O que a explosão no Líbano e as mortes por Covid-19 têm a ver com saúde LGBT?

No Brasil, uma pessoa LGBT é morta a cada 23 horas e não temos a mesma comoção

Foto Agência Brasil

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Saúde LGBT+

Há algumas semanas, no dia 04 de agosto, houve uma explosão em um porto em Beirute, capital do Líbano, que matou algumas centenas de pessoas e deixou por volta de 6 mil feridos. O fato foi noticiado em todos os grandes portais de notícias do Brasil e do mundo e não foi incomum, naquele dia, que pessoas viessem até mim falar “nossa, você viu o que aconteceu?”, “que tragédia isso”, entre outras manifestações de tristeza e horror.

Alguns dias depois, em 08 de agosto, o Brasil chegou à marca oficial de 100 mil vidas perdidas em decorrência da pandemia de Covid-19. O fato também foi noticiado na grande mídia, mas curiosamente as pessoas ao meu redor não falaram tanto sobre esse marco e a minha percepção é de que isso não foi visto com o mesmo horror e tristeza que o acontecimento no Líbano, apesar do número maior de atingidos e mortos. Por que será?

Recentemente eu ouvia um episódio do podcast O Assunto, da Renata Lo Prete, que falava dessa questão e a hipótese feita pelos discutidores era a de que um dos motivos pelo qual o evento ocorrido no Líbano atraía mais atenção e espanto das pessoas era a questão da visibilidade.

Em Beirute, houve explosão, fogos, destroços, barulho, corpos, enquanto a pandemia de alguma forma ocorre de forma mais “invisível”: as pessoas estão em isolamento, os doentes em UTIs com acesso restrito, os mortos em funerais a que ninguém pode comparecer.

 

É claro que essa não é a única razão para isso, mas achei interessante pensar na visibilidade (no sentido de estar aparente, ser visto) como um fator importante para receber atenção e gerar comoção e em como isso também pode se aplicar a questões que envolvem a comunidade LGBT.

No Brasil, uma pessoa LGBT é morta a cada 23 horas. Dados publicados pela ONG Transgender Europe, em 2016, põe o Brasil no topo do ranking de países com mais registros de homicídios de pessoas trans. A expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de 35 anos, menos da metade da média nacional.

E mesmo com esses dados aterrorizantes, a cantora sertaneja Marília Mendonça, em uma de suas lives assistidas por milhões de pessoas, se sentiu à vontade para fazer uma piada transfóbica, que teria passado despercebida por muitos, não fosse pelo fato de uma mulher trans, Bruna Andrade, ter feito um vídeo que viralizou chamando atenção para o ocorrido.

A intenção aqui não é crucificar Marília Mendonça e sim pensar o quanto muitas vezes essas agressões e violências à população LGBT não são “vistas”, mesmo que aconteçam frequente e repetidamente diante de nós. Lembrando que o preconceito, o estigma e a violência contribuem para piora da saúde física e mental desses indivíduos, muitas vezes inclusive os afastando dos serviços de saúde.

Como fazer para que isso tenha mais visibilidade e, por consequência, sensibilize mais as pessoas?

Acho que um jeito possível é o que Bruna Andrade utilizou: falar sobre o assunto e apontar as violências. E fazer isso é um papel de todos, não apenas da comunidade atingida. As pessoas que sofrem as violências muitas vezes já estão fragilizadas e atacadas demais para se defenderem, cabe a todos tomar essa posição. Quando as atitudes preconceituosas são tratadas como normais, a violência passa despercebida e isso apenas contribui para a manutenção da situação.

Portanto, é importante que a gente não ignore aquele amigo que fez uma piada inadequada (“ah, foi só uma brincadeira, ele não fez por mal”) ou o seu avô que fez um comentário preconceituoso (“ele é idoso, não vai mudar”). Sempre que não apontamos esse tipo de violência contribuímos para a normalização da mesma.

Representatividade

Outra coisa que me parece importante é que essas minorias tão atacadas tenham espaços garantidos na sociedade e também em nossas vidas. Quantas pessoas trans trabalham na sua empresa? Quantas estão no seu círculo de amigos? Ou dentro da política? Aumentar nosso contato com esse grupo de pessoas (e uso as pessoas trans por conta do exemplo citado, mas poderíamos falar da comunidade LGBT como um todo, das pessoas gordas, das pessoas pretas, das pessoas com deficiência, etc), deixando-as mais próximas de nós, pode contribuir para que nosso olhar seja mais atento a elas e ao seu sofrimento, gerando mais atitudes para combater o preconceito.

A violência direcionada à comunidade LGBT, especialmente à população trans, é infelizmente uma realidade muito presente no Brasil e no mundo e cabe a todos aumentarmos a visibilidade dessa questão, gerando políticas públicas e atitudes da sociedade em direção ao combate ao preconceito e ao estigma. Se o que não é visto não gera comoção, que nós falemos o quanto pudermos disso, usemos nossas redes sociais,  gritemos, soltemos fogos de artifício ou o que quer que seja necessário para que todos prestem atenção e realmente vejam o problema.

 

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Psiquiatra formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. É também psicanalista de orientação lacaniana e atua como psiquiatra voluntário no projeto da Casa 1.

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