Saúde LGBT+: A patologização do sexo anal na medicina e na ciência

Precisamos mudar o conceito de que a prática é 'fator de risco' para esta ou aquela doença

Foto: Leo Pinheiro/ Fotos Públicas

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Saúde LGBT+

O sexo anal é mais comum do que se pensa. Estudos revelam que, entre homens cis gays e bissexuais, essa frequência varia entre 82% e 95%. Entre as mulheres cis, 37% realizam a prática, segundo um estudo norte-americano.

Qualquer pessoa que possui ânus e reto pode, teoricamente, obter prazer com o sexo anal. Não são todas que gostam, é claro. Entretanto, resiste um enorme tabu sobre esse assunto – e não só por razões culturais ou religiosas. Os médicos e outros profissionais de saúde também perpetuam preconceitos.

A OMS define saúde como “completo bem-estar físico, mental e social e não apenas ausência de doença ou enfermidade”. Também diz que a vida sexual ajuda a compor essa definição de bem-estar. quando observados alguns cuidados, não há  qualquer prejuízo à sua saúde decorrente da prática. Esses cuidados já foram abordados anteriormente no blog.

Por muito tempo, esse assunto foi simplesmente ignorado pela ciência. Os primeiros estudos descrevendo doenças relacionadas à prática do sexo anal, principalmente entre homens que fazem sexo com homens (conceito ultrapassado por também incluir mulheres trans e não incluir homens trans), surgiram apenas em 1970.

Um estudo referência de 1976 descreveu diversas patologias anorretais e intestinais como “The gay bowel syndrome” ou “Síndrome do intestino gay”. Por finalmente dar a devida atenção a essa população, o artigo foi um divisor de águas. Mas, ao mesmo tempo era carregado de preconceito e estigmas ao relatar as tais doenças, muitas delas provocadas por infecções sexualmente transmissíveis na era pré-HIV, antes da popularização do preservativo. 

Precisamos mudar o conceito de que o sexo anal é “fator de risco” para esta ou aquela patologia. E que a ciência e a medicina comecem a estudar formas de proporcionar mais segurança e prazer aos praticantes. Médicos, fisioterapeutas e sexólogos precisam lidar com a conceito de anodispareunia (dor durante a relação sexual anal) e intervir positivamente para reduzir sua ocorrência. Existe atualmente uma carência de estudos e de medidas efetivas para reduzir esse problema.

As infecções sexualmente transmissíveis também podem acometer outras regiões onde houver o contato sexual – não é exclusividade do ânus. O uso do preservativo é fundamental.

Precisamos normalizar o sexo anal e parar de estigmatizar e culpabilizar as pessoas por eventuais acometimentos decorrentes da prática. Mas, enquanto médicos, profissionais de saúde e cientistas continuarem carregando seu moralismo e seus preconceitos para dentro dos consultórios e universidades, esse cenário dificilmente irá mudar.

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Cirurgião do aparelho digestivo formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atua também como coloproctologista no Ambulatório de Doenças Infecciosas Anorretais do HCFMUSP.

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