Coronavírus: a responsabilidade em tempo de epidemia é de todos nós

Vamos desacelerar nossos modos de vida, pensar na comunidade e entender que fazemos parte de um todo que precisa estar unido

Coronavírus: a responsabilidade em tempo de epidemia é de todos nós

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Desde o início de janeiro, o mundo tem assistido com espanto a um fenômeno chamado coronavírus. Você deve estar se perguntando: vão falar de Covid-19 numa coluna de saúde LGBT+? A resposta é sim.

Escrevo sobre o tema pois atualmente é crucial que informações corretas e fidedignas sejam transmitidas. Além disso, é de suma importância, em momentos de crise, deixar alguns assuntos em segundo plano e priorizar o que deve ser veiculado. Eu fiquei pensando durante muito tempo: será que vale a pena escrever sobre gonorreia, tema que seria desse mês? Cheguei à conclusão de que as pessoas estão lendo sobre coronavírus e sedentas por tal informação. Logo, a gonorreia vai esperar alguns meses para ter seu momento de fama.

Esse vírus é um completo desconhecido?

Vírus pertencentes à família Coronavidiae foram descobertos em meados de 1960. Até 2002, eram conhecidas quatro espécies de coronavírus, todos causadores de resfriados comuns e sem implicação em casos graves de síndrome gripal.

Em 2002, o primeiro coronavírus com capacidade de causar formas graves da doença foi identificado. A epidemia de SARS, originária na China, teve aproximadamente oito mil casos com quase 800 mortes. A doença espalhou-se pelo globo, com um total de 29 países com casos e uma duração de aproximadamente dois anos de epidemia.

Em 2012, uma nova mutação do vírus ocasionou a MERS – Síndrome Respiratória do Oriente Médio. Essa epidemia, com epicentro na Arábia Saudita e concentrada em poucos países, teve menor número de casos em relação à SARS, porém foi responsável por uma taxa de mortalidade muito maior, chegando a quase 35%.

No dia 31 de dezembro de 2019 foi notificada, por autoridades chinesas à Organização Mundial de Saúde, a ocorrência de grande número de casos de uma pneumonia de origem desconhecida. Tal pneumonia, dia 8 de janeiro, teve seu agente causador identificado. Trata-se, novamente, de um vírus da família Coronavidiae, porém de uma nova espécie.

Rapidamente a situação chinesa tornou-se bastante grave, com quarentenas e isolamentos sociais impostos. O vírus disseminou-se inicialmente em países asiáticos, posteriormente na Europa e, agora – como já sabido – temos casos nas Américas e um grande aumento de casos no Brasil.

 

O que mais impressiona em relação ao Covid-19 – nome dado ao novo coronavírus – é sua capacidade de disseminação. Estima-se que a razão de transmissão gira em torno de 2,73. Ou seja, uma pessoa com o vírus pode contaminar 2 a 3 pessoas. Além disso, o vírus consegue sobreviver em superfícies durante um período de até 48h. Você pode me questionar dizendo que o sarampo, por exemplo, tem uma razão de transmissão em torno de 18. Acontece que, diferentemente do Covid-19, o sarampo tem vacina disponível e medidas de vacinação de bloqueio são eficazes.

Situação no mundo e no Brasil

Atualmente, de acordo com relatório divulgado em 15 de março pela OMS, temos 153 mil casos confirmados no mundo em 144 países, com mortalidade global em torno de quatro mil. No Brasil, o último balanço aponta 314 casos confirmados, 1.917 em investigação e uma morte em São Paulo. A epidemia segue o mesmo curso de outros países, dobrando a cada 24-48 horas.

A mortalidade é baixa, devo me preocupar?

Temos, de fato, uma doença com perfil de letalidade relativamente baixo, porém, com uma capacidade de disseminação altíssima. Logo, mesmo que a letalidade em termos relativos não assuste, quando falamos de muitas pessoas contaminadas, esse número em valores absolutos tende a ser alto e preocupante.

Além disso, a taxa de mortalidade não é uniforme. Existem pessoas com mais chance de adoecimento e óbito. Por isso, preocupar-se com a própria saúde e evitar a transmissão é uma forma de cuidar de quem pode evoluir com gravidade. Essas pessoas consideradas com maior propensão a quadros graves são idosos, pessoas com problemas de saúde, pessoas em tratamento de câncer, pessoas transplantadas.

E como me prevenir?

Em primeiro lugar, não faça como o presidente da República, que saiu do isolamento para cumprimentar apoiadores que participavam da manifestação a favor do governo e contra o Congresso e o STF no domingo 15. Evite contatos físicos e aglomerações. Quem puder trabalhar de casa, o faça. Quem tiver a chance de não utilizar transporte coletivo, não use. Além disso, é importante sempre lavar as mãos com frequência e ter um álcool gel disponível, bem como evitar colocar a mão no rosto. Aquele abraço caloroso na hora dos cumprimentos pode ficar para outro momento. O uso de máscaras ainda não está recomendado pelo ministério da Saúde, porém, sabemos que com o decorrer da semana e o curso da epidemia, essa recomendação pode mudar.

Não é exagero tudo fechando e sendo cancelado?

Muitas vezes é um pouco chato perder o evento que você estava esperando há meses, ou não conseguir ir trabalhar, ou não poder fazer as atividades diárias. É muito importante entender que, ao contrário de outros cenários de epidemia, nessa não temos medicamento específico contra o vírus, nem vacina. Logo, o único método que pode mudar o curso da epidemia é o isolamento social.

Estudos baseados em modelos matemáticos mostram que o isolamento social é a única forma de diminuir o pico da curva epidêmica. Ou seja: podemos ter uma epidemia, porém com menos casos. Isso é importante quando falamos de leitos de hospitais e quantidade de vagas. Diminuir o número de casos que necessitem hospitalização é vital para que o SUS não entre em colapso. Exemplo disso é a situação pela qual a Itália vem passando nos últimos dias.

O recado que eu gostaria de dar, em momentos de ansiedade generalizada e medo, é um só: sejamos solidários. Vamos desacelerar nossos modos de vida, pensar na comunidade e entender que fazemos parte de um todo que precisa estar unido. Deixemos nossas vontades individuais para depois. A academia pode esperar, o curso de inglês, aquela balada ou show legal. Vamos focar em nos preservar para que possamos superar esse grave problema de saúde. E, por fim, vamos todos valorizar nosso sistema de saúde, que de certo será a grande linha de frente contra o avanço da epidemia e que salvará (como já salva diariamente) milhares de pessoas. A responsabilidade em momentos de epidemia é de todos nós: sejamos conscientes.

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Infectologista formado pelo Instituto Emilio Ribas. Atua na equipe de infectologia da Santa Casa de São Paulo e atende pacientes com hepatites e HIV pela prefeitura de São Paulo. Foi voluntário na Casa 1 no programa de atenção à saúde dos moradores e moradoras.

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