Por mais médicos humanos

Não é de hoje que a sexualidade é ensinada nas escolas médicas sob um viés biológico, orgânico e muitas vezes focado na doença

(Foto: KseniaBazarova/iStock)

(Foto: KseniaBazarova/iStock)

Saúde LGBT+

A formação universitária de um médico dura seis anos. Ao longo da graduação, ele aprenderá o básico necessário a todo médico e terá o primeiro contato com diferentes especialidades. Formado, pode ainda fazer a residência médica, um programa de especialização na área que preferir. Psiquiatria, Clínica Médica, Cirurgia, Oftalmologia… são diversas as especialidades! 

 

 

 

Para ser aceito no programa de residência pretendido, o médico deve passar antes por um processo seletivo, quase um novo vestibular: a prova de residência. São cobrados nessa prova assuntos com os quais todo médico deve, em tese, estar familiarizado.

Explico tudo isso pois, há algumas semanas, vi uma postagem no Instagram que me chocou. Era a foto de uma prova de residência que cobrava o conhecimento de termos relacionados à sexualidade, como orientação sexual, gênero e transexual/transgênero.

A questão em si era bem mal formulada, mas foi chocante ver os comentários de vários colegas (inclusive o autor da postagem, um médico com mais de 20 mil seguidores), criticando a questão por não considerarem o tema relevante para uma prova como aquela. Como se os médicos não precisassem saber do assunto!

 

Não é de hoje que o ensino de sexualidade nas escolas médicas é feito com um viés biológico, orgânico e muitas vezes focado apenas em doenças (como a disfunção erétil, por exemplo), sem muito discutir sobre gênero, orientação sexual e questões sociais relacionadas à sexualidade – como a homotransfobia, a violência e a misoginia, que também contribuem para o adoecimento físico e mental.

Tecnicamente, é importante que o médico estude a sexualidade e suas questões, pois o atendimento às minorias sexuais demanda algumas especificidades. Além de viver experiências singulares, esses pacientes muitas vezes apresentam maior prevalência de algumas doenças físicas e transtornos mentais.

Mas não é apenas por isso que o assunto é importante.

Dizer que esse tipo de questão não importa para a medicina é uma tentativa torpe de barrar o avanço do debate sobre identidades, sobre o preconceito e a violência, mantendo o descaso e a indiferença em relação às minorias sexuais.

É ignorar o fato de que, para ser um bom médico, é preciso muito mais que conhecimento técnico. É preciso empatia e interesse pelo paciente, é preciso saber que quem está ali é um ser humano em sofrimento e não apenas um caso de livro, é preciso perceber que muitas vezes o paciente não procura apenas diagnóstico e remédio, mas sim um olhar atento e um ouvido receptivo aos seus problemas.

Sou humano, nada do que é humano me é estranho”. A frase, atribuída a Terêncio, poeta e dramaturgo romano, me marca porque mostra a chance de proximidade, de abertura em relação ao outro. Faço um convite, então, aos colegas médicos: que sejamos humanos! Que possamos nos despir da imagem antiquada de simples autoridade técnica e inatingível para podermos nos relacionar com os nossos pacientes de forma mais humana e acolhedora. Todos os médicos deveriam aprender a ser humanos. Mas, infelizmente, isso não se ensina na graduação nem na residência.

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Psiquiatra formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. É também psicanalista de orientação lacaniana e atua como psiquiatra voluntário no projeto da Casa 1.

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