Por que o estudo da PrEP injetável foi interrompido e porque devemos comemorar?

A medicação ainda não está disponível para compra ou no Sistema Único de Saúde

Foto de Anna Shvets no Pexels.

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Saúde LGBT+

Durante muito tempo a camisinha foi colocada como ponto central na prevenção do HIV. De fato, no início da pandemia e até um passado bastante recente, ela era basicamente o único método efetivo para quem conseguia usá-la. O problema é que, muitas vezes, e por diversas razões, as pessoas não utilizam preservativos em todas as relações sexuais que têm.

Por esse motivo, alternativas têm sido pesquisadas. Como sabemos e já foi dito aqui em outros textos da coluna, a PrEP (profilaxia pré-exposição) consolidou-se como um ótimo método preventivo, sendo disponibilizado pelo SUS desde 2017. A medicação utilizada de forma preventiva, somada às consultas médicas regulares, traz o jovem para perto do sistema de saúde e, dessa forma, seu estado de saúde pode ser acompanhado.

Acontece que, como todas as medicações de uso contínuo, o problema da adesão aos comprimidos é sempre uma realidade. As pessoas às vezes se esquecem de tomar os comprimidos por alguns dias, ou viajam e esquecem eventualmente o remédio em casa. Isso, embora indesejável, pode ocorrer e a pessoa pode ficar exposta ao vírus. Dessa forma, a fim de aumentar essa adesão à profilaxia, métodos que dispensem a tomada de um comprimido por dia podem ser a solução.

Pensando nisso, um estudo realizado em vários países conduzido entre 2016 e 2020 foi realizado para avaliar uma nova forma de prevenção ao HIV. Trata-se do HTPN 083. O estudo, em fases avançadas de investigação, compara a eficácia da PrEP que é utilizada hoje (comprimido contendo tenofovir e emtricitabina) com o cabotegravir, um remédio que previne o HIV e que pode ser administrado na forma de injeções bimestrais.

O estudo contou com 4.070 participantes de mais de 40 países e foi composto por homens cisgêneros gays, homens que fazem sexo com homens e mulheres trans. Como característica comum, todos deveriam ter comportamento de alto risco para aquisição de HIV. Ou seja: relações sexuais sem uso de preservativo ou sem outra forma de prevenção, tal como PrEP via oral.

Ao todo, houve apenas 0,79% de casos de HIV no estudo. Quando comparamos o grupo que recebeu a PrEP atualmente disponível (tenofovir e emtricitabina) com o cabotegravir, notamos que o primeiro teve uma incidência de 1,21% de HIV, enquanto no segundo, 0,38%.

Esses dados são extremamente animadores. Em primeiro lugar, podemos perceber que a taxa global de infecção, independentemente do grupo da pesquisa, foi extremamente baixa. Isso é um sinal positivo, pois podemos ver que a PrEP atualmente utilizada realmente protege.

O que é mais animador, entretanto, são os resultados relacionados ao cabotegravir injetável. A droga, aplicada a cada dois meses por via intramuscular, mostrou-se igualmente protetora em relação à PrEP via oral que já é utilizada em larga escala. De fato, se a gente pensar bem, é muito mais prático você tomar uma injeção a cada dois meses do que tomar um comprimido diariamente. Podemos esquecer esse comprimido, viajar e deixar o frasco, além do fato do remédio poder acabar e a pessoa eventualmente ficar sem até o próximo retorno médico.

O resultado evidenciando a eficácia do cabotegravir foi tão importante que em 14 de maio de 2020 o estudo foi suspenso, uma vez que o grupo que tomou o medicamento injetável teve altas taxas de proteção. Os participantes foram informados em que grupo estavam (PrEP oral ou injetável) e puderam escolher qual dos 2 métodos gostariam de utilizar a partir de agora.

Vale lembrar que a medicação injetável ainda não está disponível para compra ou no Sistema Único de Saúde. Ainda em fases de teste, o cabotegravir ainda deve ter um período considerável até sua comercialização. Por isso, é importante que a gente aproveite as estratégias de prevenção do HIV que já existem. Utilizar preservativos, fazer uso da PrEP oral, realizar testagens periódicas, vacinar-se para hepatite B, tratar eventuais ISTs, estimular pessoas que vivem com HIV a aderirem ao tratamento, redução de danos, garantia à assistência pré-natal e utilizar PEP em caso de risco de transmissão ao HIV após relação sexual são formas que, combinadas, reduzem sobremaneira a chance de infecção pelo vírus.

É importante dizer também que uma medicação injetável provavelmente ajudará muito as pessoas mais vulneráveis e com mais dificuldade de acesso ao sistema de saúde. Pessoas com problemas de adesão à medicações por via oral também serão amplamente beneficiadas.

Por fim, é crucial lembrar que esses avanços em relação à profilaxia medicamentosa do HIV devem ser expandidos à pessoas que vivem com HIV atualmente. Medicações injetáveis voltadas ao tratamento dessas pessoas minimizariam em tese chances de falhas na terapia e comodidade de tratamento para pessoas que dependem dessa medicação para não evoluírem para aids. Pensar em novas estratégias preventivas é muito importante, porém precisamos também cada vez mais trazer esquemas terapêuticos seguros e confortáveis para quem já vive com HIV, porque isso, em última análise, também é uma forma de prevenção da transmissão do vírus. Boas notícias que novas pesquisas trazem. Comemoremos.

 

 

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Infectologista formado pelo Instituto Emilio Ribas. Atua na equipe de infectologia da Santa Casa de São Paulo e atende pacientes com hepatites e HIV pela prefeitura de São Paulo. Foi voluntário na Casa 1 no programa de atenção à saúde dos moradores e moradoras.

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