Acesso a cuidados médicos é desafio para a população transexual

Políticas são falhas e o treinamento aos profissionais médicos e não médicos dos serviços de saúde é incipiente

Os cuidados com a  população transgênera vão além da saúde geral: terapia hormonal e cirurgias de resignificação fazem parte dos cuidados

Os cuidados com a população transgênera vão além da saúde geral: terapia hormonal e cirurgias de resignificação fazem parte dos cuidados

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É comum que durante o atendimento à população trans os profissionais de saúde foquem apenas nas queixas relacionadas à resignação sexual e por vezes aos conflitos psíquicos envolvidos no processo de transexualizados. Porém, precisamos que a assistência prestada a essas pessoas seja ampla e contemple as particularidades desses indivíduos.

Primeiramente é importante falarmos sobre o acesso da população trans ao serviço de saúde. Ele ainda é deficiente, uma vez que políticas de saúde voltadas a este atendimento são falhas e o treinamento aos profissionais médicos e não médicos dos serviços de saúde é incipiente. Alguns grandes centros brasileiros possuem serviços especializados, porém, a maioria das cidades não dispõe desse atendimento. Um segundo empecilho é o respeito ao nome social e a desburocratização do atendimento. Por exemplo, em algumas situações em que a mulher trans ainda não fez a modificação do nome, seu acesso ao atendimento ginecológico via SUS pode ser negado ou dificultado.

É de suma importância que a equipe multiprofissional seja treinada e sensibilizada para o uso dos pronomes corretos, que os prestadores de cuidados estejam familiarizados com os termos mais usados ​​e a diversidade de identidades na comunidade de transgêneros.

Em linhas gerais, os cuidados com essa população vão além da saúde geral: terapia hormonal e cirurgias relacionadas à afirmação de gênero, além de outros procedimentos, como depilação ou terapia da fala. Terapias hormonais e cirúrgicas em geral são acompanhadas por especialistas mas cabe ao clínico-geral da atenção básica estar ciente dos medicamentos e doses comuns usados ​​na terapia hormonal, além dos possíveis efeitos colaterais e se familiarizar com o autocuidado pós-cirúrgico apropriado.

O atendimento na saúde básica deve iniciar pela coleta do histórico médico, com atenção específica ao uso de medicações hormonais por conta própria, que é bastante comum entre as pessoas trans, uma vez que o acesso às terapias é difícil e as filas de espera para atendimento especializado são enormes. Informações sobre hábitos sexuais e uso de drogas são também de suma importância, visto os índices de marginalização e prostituição da pessoa trans, principalmente mulheres trans, por preconceito, abandono familiar e falta de oportunidades de trabalho.

 

O histórico de doenças familiares como cânceres e doenças cardiovasculares deve ser investigado antes do início das terapias hormonais e o paciente devidamente informado sobre todos os riscos relacionados. O desejo reprodutivo particularmente em homens trans deve ser levado em consideração e homens trans que transam com homens devem ser alertados sobre os riscos de uma gestação indesejada, ou orientados se houver desejo de gestar.

As práticas sexuais podem variar bastante e não devem ser feitas suposições sobre elas. Os indivíduos transexuais podem ter parceiros masculinos ou femininos, incluindo outros parceiros transgêneros. Eles podem usar seus órgãos sexuais natais durante a atividade sexual, ou não. Todas essas práticas devem ser informadas ao profissional de saúde para que as orientações sejam realizadas corretamente.

A história psiquiátrica deve ser colhida com cuidado. Devem ser avaliados distúrbios de humor (especialmente depressão e ansiedade), uso de substâncias e transtorno de estresse pós-traumático (incluindo uma história de trauma ou abuso físico, sexual ou emocional). Comparados com pacientes não trans, os indivíduos trans apresentam mais sintomas de depressão e ansiedade, além de taxas mais altas de ideação suicida. Muitos desses sintomas são resultado de experiências de opressão e negação de identidade. Pesquisas recentes revelaram que 41% dos entrevistados haviam tentado suicídio em algum momento da vida.

Independentemente da identidade de gênero do paciente, os exames físicos devem ser baseados nos órgãos presentes e nos sintomas apresentados. Pacientes transgêneros podem se sentir desconfortáveis ​​com seus corpos e achar alguns elementos do exame físico traumáticos. O exame físico oferece uma oportunidade importante para educar os pacientes sobre seus corpos e sobre a necessidade de manutenção contínua da saúde e não deve em hipótese alguma ser realizado fora de um contexto de assistência, apenas por “curiosidade “ de determinado profissional.

Nas mulheres trans é importante a realização de exames das mamas, dosagens hormonais, orientações sobre super dosagem de medicações hormonais e naquelas que já realizaram a cirurgia de redesignação, o exame ginecológico e esclarecimentos sobre queixas e funcionalidade da neo vagina são fundamentais.

Nos homens trans que permanecem com útero ou colo do útero é necessária a manutenção da rotina ginecológica, com coleta de exame citológico (Papanicolau). Os homens que permanecem com tecido mamário devem ser submetidos a exames periódicos das mamas.

Em ambos os sexos os efeitos das reposições hormonais a longo prazo ainda não estão bem estabelecidos pela medicina. Acredita-se que haja efeitos cardiovasculares deletérios, aumento das taxas de alguns tipos de cânceres e prejuízo a saúde óssea, porém, dados de pesquisa são muito conflitantes.

Mulheres trans, mesmo após a cirurgia, permanecem com a próstata. Estudos mostram que a terapia hormonal diminui o risco de câncer de próstata nessas mulheres, mas isso não exclui a necessidade de exames de rotina.

A função sexual, prazer e desejo sexual parecem estar aumentando nos homens trans e diminuído em mulheres trans, o que pode estar relacionado aos efeitos da testosterona sob a libido. Poucos estudos acessam a sexualidade e a função sexual da população trans. A maioria deles é voltado para as funções da neo vagina, sucesso de mastectomias e retirada de útero e ovários em homens trans e tratamentos relacionados à voz e à estética dos pelos. Há sinais de melhora geral na sexualidade e nas relações interpessoais após o início da terapia hormonal e procedimentos cirúrgicos, revelando o papel preponderante da autoafirmação e “passabilidade” daquele sujeito. A passabilidade é a capacidade de o individuo de ser reconhecido como o sexo desejado. Quanto mais atributos femininos tiver uma mulher trans, mais passável ela se torna.

O universo trans ainda é um grande desafio para a saúde. Aos poucos, os profissionais vem sendo treinados e sensibilizados, mas ainda estamos longe de um ideal na atenção integral à pessoa transgênera. Dar cada vez mais visibilidade ao tema e a essas pessoas com certeza é a base para diminuirmos o preconceito e melhoramos a assistência em saúde física e mental.

 

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Médica ginecologista e obstetra pelo IMIP/PE com especialização em sexologia pela Santa Casa de São Paulo e climatério pela Unifesp. Atua como médica assistente do ambulatório de climatério e sexualidade do Hospital da mulher. Idealizadora do Instagram @saudesexual.

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