Diversidade

Infecções sexualmente transmissíveis entre mulheres: por que ainda falta tanto a saber?

A desinformação e o preconceito no sexo geram um grande problema de saúde pública

Foto: Jéssica Kidermann/Tem Que Ter.
Foto: Jéssica Kidermann/Tem Que Ter.
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A invisibilidade lésbica e bissexual se expressa de muitas formas, uma delas é a própria inexistência de métodos de prevenção específicos às ISTs para as relações entre duas ou mais pessoas com vagina. Métodos esses que deveriam ser pensados por pessoas que utilizariam dos mesmos em suas práticas.

Aqui neste texto vou usar meu lugar de fala como mulher cis lésbica médica – ginecologista e obstetra, que frequentou uma universidade tradicional onde o tema em si era superficialmente abordado. Aprendi na prática da vida e da profissão quais seriam as possíveis ISTs e quais são as surpreendentes formas de prevenção.

 

O sexo entre duas vulvas vem na sociedade carregado de muitos preconceitos, o maior deles, e que já acarreta uma série de problemas, é não ser visto como uma prática sexual completa por si só, e sim como “preliminares” – uma enorme forma de desqualificar todo um grupo que tem por base essas práticas.

Baseado nessa forma de pensar está o ensino médico dos profissionais que vão atender essa população – focado no sexo heterossexual e no falo como principal forma de prazer. Um exemplo bem atual disso são os inúmeros cursos de sexualidade e liberdade feminina que têm como ponto auge  o uso de diversos tipos de vibradores ou outros objetos, que acabam por subjugar o corpo feminino como fonte do seu próprio prazer.

Cria-se, assim, um ciclo onde ensino médico não aborda essa temática de forma objetiva e eficaz; profissionais despreparados não sabem como abordar esse tema em consulta; mulheres se vêem em uma cena de enorme desconforto e desencorajadas a procurar novamente o serviço de saúde, acarretando risco para si e para suas parceiras. E, dessa forma, a desinformação vai gerando um grande problema de saúde pública.

E não é de hoje que este é um problema. Na década de 80, vimos uma crescente preocupação da sociedade com as ISTs em população homossexual devido ao surto de HIV/AIDS. No entanto, a direção desses holofotes foi implacável na conotação de preconceito e marginalização desses indivíduos e absolutamente falha na conversão em medidas públicas de saúde que promovessem informação, prevenção e igualdade no direito de se cuidar. Hoje, quase 40 anos depois, ainda convivemos com esse vazio.

Por este motivo, entendemos a importância de divulgar informações sobre as principais ISTs que essas mulheres são expostas ao longo da sua vida com outras mulheres. Tendo em vista que a saúde sexual de homens trans possui diversos aspectos diferentes da saúde sexual de mulheres lésbicas e bissexuais com vulva, não seria adequada a abordagem desse tema sem que suas nuances fossem completamente contempladas. Dessa forma, em respeito a essa população e por entender que merecem um espaço reservado só para eles, e que contemple seu lugar de fala, opto por me direcionar apenas a mulheres lésbicas e bissexuais com vulva.

A quais ISTs estou exposta quando me relaciono com mulheres cis:

Apesar da vaginose bacteriana não ser entendida classicamente como IST, quando avaliamos mulheres com vulva que se relacionam apenas com outras mulheres, a prevalência dessa doença é muito relevante. Sabemos que na troca de secreções durante a relação, há troca e compartilhamento de bactérias, por isso, se sua parceira apresenta esse desequilíbrio, com a presença de corrimento com odor desagradável, você tem mais chances de ter.

IST O que é? Forma de transmissão Como desconfio?
Doença inflamatória pélvica Infecção em diferentes órgãos genitais causadas pelas bactérias clamídia e gonorreia. Penetração, contato de mucosas Presença de corrimento e dor pélvica.
Herpes Genital Lesões vulvares dolorosas causadas pelos vírus HSV-1 ou HSV-2 Sexo oral, Penetração, contato mucosas lesionadas Presença de lesões na vulva
HIV/SIDA Imunodeficiência adquirida causada pelo vírus HIV Penetração, contato com sangue, contato de mucosas lesionadas Exame de sangue (sorologia)
HPV Verrugas vulvares ou lesão de colo do útero (câncer de colo de útero) Penetração, contato de mucosas lesionadas Presença de lesões na vulva, coleta de papanicolau a partir de 25 anos
Hepatites virais Lesão no fígado causada pelos vírus da Hepatite B ou C Penetração, contato com sangue Exame de sangue (sorologia)
Sífilis Ferida genital ou lesões na pele causadas pelo Treponema Pallidum Penetração, sexo oral, contato com mucosa lesionada, contato com sangue Presença de lesões na vulva, Exame de sangue (sorologia)

* Penetração – dedos ou objetos – há sempre o potencial de promover micro lesões e exposição a gotículas de sangue/secreção.

E quais são as opções possíveis de prevenção:

Claramente, a maioria dessas opções não foi criada por mulheres e para mulheres. Boa parte delas é uma adaptação possível de métodos de barreira masculinos. No entanto, são as que temos disponíveis no momento e na ausência de novas opções, são as que devem ser utilizadas . O objetivo deste artigo é informar e colocar em pauta a discussão do que de fato falta para que sejamos vistas e cuidadas. Para que possamos, assim, ter ampliado nosso espaço de fala, e quem sabe fomentar discussões para criação de novos métodos de proteção específicos para mulheres lésbicas e bissexuais.

  • Recomenda-se o uso de barreiras de látex que isolem as mucosas da boca, impedindo o contato com a mucosa da vagina e prevenindo a transmissão de infecções e doenças. O dental dam utilizado por dentistas acaba sendo adaptado para esse uso, ou então o feito de modo caseiro: preservativo comum  cortado  para deixá-lo em formato de retângulo, que se torne também uma barreira entre boca e vagina.
  • Luvas descartáveis: são recomendadas nas relações entre dedos e vagina ou ânus. Evitando que possíveis feridas possam entrar em contato. Sempre lembrar da higiene das mãos antes e depois das práticas e a manutenção das unhas curtas e bem limpas.
  • Usar preservativo comum e higienização no compartilhamento de objetos como vibradores antes da troca entre as parceiras.
  • Para o contato entre duas vulvas, existe a possibilidade do uso de calcinhas de látex, que permitem manter a sensibilidade e funciona como barreira entre as mucosas. Também pode ser utilizado para sexo oral.

O auto conhecimento e a liberdade de conversa entre as parceiras é um grande promotor de cuidado pessoal e aumenta consideravelmente a chance de ambas se sentirem à vontade para lançar mão de uma das estratégias acima para se proteger.

A ideia da liberdade sexual está além da busca por novas ou melhores formas de prazer. A liberdade sexual está diretamente relacionada à possibilidade de se enxergar como indivíduo, que tem possibilidade de amar, gozar, se apaixonar, mas também de adoecer. Da mesma forma sua parceira.

É crucial que possamos ter um tempo diário com nosso corpo, para perceber nossos detalhes, nos respeitar e assim nos proteger e proteger nossas companheiras. A mulher que relaciona-se bem com seu próprio corpo, melhor se relaciona com o corpo da outra. Eu diria que se apropriar das nuances dos nossos detalhes é a melhor opção para termos mais segurança nas nossas relações.

Patrícia Carvalho

Patrícia Carvalho
Médica Ginecologista e Obstetra, formada pela Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina, Coordenadora médica do Coletivo Nascer (Grupo transdisciplinar de assistência humanizada à gestação, parto e puerpério em São Paulo-SP)

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