo questionado. Nossos corpos são continuamente controlados e ser lésbica é a fuga final do controle patriarcal imposto.

Mas a verdade é que há importância neste questionamento, mas quando ele parte de nós. Quando a sua origem está no modelo de família socialmente aceito ou de onde vem a cobrança por uma criança nessa relação entre duas mulheres ou no projeto de uma maternidade solo? De onde vem esse desejo? São expectativas genuinamente nossas? Até que ponto aceito me submeter a procedimentos para promover uma gestação de forma que ainda sinta meu corpo sendo respeitado? O que me faz pensar em uma adoção?

Neste texto, trago mais perguntas que respostas, mas é importante lembrar que a história da mulher na humanidade é marcada por processos de compulsoriedade. E na saúde reprodutiva não seria diferente. A falta de acesso à educação sexual, a métodos contraceptivos que contemplem a mulher na sua totalidade, a possibilidade de ascensão social em comunidades mais vulneráveis e de promoção a sucesso pessoal em famílias tradicionais mais abastadas; tudo isso forma um pano de fundo para nossa interpretação do impulso automático de se indagar se é a hora de ser mãe. Nós somos criadas nessa sociedade, alimentadas ao longo de anos por esses estímulos.

Inadvertidamente, a ideia da maternidade pode aparecer muitas vezes como forma de normalizar essa relação entre duas mulheres, de ser mais aceita na sociedade e, de certa forma, se encaixar. Sob a luz de toda a nossa história de luta contra os padrões heteronormativos e toda exclusão que os envolve, precisamos estar atentas às nossas conformidades e decisões. Seguir questionando padrões é seguir lutando. É poder desfrutar, a cada dia um pouco mais, do nosso sonho de liberdade.

Liberdade de gestar se de fato quiser; de parir se assim entender; de adotar se houver amor pra doar. Mas que seja, na verdade, uma escolha, inclusive de como isso deve acontecer. Entendendo que os processos físicos e emocionais que se passam desde a escolha da forma de concepção, até toda a história de vida da maternidade real, podem ser fruto de incontáveis motivações, mas que sejam livres de conjecturas sociais que obriguem qualquer mulher a ser mãe.

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Médica Ginecologista e Obstetra, formada pela Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina, Coordenadora médica do Coletivo Nascer (Grupo transdisciplinar de assistência humanizada à gestação, parto e puerpério em São Paulo-SP)

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