Precisamos ter cautela ao falar sobre a cura do HIV

Todos esses resultados, em conjunto, indicam que ainda há um grande caminho a ser percorrido

Precisamos ter cautela ao falar sobre a cura do HIV

Saúde LGBT+

Falar sobre cura do HIV é um assunto muito delicado. Antes de escrever este texto, pensei diversas vezes na melhor maneira de expor o tema. Sempre penso no desserviço que uma matéria cujo título escancara “a cura do HIV” faz para alguém que vive com o vírus. Essas pessoas invariavelmente criam esperança no minuto em que leem o título e, assim que analisam o conteúdo da matéria, caem numa nova avalanche de incertezas e desilusões.

Sim, é certo que se vive de maneira muito boa utilizando adequadamente a terapia antirretroviral. As pessoas que vivem com HIV em tratamento têm expectativa de vida semelhante à da população geral. Além disso, as medicações atualmente disponíveis são cada vez mais bem toleradas pelo corpo, com poucos ou quase nenhum efeito colateral. Entretanto, a cada nova pesquisa que sai a respeito de cura do HIV, todos os pacientes chegam ao consultório com esse questionamento, demonstrando, em maior ou menor proporção, um misto de ansiedade e esperança.

E isso não foi diferente recentemente. Há aproximadamente um mês, o furor da cura do HIV ressurgiu aqui no Brasil. Um estudo da UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo – coordenado pelo Dr. Ricardo Diaz, demonstrou que um de seus pacientes havia ficado sem evidências do HIV por mais de 11 meses após o tratamento proposto. O estudo contou com 30 participantes divididos em diversos grupos com propostas de tratamento diferentes.

Tal paciente tem 34 anos, vive com HIV diagnosticado desde 2012 e foi incluído no estudo em 2015. Na ocasião, já tinha carga viral indetectável há 2 anos e meio. No grupo do paciente em questão, além do seu tratamento antirretroviral habitual, mais duas drogas (maraviroc e dolutegravir) foram administradas pelo período de 01 ano. Além dessas, recebeu a nicotinamida, que é a vitamina B3. Acredita-se que tal vitamina reativa células em latência infectadas pelo HIV para que os vírus sejam reconhecidos pelo sistema imune. A eliminação de focos latentes é o maior desafio em termos de cura do HIV. Após três anos da intervenção com as medicações, o paciente interrompeu o uso dos remédios habituais e desde então continua sem evidências do vírus.

O resultado é animador, claro, mas deve ser visto com cautela. Afinal, trata-se do único paciente num estudo com 30 participantes. No mesmo grupo em que o paciente estava, outros 4 não atingiram o mesmo resultado. É preciso saber exatamente o que houve nesses casos e avaliar por mais tempo o paciente que está aparentemente curado.

Na história do HIV/aids, nós temos alguns relatos já de cura. No entanto, apenas duas pessoas podem ser consideradas de fato curadas do HIV. O primeiro, Timothy Ray Brown, incialmente apelidado de paciente Berlim, que ficou livre do HIV em 2007. Isso só ocorreu, entretanto, pois o paciente foi diagnosticado com leucemia mieloide aguda, um tipo de câncer que necessita de transplante de medula óssea. Durante esse procedimento, as células do sistema imune desse paciente foram destruídas. Após o transplante, o paciente de Berlim passou a apresentar células de defesa iguais às do seu doador. Esse, por sua vez, tem uma mutação nas células que o HIV ataca – linfócitos TCD4 – que faz com que o HIV não consiga penetrar nessas células.

O segundo paciente, apelidado “paciente Londres”, está há mais de 18 meses sem terapia antirretroviral e sem evidências do vírus. Ele passou por problemas semelhantes aos de Timothy Ray Brown e precisou de um transplante de medula óssea. Após o procedimento, suas células de defesa ficaram resistentes à entrada o vírus.

É importante que olhemos esses casos com cuidado e clareza. Entender que os procedimentos a que tais pessoas foram submetidos são inviáveis de serem realizados em larga escala. Além disso, o risco de transplantes de medula óssea é muito alto. Aparentemente, agora contamos com mais um caso de cura do HIV. Todos esses resultados, em conjunto, indicam um grande caminho a ser percorrido. Saber que atualmente não se morre de aids quando se trata o HIV já é extremamente satisfatório. A busca pela cura, nesse sentido, deve ser uma aliada e buscada sem afãs ou incertezas. Enquanto isso, se você vive com HIV, continue seu tratamento regular e acompanhamento médico. Se você não tem o vírus, procure saber mais sobre prevenção combinada e use os melhores métodos para se prevenir. É possível viver com HIV. Ainda bem.

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Infectologista formado pelo Instituto Emilio Ribas. Atua na equipe de infectologia da Santa Casa de São Paulo e atende pacientes com hepatites e HIV pela prefeitura de São Paulo. Foi voluntário na Casa 1 no programa de atenção à saúde dos moradores e moradoras.

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