Meu bairro, minha vida: como a Covid revelou a importância dos bairros

A desigualdade de acesso na cidade ficou mais acentuada na pandemia

Meu bairro, minha vida: como a Covid revelou a importância dos bairros

Sampapé

por Leticia Sabino, Fernanda Pitombo e Bruna Sato – com colaboração de Bibiana Tini e Douglas Farias

Sair de casa a pé, poder sentar em uma praça ou fazer um pouco de exercício, depois passar no mercado para comprar comida e voltar em segurança para casa, são privilégios de uma parcela pequena da população paulistana – e que se repete nas demais cidades brasileiras. Essa desigualdade de acesso na cidade ficou mais acentuada na pandemia: de um lado pessoas que puderam trabalhar remotamente ou ir de forma ativa para o trabalho sem percorrer distâncias absurdas, resolver os serviços básicos no bairro e ainda ter acesso a verde e ao ar livre com distanciamento; e por outro, pessoas que pegaram transportes públicos lotados todos os dias, não tiveram como se isolar em casa e menos ainda, acesso a espaços para esporte e lazer de forma segura e próxima. Essa assimetria consequente de “onde mora” refletiu na disparidade da mortalidade pela COVID-19 e de acesso a direitos básicos. 

É possível que políticas de criação de bairros mais diversos criem cidades em que a maior parte das pessoas vivam no cenário privilegiado?

A cidade compacta ou “cidade de 15 minutos”

A adoção de modelos de desenvolvimento de cidades compactas, onde os moradores e moradoras possam acessar comércio, serviços e emprego a distâncias curtas, a pé ou de bicicleta, faz parte de um modelo de cidade defendido, há algum tempo, sob a perspectiva da sustentabilidade e da qualidade de vida. 

Devido a situação de isolamento forçado nas grandes cidades pela pandemia da COVID-19, esse modelo ganhou os holofotes, com novos significados e termos. O mais popular, “cidade de 15 minutos“, se destacou, principalmente, por ser parte da estratégia de desenvolvimento urbano de Paris, acelerada durante a pandemia. O conceito, criado pelo professor da Universidade de Sorbonne, Carlos Moreno, propõe que se redesenhe áreas urbanas aproximando habitantes de serviços básicos e transformando as ruas em espaços predominantemente para as pessoas. Para isso, define como meta que as pessoas alcancem o que precisam no seu dia a dia em até 15 minutos de caminhada ou bicicleta.

Pesquisa de 2019 sobre acessos em até 15 minutos caminhando em São Paulo, evidenciou que essa não é a realidade da cidade, onde somente 11% dos moradores da cidade estão a 15 minutos a pé do trabalho, 30% de parques e praças, 34% de serviços médicos, 54% de comércio e serviços e apenas 8% de equipamentos culturais (“Viver em São Paulo: Pedestre”, 2019, Rede Nossa São Paulo e IBOPE). Esses indicadores são resultados de planejamento urbano que concentra serviços e empregos em poucas regiões e promoveu segregação socioespacial desfavorável ao desenvolvimento pleno de todos os bairros e pessoas na cidade, e faz com que grande parte da população enfrente longos deslocamentos motorizados todos os dias.

A tendência e demanda para mudar essa realidade e impulsionar bairros mais diversos e auto suficientes ficou evidente por meio da pesquisa que realizamos na pandemia sobre usos, sentimentos e desejos com relação aos espaços públicos da cidade – intitulada Acesso aos Espaços Públicos na Pandemia. Apresentaremos alguns dados que nos trouxeram essa visão a seguir.

Comércios e fachadas na pandemia (Foto: Bibiana Tini)

Celebrando o comércio de bairro 

No contexto da pandemia muitas pessoas passaram a comprar mais coisas próximas a suas casas. Em São Paulo, 12% afirmaram que estão utilizando mais o comércio local do bairro e mais outros 30% pretendem manter essa prática após a pandemia. Além disso, 54% das pessoas afirmaram que adotarão o hábito de caminhar mais pelo próprio  bairro no pós pandemia, evitando longas distâncias. 

Relações de vizinhança fortalecidas

Deslocamentos no bairro fortalecem relações de vizinhança. Além disso, ações coletivas para enfrentar a escassez e ausência da atuação pública ampliaram o senso de comunidade. Segundo a pesquisa, cerca de 52% das pessoas refletiram sobre a importância de conhecer a vizinhança e vizinhas/os, durante a pandemia, e 19% disseram ter conhecido seus vizinhos nesse período, enquanto 27% se aproximaram daqueles que já conheciam. Para depois a pandemia, 30% afirmaram que pretendem participar de redes de apoio no seus bairros

Se deslocar menos e de forma ativa   

O desejo de substituir deslocamentos motorizados por caminhada e bicicleta é uma resposta para evitar aglomerações e se manter saudável. Na pesquisa, 44% afirmaram que irão evitar o transporte público após a pandemia e, destas, 80% preferem se deslocar por modos ativos, ou seja, trajetos mais curtos, saudáveis e com interação com o entorno, o que reforça o desejo da população por acesso à cidade. 

Respostas e ações em São Paulo 

Durante a pandemia em São Paulo, surgiram movimentos como “Compre do bairro”“Compre do Pequeno Negócio” para estimular o comércio local. Iniciativas comunitárias promoveram melhorias imediatas a partir das relações e conexões de vizinhança, como a “Rede Brasilândia Solidária”, que articulou agentes de saúde, educação, cultura e assistência social, promovendo ações solidárias; e o “Movimento Boa Praça” que manteve atividades de cuidado coletivo a hortas em praças públicas, ganhando adesão de novos vizinhos. Tais iniciativas escancaram a falta de incentivo e apoio do estado para ações de saúde, educação, cultura e cuidado dos espaços públicos.

Para impulsionar ações de estímulo aos deslocamentos ativos, promovemos junto a várias organizações a mobilização para ações emergenciais para a mobilidade ativa na pandemia, e implementamos a ampliação de calçada, na ladeira porto geral. A disparada na venda de bicicletas na cidade, com aumento de 66% em 2020 (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas), também mostra ação das pessoas. Entretanto, para se alcançar cidades em que os bairros promovam melhor qualidade de vida e diminuam as desigualdades sociais não bastam ações da cidadania e são necessárias políticas públicas. 

Intervenção de urbanismo tático realizada pelo SampaPé! que ampliou a área para caminhar na Ladeira Porto Geral (Foto: Leticia Sabino)

Futuros possíveis para criar bairros compactos e diversos

Políticas urbanas definidas pelo Plano Diretor preveema promoção de bairros mais diversos e equipados a médio e longo prazo, como o incentivo ao uso misto em um mesmo espaço. Prédios residenciais com comércio no térreo e as zonas de habitação social em bairros mais bem servidos são exemplos simples desse uso misto. Mas também são necessárias estratégias rápidas e integradas que gerem resultado mais imediato e dêem o pontapé para o desenvolvimento de políticas públicas centradas no bem estar e saúde de todas as pessoas que vivem nas cidades. 

As ruas, por serem o espaço com maior abundância nas cidades e menos estruturas fixas, se mostram uma das melhores possibilidades para responder à essas questões com agilidade. Como exemplo mais emblemático é possível apontar a Paulista Aberta e as Ruas Abertas que de forma rápida, simples e barata criava semanalmente grandes áreas de lazer. Esse tipo de ação amplia o acesso e a proximidade a áreas de lazer nos bairros, e por isso, diversas cidades passaram a adotá-las como estratégia durante a pandemia – como Oakland nos Estados Unidos e a criação da W3 Sul de Comércio e Lazer em Brasília. Ruas também são bons espaços de promoção de venda ao ar livre, como as feiras livres. Equipamentos públicos são potenciais espaços para usos mais diversos: as áreas de quadras e recreação das escolas, por exemplo, podem ficar abertas em períodos ociosos e aos finais de semana para uso livre da comunidade, servindo como uma praça local. 

Essas ações não são novidade para a gestão da cidade, em outros contextos e motivações já foram implementadas e por isso, contam com conhecimento e experiência acumulada, o que garante rápida implementação. Falta decisão política para executá-las.

A cidadania já passou a entender que qualidade de vida depende das oportunidades e acessos na escala do bairro e não apenas da qualidade da casa, depende do âmbito público e partilhado, e não do privado. Cabe aos governos e governantes enfrentarem a pandemia com seriedade por meio de políticas públicas que construam cidades mais justas e resilientes, centrada em criar bairros equipados e diversos para todas as pessoas! 

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