Saúde LGBT+

Como fica a saúde mental das pessoas idosas LGBTQIA+ após setembro amarelo?

‘É preciso garantir espaço, acesso e representatividade nos 365 dias do ano’

Dia Mundial da Conscientização da Violência Contra o idoso
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Uma amiga em uma conversa recente me disse que nunca atendeu uma pessoa idosa LGBTQIA+ no posto de saúde onde trabalhou. Mas será que realmente não atendeu?

Faço essa pergunta porque muitas vezes esses indivíduos estão lá, talvez invisíveis ou até mesmo no “armário”. Dados dos Estados Unidos mostram que hoje existem quase 4 milhões de pessoas LGBTQIA+ com 50 anos ou mais, e o número pode ser até maior, visto que alguns podem ter receio de se abrir em pesquisas.

A velhice no “armário” tem impacto no risco de suicídio e é exatamente o oposto do que defendemos para o envelhecimento ativo, que seria representado por idosos com autonomia, independência e participação social.

Lamentavelmente, aspectos ligados ao estresse de minorias podem aumentar a chance da população LGBTQIA+ apresentar depressão, mas o envelhecimento adiciona outras camadas nessa sobreposição de vulnerabilidades.

Situações de luto, doenças crônicas, motivos financeiros, violências cometidas por cuidadores ou por estranhos e até mesmo a necessidade de voltar para o armário em instituições de longa permanência podem ser fatores gatilho e perpetuadores de seu sofrimento mental.

Neste contexto, cabe também o debate sobre outros pontos: o suporte social das pessoas idosas LGBTQIA+ e o seu risco de sofrerem violências.

O primeiro diz respeito à rede de proteção e de enfrentamento a situações estressantes e difíceis que idosos podem vivenciar.

O fato é apontado por especialistas como uma importante variável para a saúde física e mental deles, mas, infelizmente, a solidão e o isolamento social ainda são bastante prevalentes.

Informações norte-americanas mostram que enquanto 33% dos americanos com mais de 50 anos moram sozinhos, em minorias sexuais e de gênero esse número pode chegar a 75%.

Já o segundo não compreende apenas abusos físicos, mas também agravos psicológicos, financeiros, sexuais, institucionais e relacionados a negligências.

Neste sentido, o fenômeno da violência leva a consequências complexas na saúde mental de pessoas idosas LGBTQIA+, que ao mesmo tempo que apresentam maiores riscos de sofrerem tal agravo, são aqueles com menores chances ou maiores dificuldades em denunciar tais situações para as autoridades policiais ou sanitárias.

Outra camada indesejável a que podem estar expostos se refere aos seus locais de moradia, já que não é incomum o número de idosos que precisam morar numa instituição de longa permanência, espaços que aparentemente ainda não estão preparados para lidarem com a diversidade.

O dado é muito impactante e exemplifica o porquê alguns jovens trans cogitem o suicídio ao se imaginarem envelhecendo em um lugar que não os respeite.

Por isso, tirar as velhices LGBTQIA+ do armário não deve ocorrer somente em setembro, conhecido como o mês para conscientização e prevenção do suicídio, ou em junho, mês da celebração da diversidade.

É preciso garantir espaço, acesso e representatividade nos 365 dias do ano. A luta para treinar profissionais de saúde e ocupar a micropolítica de consultórios, salas de espera, banheiros e formulários de unidades de saúde deve ser diária. Só assim poderemos promover o envelhecimento ativo e saudável de todos.

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