Linn da Quebrada e o envelhecimento LGBT

As velhices LGBT são duplamente invisíveis, logo, mais expostas às vulnerabilidades sociais

Linn da Quebrada. Foto: Reprodução/ Twitter.

Linn da Quebrada. Foto: Reprodução/ Twitter.

Saúde LGBT+

O envelhecimento populacional já é uma realidade. Mas, apesar dos esforços dos especialistas em ressignificar o envelhecimento e a velhice, vários tabus relativos às questões de gênero e de sexualidade ainda privam e limitam as pessoas idosas do amor, do sexo e do prazer. São impedidas de sentirem desejos, de relacionarem-se sexualmente e de perceberem-se como bonitas e sensuais.

Em uma sociedade gerontofóbica, que não reconhece e valoriza a velhice, e que ainda é permeada pelo binarismo heterocisnormativo, as lésbicas, os gays, os bissexuais, as travestis e pessoas transexuais enfrentam outros (e possivelmente mais intensos) estigmas. Um exemplo: a “cobrança” sobre os homens gays em relação à manutenção de um corpo “musculoso” e “masculino”.

Os estudiosos do campo de saber gerontológico podem se beneficiar das músicas questionadoras da Linn da Quebrada.

Linn da Quebrada. Foto: Reprodução/ Twitter.

Ela é atriz, cantora e compositora, e hoje figura entre uma das artistas LGBT mais relevantes do cenário brasileiro. Sua performance busca principalmente a desconstrução da hétero-cis-normatividade. Nesse artigo, iremos analisar sua composição A Lenda para debater sobre os mitos e estereótipos que oprimem as pessoas idosas, em especial as LGBT.

 

Invisibilidade do envelhecimento LGBT

“Vou te contar a lenda da bicha esquisita
Não sei se você acredita, ela não é feia (nem bonita)
Mas eu vou te contar a lenda da bicha esquisita
Não sei se você acredita, ela não é feia (nem bonita)”

 O corpo, muito além de um organismo biológico, é um organismo cultural, que se relaciona com o biológico, formando e condicionando sua expressão e relação com o mundo.

Nessa perspectiva, os corpos culturais também são permeados por uma relação de poder, que determina as condições relacionadas ao gênero e à vivência da sexualidade. O francês Jean Baudrillard destaca: “Salta aos olhos que o processo de redução do corpo ao valor de permuta estética/erótica abrange tanto o masculino quanto o feminino”, e por meio dessa denúncia que também está relacionada às motivações do mercado e consumo, ele se refere as questões de gênero que envolvem essas construções.

O modo de ser homem e ser mulher são condicionados pela cultura, e há cobranças para que respondam às expectativas da sociedade. O homem, por exemplo, emula a convicção de superioridade, o patriarcado e a representação do falo (pênis) enquanto símbolo de poder. Já as mulheres, são condicionadas a assumir uma identidade frágil e voltada ao cuidado.

 

O que seria, então, “a lenda da bicha esquisita”?

Os corpos LGBTs muitas vezes transgridem as normas culturais. Trata-se de um processo de emancipação da identidade e ao mesmo tempo, uma afronta aos valores que determinam a relação de poder entre os gêneros. Esses corpos, contudo, não estão livres de se forçar à adequação do binarismo para se sentirem integrados e seguros nesse complexo sistema social.

A cobrança à pessoas transgêneras pela passabilidade – a possibilidade de ‘passar por cis’, objetivo último da transição, a cobrança pelo corpo musculoso que força o estereótipo da masculinidade aos homens gays, a feminilidade idealizada que oprime mulheres lésbicas, são meios de reforçar a invisibilidade de quem transgride o sistema hétero-cis-normativo e forçá-los a se adaptar a uma hipócrita aceitação da diversidade.

Esses corpos envelhecem ofuscados pelo preconceito. E já na velhice, são reforçados ainda mais os padrões de uma velhice hétero-cis-normativa. As velhices LGBT não possuem a devida representatividade e atenção no movimento, e muito menos no movimento ou nos serviços voltados aos idosos. São duplamente invisíveis. Logo, mais expostas às vulnerabilidades.

A geração de pessoas hoje idosas também tiveram sua orientação ou identidade de gênero reprimidas por preconceitos, medos ou culpa. Esse processo, conhecido também como homofobia internalizada, acaba favorecendo a negação de orientação sexual ou identidade de gênero.

Podemos então, associar a “lenda da bicha esquisita, que não é feia e nem bonita”, como um tanto faz, composto por estruturas sociais perversas que generalizam corpos, identidades e orientações, que ferem e ignoram a resistência e transgressão dos idosos LGBT, que deram aos mais jovens novas perspectivas de ser e vivenciar nossas expressões e identidades.

Arte e reflexão: de que envelhecimento estamos falando?

 

“Ela sempre desejou ter uma vida tão promissora
Desobedeceu seu pai, sua mãe, o Estado, a professora
Ela jogou tudo pro alto, deu a cara pra bater
Pois pra ser livre e feliz tem que ralar o cu, se foder

De boba ela só tem a cara e o jeito de andar
Mas sabe que pra ter sucesso não basta apenas estudar
Estudar, estudar, estudar sem parar
Tão esperta essa bichona, não basta apenas estudar
Fraca de fisionomia, muito mais que abusada
Essa bicha é molotov, o bonde das rejeitada”

 

Sabemos que arte também é uma expressão para criticar e propor novas possibilidades. Muito além das dicotomias belo/feio e certo/errado, conseguimos experimentar por meio da arte novas sensações, que podem ser prazerosas, gerar empatia ou provocar estranhamento.

O mais interessante desse processo é permitir-se a essas sensações e tentar organizá-las, por meio de reflexões, autoconhecimento a troca de experiência com as outras pessoas. Por isso, arte é tão importante para construção, desconstrução e re-construção das nossas ideias e percepções.

A Linn da Quebrada traz em seu nome esse compromisso, quando pensamos nas possibilidades da Linn – uma mulher, que é da Quebrada – termo utilizado que se refere à periferia, regiões pobres e que concentram uma realidade de alta vulnerabilidade social, como também pode ser interpretada como Linnda – que se refere à excessiva beleza da Quebrada – a valorização da periferia.

Enquanto travesti, preta e da quebrada, ela traz uma leitura importante sobre as pessoas LGBT que, para serem felizes, precisam confrontar os valores morais e religiosos – nem que para isso, tenham que “desobedecer seu pai, o Estado e a professora”.

Nesse emaranhado de acordos que privilegiam uns sobre outros é que nasce a desigualdade. O que justifica, por exemplo, a expectativa de vida de travestis ser de 35 anos de idade, enquanto a população hetero-cis-normativa alcança média de 74,9 anos.

Por isso, é importante a representatividade de Linn da Quebrada, em que, no seu lugar de fala, apresenta uma realidade de envelhecimento que pouco discutimos socialmente.

 

A sexualidade e a sensualidade na velhice são engraçadas?

 

“Eu tô bonita? (tá engraçada)

Eu não tô bonita? (tá engraçada)

Me arrumei tanto pra ser aplaudida mas até agora só deram risada

Eu tô bonita? (tá engraçada)
Eu não tô bonita? (tá engraçada)
Me arrumei tanto pra ser aplaudida mas até agora só deram risada”

Com o passar dos anos algumas mudanças fisiológicas ocorrem: a redução de lubrificação vaginal nas mulheres ou o declínio da intensidade da ejaculação nos homens. Mas são os preconceitos que levam a crer que essas alterações são as principais causas de dificuldades na expressão sexual.

Nesse contexto, ao invés de tentar somente “normalizar”, “operar” e tratar as alterações ditas como “anormais”, é importante que a sociedade discuta as barreiras que limitam a expressão dos afetos e dos amores na velhice. Para reduzir sofrimentos e angústias nessa fase da vida, a geriatria e a gerontologia devem também entender os obstáculos culturais.

 

Ainda sobre as discriminações enfrentadas pelos mais velhos, considera-se também uma repressão importante sobre sua sensualidade, também entendida como a representação do prazer sensorial associado à sexualidade.

Alguns autores, como Debert já analisaram a valorização da juventude e a antipatia pela velhice do envelhecimento ocidental.

Não haveria, portanto, espaço para os idosos manifestem sua sensualidade, visto que carregam diversos estereótipos, são marginalizados pelos mais jovens e por seus pares e vivem em uma sociedade carregada pela hierarquização de critérios de beleza associados à juventude.

Infelizmente muitas pessoas idosas também sentem o que Linn da Quebrada retratou em sua música. Desejam uma sensualidade que é onerada pelo pensamento hegemônico. Precisam lidar com o dilema entre a busca pela sensualidade e a imposição da comédia, e ao invés do prazer de sentirem-se belas, tem reservada apenas as risadas, as quais ratificam um estigma social.

O riso pode ter funções positivas e negativas em nossas vidas, mas neste ponto é uma manifestação de discriminação que tenta naturalizar preconceitos respaldados pelo pensamento gerontofóbico e LGBTfóbico.

Irigaray e colaboradores discutem em um ensaio que analisou a questão do humor como forma de discriminação em ambientes de trabalho que o riso pode ser considerado como uma sutil forma de controle da sexualidade, do espaço social e dos valores heteronormativos. Debatem também sobre quem é o engraçado. Nas palavras dos autores: “Esta certa política da diferença marca os depoimentos, pois o riso se deve, em essência, ao fato de que os homossexuais são os outros (não nós), diferentes; portanto, engraçados – e menores como indivíduos” (grifos do autor).

Em outras palavras, o engraçado será sempre o outro: o velho, a travesti, a lésbica, o gay, o bissexual, as pessoas trans e todos aqueles que ousarem expressar uma sexualidade não hegemônica.

 

Os corpos LGBT envelhecidos importam?

 

“Abandonada pelo pai, por sua tia foi criada
Enquanto a mãe era empregada, alagoana arretada
Faz das tripas o coração, lava roupa, louça e o chão
Passa o dia cozinhando pra dondoca e patrão

Eu fui expulsa da igreja (ela foi desassociada)
Porque “uma podre maçã deixa as outras contaminada”
Eu tinha tudo pra der certo e dei até o cu fazer bico
Hoje, meu corpo, minhas regras, meus roteiros, minhas pregas
Sou eu mesmo quem fabrico”

 

Ao longo da nossa vida com quantas pessoas LGBT você se relaciona? Essa é uma questão muito importante.

Quando nos referimos às minorias, falamos de um grupo deslegitimado socialmente. Ou seja, não é questão quantitativa.

E em segundo lugar, se você respondeu mentalmente “que tem amigos, familiares e é indiferente à orientação sexual ou identidade de gênero deles”, informamos que possivelmente, está reforçando um preconceito estrutural.

Cotidianamente,  falamos sobre sexualidade, afetos, sexo, aparência, gestos, desejos e expressões. Por que , então, ignorar a diversidade sexual e de gênero, quando essas estão constantemente presentes em nossa relação com o mundo?

Um envelhecimento possivelmente marcado por agressões e rompimentos com a família, à dificuldade de permanecer na escola, o sentimento de culpa e anormalidade, e o acesso limitado ou restrito aos serviços, emprego e outros espaços sociais, marcam a diversidade nas velhices. Muitas veze, essas questões são tratadas como subjetivas, responsabilidade da própria pessoa, quando na verdade, as condições são postas socialmente.

 

E então?

“Eu tô bonita? (tá engraçada)
Eu não tô bonita? (tá engraçada)
Me arrumei tanto pra ser aplaudida mas até agora só deram risada”

 

Apesar de “A lenda” não tratar especificamente sobre a velhice, Linn da Quebrada apresenta reflexões importantes sobre o processo de envelhecimento, considerando os mitos, estereótipos e tabus.

Há pelo menos duas décadas os estudiosos do envelhecimento populacional discutem a “erotização da velhice”, e conseguiram romper um paradigma que mantinha diversas pessoas idosas sob uma “assexualidade” compulsória.

Muito dessa concepção sobre a sexualidade, entretanto, ainda está carregado de uma noção biológica de naturalização sexual.

Resistir a essa teoria é entender que o sexo, assim como o gênero, não são um fenômeno natural, e sim produtos de sistemas culturais.

Para a gerontologia, superar esses desafios será fundamental a incorporação dos estudos feministas, que demonstram que a desigualdade entre os sexos, a dominação masculina e a subordinação feminina não são atribuíveis à biologia.

Por fim, diversos programas de envelhecimento ativo têm incorporado a discussão sobre sexualidade como pilares da manutenção da autonomia e da independência das pessoas idosas.

Mas, se não pararmos para questionar as construções socioculturais que limitam o papel social de algumas pessoas, a gerontologia jamais conseguirá reduzir as vulnerabilidades de todos aqueles que deseja abraçar.

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Diego é mestre em Filosofia pela USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e Padrinho da ONG Eternamente Sou, voltada ao público LGBTQIA+ 50+.

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