Caso de transmissão de HIV multirresistente é registrado. E agora?

Cientistas detectaram vírus com genes de resistência a quase todas as medicações disponíveis atualmente para o tratamento do HIV

Caso de transmissão de HIV multirresistente é registrado. E agora?

Diversidade,Saúde LGBT+

Recentemente, o The Lancet, uma das maiores revistas científicas do mundo, publicou um relato de transmissão de uma variante muito resistente do HIV. O caso ocorreu na França, onde um homem homossexual de 23 anos teve teste de HIV positivo. O paciente não estava em uso de PrEP e também referiu relações sexuais sem uso de preservativos.

Quando a análise do genoma viral foi realizada, houve um grande espanto para todos: trata-se um vírus com genes de resistência a quase todas as medicações disponíveis atualmente para o tratamento do HIV. Três classes de antirretrovirais não funcionam contra esse vírus e os inibidores de integrase também são parcialmente ineficazes.

Um vírus com as mesmas características foi encontrado em um paciente de 54 anos na França, que vive com HIV desde 1995 e apresenta cargas virais detectáveis. Ou seja, ele não tem controle adequado do vírus com a medicação e, por isso, pode transmitir em caso de relações sexuais desprotegidas.

Entretanto, ambos os pacientes (o rapaz que contraiu o vírus resistente e o homem que já vive com esse vírus) relataram não se conhecer nem nunca terem tido algum tipo de relação sexual. Isso implica em possíveis pessoas intermediárias nessa transmissão, o que é um alerta na transmissibilidade do HIV multirresistente.

Até hoje, acredita-se que os vírus com mais genes de resistência tenham menor capacidade adaptativa, bem como menor capacidade de replicação viral. Por isso, eventos de transmissão de vírus multirresistentes não são relatados costumeiramente.

Em 2004, um caso semelhante ocorreu em Nova Iorque. Mas vírus em questão não apresentava nenhum grau de resistência aos inibidores de integrase. Até o presente momento, não havia nenhum outro relato de transmissão de vírus multirresistentes.

 

A PrEP não tem efeito nesses casos?

A PrEP é composta de duas medicações – tenofovir e emtricitabina. Ambas as drogas são da mesma classe e é fato que essa classe de medicações não funciona contra o vírus isolado na França. Isso não significa que a PrEP está fadada ao fracasso nem que devemos abandoná-la. Mais do que isso, não podemos atribuir a transmissão de formas resistentes do HIV ao uso da PrEP. Vale lembrar, ainda, que o paciente que contraiu o vírus não estava em uso de profilaxia.

Além disso, é sempre importante ressaltar que o cuidado na prevenção do HIV não fica só na PrEP, sendo o uso de preservativos uma estratégia que, se combinada ao uso da PrEP, é ainda mais eficaz. Portanto, ainda sempre podemos recorrer ao preservativo.

 

Vigilância de resistência

O caso francês serve de alerta para que a vigilância de formas resistentes do HIV seja feita de forma ativa. É muito importante também que tenhamos dados concretos de pacientes que vivem com HIV multirresistente. Essa população deve ser tratada de maneira ativa a fim de permanecer indetectável por longos períodos.

No Brasil, idealmente a genotipagem universal (ou seja, todos que diagnosticarem HIV devem ter uma análise da resistência de seu vírus) poderia nos fornecer mais dados a respeito de vírus resistentes e investigar possíveis transmissões de formas multirresistentes. Atualmente, apenas um grupo selecionado tem indicação de realizar tal exames. São gestantes, pessoas com diagnóstico concomitante de tuberculose, crianças menores de 12 anos e pessoas que se infectaram por alguma pessoa em uso adequado de terapia antirretroviral.

O caso da França serve com um alerta, porém sem necessidade de pânico. A prevenção combinada do HIV ainda é uma medida muito eficaz contra a aquisição do vírus, mas o alerta serve para que haja garantia de testes de resistência de forma adequada. Serve também para que o incentivo à pesquisa em desenvolvimento de novas drogas seja sempre estimulado, bem como pesquisas que visem a cura dessa infecção. Lutar pela garantia ao acesso à informação, prevenção, diagnóstico e tratamento é central e o caminho que devemos percorrer.

 

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Infectologista formado pelo Instituto Emilio Ribas. Atua na equipe de infectologia da Santa Casa de São Paulo e atende pacientes com hepatites e HIV pela prefeitura de São Paulo. Foi voluntário na Casa 1 no programa de atenção à saúde dos moradores e moradoras.

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