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Diversidade familiar: a possibilidade de amamentar um filho não gerado

A lactação induzida é um processo longo, mas possível para um grande número de pessoas

Amamentação familiar. Foto: Pixabay
Amamentação familiar. Foto: Pixabay
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No més de agosto acontece A Semana Mundial de Aleitamento Materno (SMAM 2020), momento em que ouvimos falar muito sobre o tema. Mas esta data também é um momento importante para tratar sobre aleitamento, apropriação e maternidade de todos os tipos de família.

Por este motivo, nada melhor que falarmos sobre lactação induzida para a população LGBTQIA+.  Já pararam para pensar como aquela pessoa que não gestou tem a possibilidade de amamentar?

Seja essa pessoa uma mulher que adotou, um homem trans que vai ser pai, ou, em um casal de lésbicas, a mãe que não gestou, ter informações sobre a possibilidade de amamentar um filho não gerado e sobre todos os benefícios que este ato pode trazer é um grau de liberdade.

A lactação induzida é um processo longo, mas possível para um grande número de pessoas. É necessário, primeiramente, que a pessoa tenha ainda glândulas mamárias, que serão
estimuladas por um protocolo que utiliza métodos hormonais, medicamentosos (galactogogos e fitoterápicos) e mecânicos. A depender de como o bebê vai chegar nessa família, a época e o recurso utilizado vai ser escolhido.

Atualmente, o protocolo completo, com o emprego dos 3 recursos, tem sido o mais utilizado pela sua maior chance de sucesso, conforme mostra a literatura médica.  Ele é o mais descrito em termos de volume de leite e em pessoas que conseguiram amamentar.

No entanto, não é a única possibilidade: há protocolos em se utiliza apenas fitoterápicos, outros que se valem do estímulo da sucção do bebê associada à bomba de ordenha e há também aqueles que não utilizam hormônios.

Isso tudo porque a forma como esse bebê chegou e qual é a situação de saúde da pessoa estimulada são realidades que direcionam para o tipo de indução escolhida. Assim como todo e qualquer processo que envolva uma intervenção, este não deixa de ser um que possua contraindicações e limitações de técnicas a serem aplicadas de forma segura e eficaz, após avaliação individual.

Adoção

Para casos em que aquela família vai crescer com a chegada de uma criança por meio da adoção, muito raramente é possível saber quando esse momento vai acontecer. Dessa forma, o estímulo inicial já é feito com a sucção do bebê, usando como aliada uma sonda de relactação. Ela é adaptada à mama da pessoa que vai amamentar, de forma que a criança abocanhe o bico do peito, e justo ao lado, vai estar a extremidade da sonda.

Por ela sai a fórmula de complementação que vai garantir a nutrição do bebê nesse primeiro momento, até que a indução esteja estabelecida e simultaneamente vai manter o estímulo de produção de leite por aquela mama que o acolhe. Em paralelo pode ser utilizada a bomba de ordenha e alguns galactogogos (medicamentos cujo efeito colateral é aumento da prolactina, o que estimula a produção de leite) e fitoterápicos. Sempre de acordo com a avaliação de risco individual para o uso dessas medicações.

Sabemos que até 8 semanas de vida é quando os bebês desenvolvem e aprimoram seus reflexos de sucção. Portanto, nas situações em que a criança chega naquela família após este período, temos uma menor chance de sucesso.

E infelizmente no Brasil, com toda a burocracia que gira em torno dos processos de adoção, essa fase é comumente ultrapassada.

No entanto, ainda assim é possível e deve-se tentar a indução, se for o desejo daquela família. O resultado vai depender da relação que essa criança tem com a forma que até então ela vinha sendo alimentada (infelizmente, na maioria das vezes, a mamadeira), da pega e de toda relação emocional de ansiedade e estresse que, não raramente, envolve essas situações.

Gestação

Por outro lado, quando a criança vai ser gerada por uma das pessoas daquela família, é possível estimar minimamente o momento da chegada e iniciar os processos de estimulação daquela que pretende amamentar.

Inicialmente, nos valemos de estímulos hormonais, que vão fazer aquele corpo se enxergar “quimicamente grávido”. Além do estímulo vinculado ao uso de hormônios, o uso de galactagogos e estimulantes naturais, como o fenogrego, ajudam a induzir esse corpo à lactação.

Tanto a eleição hormonal quanto a medicamentosa devem ser feitos após avaliação e consideração de contraindicações específicas a cada indivíduo. E ao final, quando os últimos meses da gestação se aproximam, a estimulação mecânica entra em cena, com a bomba de ordenha. É um processo lento, mas que traz, em si, muito resultado. A princípio nas primeiras semanas, uma ou outra gota vai aparecer no pote coletor. Mas ao final de um mês já é possível começar a ter um pequeno estoque de leite para esse bebê que vai chegar.

É importante ter em vista que todo o processo de indução da lactação e seu sucesso não estão pautados na quantidade e volume da produção de leite. Há casos em que a estimulação foi eficaz, no entanto o volume produzido não foi o suficiente para alimentar aquele bebê. Nessas situações, a pessoa que amamenta pode continuar se valendo do uso da relactação por mais algum tempo, complementando a nutrição daquela criança.

Isso não quer dizer que o processo não gerou resultado, ou que não tenha valido o esforço. De fato, não chega nem perto disso, porque a amamentação vai para além de simplesmente ser fonte de nutrição. A amamentação é uma relação, uma forma de vínculo. O que em uma sociedade que nos questiona e impõe tantos papéis, está por si só recheado de empoderamento, para aquelas pessoas que optam por se apropriar dessa possibilidade.

Há ainda quem vá querer questionar sobre amamentação cruzada. De fato, a definição está em amamentar alguém que não foi gerado por você, o que é desaconselhado pelos órgãos
reguladores, devido ao risco de transmissão de doenças infectocontagiosas.

No entanto, qualquer mulher que esteja infectada na gestação, é um risco potencial de transmissão para seu bebê e não apenas quem induz. Dessa forma, os exames de sorologias solicitados ao longo do pré-natal, e principalmente no terceiro trimestre, devem ser colhidos simultaneamente por aquela pessoa que também pretende amamentar.

E ainda que com todos os exames perfeitos em mãos, há hospitais que vão rotular como amamentação cruzada e não permitirão a amamentação por quem não pariu, ainda na sala de parto. Ainda temos um longo caminho para trilhar, até que entendam que o que está acontecendo ali é família, na sua forma pura e simples. Que aquela pessoa não está amamentando o filho de outra, mas sim seu filho! O qual, conforme previsto em lei, já sairá do hospital com registro no nome das duas mães.

Patrícia Carvalho

Patrícia Carvalho
Médica Ginecologista e Obstetra, formada pela Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina, Coordenadora médica do Coletivo Nascer (Grupo transdisciplinar de assistência humanizada à gestação, parto e puerpério em São Paulo-SP)

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