A masculinidade tóxica e seus efeitos na comunidade LGBT

Homens gays com comportamentos “masculinos” tendem a ser mais desejados, enquanto os afeminados sofrem com maior rejeição e preconceito

Foto: Pikerepo

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Saúde LGBT+

Há algumas semanas, enquanto acontecia o julgamento para derrubar a regra que impedia a doação de sangue por homens homossexuais, eu estava em uma discussão com alguns amigos, até que um deles disse: “mas se o gay tiver jeito de homem, ele mente e diz que é heterossexual para doar o sangue”. Na hora, não me manifestei, mas fiquei pensando na expressão “jeito de homem”.

O que meu amigo quis dizer com “jeito de homem” é o reconhecimento pela sociedade do homem viril, com voz grossa, sem muita vaidade, sem as características tradicionalmente associadas ao feminino e que também são associadas aos homens gays. Entretanto, mesmo entendendo a fala dele, me pus a pensar em como essa ideia de masculino ainda está internalizada em todos nós e como isso nos afeta, inclusive dentro da comunidade LGBT.

Para começar a discussão, precisamos lembrar de conceitos já antes explicados nesta coluna. Quando falamos do sexo de uma pessoa, estamos falando de suas características biológicas, com os aspectos anatômicos, morfológicos e fisiológicos (como a genitália, a capacidade reprodutiva, os cromossomos sexuais e os hormônios produzidos), que indica como a pessoa foi identificada ao nascer. Já o conceito de gênero não remete apenas ao biológico e sim a uma construção sociocultural. Essa construção determinaria o que a sociedade considera apropriado em termos de comportamentos, papéis, atributos e atividades para homens e mulheres.

E é importante notar que o conceito de gênero está ligado à palavra “construção”, pois isso demonstra que as expectativas relacionadas ao feminino ou ao masculino não são fixas, elas variam ao longo do tempo e do lugar em que estamos. Um exemplo disso são as cores rosa e azul. No começo do século XX, o rosa era uma cor associada ao sexo masculino por ser considerada “forte e decidida”, enquanto o azul era associado ao sexo feminino, por ser “delicada e amável”. Ao longo do tempo, essa ideia foi mudando e as associações se inverteram, hoje sendo mais comum as pessoas associarem o azul ao masculino e o rosa ao feminino. 

Então, quando meu amigo falou do “jeito de homem”, ele estava falando da imagem que a nossa sociedade tem do gênero masculino, do que é ser um homem. E essa imagem é construída e  incutida na cabeça de todos nós desde cedo, seja através dos brinquedos, roupas ofertadas a cada criança a depender de seu sexo,  frases como: “homem não chora”; “isso não é coisa de homem”; “homem que é homem não nega fogo”; “homem não leva desaforo pra casa”, entre outras situações.

Ao longo da vida, ouve-se tantas vezes essas frases e vê-se tantos exemplos disso, de forma explícita ou não, seja na vida real ou na ficção, que na cabeça das pessoas vai se formando essa noção de que, para ser homem, deve-se seguir essas “regras”. E é disso que estamos falando quando mencionamos o termo “masculinidade tóxica”.

O que é a masculinidade tóxica?

A masculinidade tóxica poderia ser explicada como a noção, estreita e repressiva, de que só haveria um tipo de masculinidade, definida por determinadas características, como a agressividade, a hipersexualização, a competitividade, a virilidade, entre outras. Enquanto isso, todos os traços supostamente “femininos” – mostrar emoções, gosto pelas artes, não gostar de esportes ou até mesmo a escolha de fazer ou não sexo – seriam vistos como negativos, sinais de que se seria menos homem. 

Esse tipo de percepção da masculinidade acaba trazendo consequências tanto aos próprios homens como às pessoas ao seu redor. Os homens podem sofrer seus efeitos de forma dupla: tanto podem apresentar comportamentos inadequados e violentos para corresponder a esse ideal, como podem se sentir inferiores e rejeitados quando não apresentam esses traços valorizados. Já as mulheres sofrem com as consequências dos atos violentos e agressivos vindos dos homens e com a desvalorização de seus atributos dentro desse tipo de pensamento, reforçando o machismo e a misoginia.

Quais os efeitos da masculinidade tóxica na comunidade LGBT?

E essa masculinidade tóxica pode afetar a comunidade LGBT de diversas maneiras.

Dentro dessa ideia de masculinidade presumida como ideal, a única identidade possível para um “verdadeiro homem” seria a heterossexualidade cis. Por isso, ao longo do tempo, muitas vezes a palavra “gay” foi (e continua sendo) utilizada como um termo para menosprezar e diminuir outro homem, se associando a imagem de fraco e medroso. Esse tipo de pensamento estimula agressividade e violência contra pessoas não-heterossexuais e pode dificultar bastante o processo de entendimento e aceitação da própria sexualidade e identidade entre os homens jovens, dado que um estigma relacionado à homossexualidade está desde sempre presente ao seu redor.

Os homens da comunidade LGBT, então, tem que arrumar um jeito de responder ao conflito que se põe diante deles: como lidar com a sua própria masculinidade não sendo cis e/ou heterossexual? Enquanto alguns destes homens vão questionar as imposições feitas pela sociedade (e sofrer as consequências disso), uma outra parte vai acabar se conformando a essas idéias, incorporando esse traços heteronormativos no jeito de falar, agir, se vestir e inclusive nos seus interesses amorosos.

Dentro da comunidade gay, o homem gay com comportamentos “masculinos” tende a ser mais desejado e procurado, enquanto os afeminados sofrem com maior rejeição e preconceito. Mesmo quando se fala de preferências na hora do sexo, de uma forma geral, o homossexual passivo ( aquele que é penetrado durante o sexo) pode ser alvo de mais piadas e preconceitos que o homossexual ativo (aquele que penetra durante o sexo), apenas pela ideia de que o passivo seria menos homem que o ativo, ou seja, seria a “mulherzinha”.

Os homens gays que não se encaixam nos padrões impostos pela sociedade como masculinos tendem a ter também mais efeitos negativos sobre sua saúde mental, com maiores problemas de autoestima e maior prevalência de depressão e ansiedade. No entanto, homens gays com traços heteronormativos também acabam sofrendo, com dúvidas constantes quanto a como são vistos pelos outros, se são “masculinos o suficiente”, levando-os inclusive a atitudes drásticas como procedimentos estéticos e uso de esteroides para reafirmar sua masculinidade.

As mulheres da comunidade LGBT sofrem também por causa da masculinidade tóxica. De uma forma geral, são vítimas de assédio e violências, em parte por causa dessa ideia de que os homens devem se comportar de maneira agressiva e sexualizada para se afirmarem.

As mulheres lésbicas e bissexuais são vistas, muitas vezes, apenas como objetos, como um desafio para os homens satisfazerem seus desejos sexuais. Não é incomum que mulheres lésbicas e bissexuais tenham suas sexualidades consideradas como “apenas uma fase” e que ouçam  frases como “isso é falta de homem” ou “ela só não encontrou o homem certo ainda”, como se a única possibilidade de satisfação possível para uma mulher fosse o encontro com um homem.

No caso das pessoas trans, há efeitos negativos tanto em relação aos homens como em relação às mulheres trans. Não são vistos como homens e mulheres “de verdade”, são sempre alvos de violências e julgamento e considerados como inferiores.

E o que fazer então?

De início, podemos pensar em jeitos práticos para uma mudança de atitude: estimular que os meninos falem sobre suas emoções e não tenham medo de expor suas fragilidades, aumentando o espaço destinado para o afeto; mostrar, através do nosso exemplo, que não há tarefas, roupas ou atividades exclusivas para um ou outro gênero; valorizar e explorar produções realizadas por mulheres em todos os campos e não apenas naqueles tradicionalmente ligados a elas; não votar em políticos e lideranças claramente machistas e preconceituosos.

No entanto, essas medidas são válidas, mas não suficientes. Mudanças maiores precisam ser feitas na forma como nossa sociedade avalia (e julga) as mulheres, e por isso me parece que um bom caminho para lidarmos com a questão da masculinidade tóxica é justamente o feminismo. Questões como igualdade de salários, mais posições femininas de liderança e de destaque, educação sexual e direito da mulher ao próprio corpo, entre outras, são fundamentais e precisam ser cada vez mais discutidas. O feminino precisa parar de ser associada a algo negativo. 

A questão da masculinidade tóxica não vai ser resolvida apenas com uma lei ou com a ajuda do STF, porque é um reflexo da nossa sociedade como estrutura. Ela está intimamente ligada ao patriarcado, ao machismo e à misoginia e não há uma solução simples ou rápida. Pontuar a pluralidade de masculinidades é necessária, mas repensarmos nossa relação com o feminino também é fundamental para que possamos avançar nesse debate.

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Psiquiatra formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. É também psicanalista de orientação lacaniana e atua como psiquiatra voluntário no projeto da Casa 1.

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