Ganhando e produzindo espaço nas cidades através do caminhar

Como o período de festas e férias pode nos permitir caminhar desaceleradamente explorando formas e práticas de viver o espaço público

Sampapé

“Quem perde tempo ganha espaço”. É o que diz o arquiteto italiano Francesco Careri, em seu livro ‘Walkscapes – o caminhar como prática estética’. Com essa frase, ele nos leva a refletir sobre a relação direta entre tempo e espaço na vida cotidiana  das cidades a partir dos meios de deslocamento e de sua estrutura.

Quando vamos de forma mais lenta, a pé, ficamos muito mais tempo em um mesmo espaço e, com isso, podemos verdadeiramente estar, interagir e observar o lugar. De uma maneira que não seria viável quando percorremos os lugares de forma acelerada, transformando o espaço apenas em passagem para algum lugar “produtivo” ou de “consumo”.

Espaços

O filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre também teoriza sobre o espaço no livro “A Produção do Espaço”, classificando-o em três esferas: o espaço concebido, espaço percebido e o espaço vivido.

O espaço concebido é o planejado de forma utilitária, racional e técnica, composto por suas características físicas e simbólicas. O percebido é aquele produzido pelas práticas espaciais e sociais. E o vivido é o cotidiano dos usos e presenças no espaço.

Como já discutido em textos anteriores, a maior parte do espaço das cidades brasileiras foi concebido para a circulação de veículos motorizados privados, na lógica produtiva. O caminhar, por sua vez, interfere na esfera do espaço percebido e acima de tudo o vivido.

Assim, não é por acaso que o período de festas e férias é o momento propício para  subverter essa relação acelerada com os espaços e a lógica consumista da cidade, pois é quando temos tempo “não produtivo”. Mas, como sair da lógica utilitária do chegar o mais rápido possível em lugares privados para a lógica de ganhar e produzir espaços públicos?

Existem algumas ferramentas e formas para ajudar  a  “ganhar mais espaços”, como diz Careri, através de conceber e viver os espaços, segundo as esferas do Lefebvre, de um jeito bem simples: caminhando com mais atenção e desaceleradamente .

Ladeira Porto Geral, no centro de São Paulo. (Foto: Paulo Pinto)

Caminhando e ganhando espaços

A melhor forma de conhecer bem um espaço é interagir com ele. Sentar nos seus bancos, entrar nos locais, conversar com as pessoas, ler anúncios e placas, aproveitar o tempo sem ter pressa de chegar a um ponto final e, por que não, viver o caminho. Parece difícil?

Lugares nunca antes percorridos a pé trazem curiosidade. Uma das formas de começar o caminhar curioso e desacelerado é caminhar por novas rotas. Existem duas formas principais e antagônicas de fazer isso.

Uma é traçando caminhos e usando mapas – para isso pode-se fazer uso de aplicativos de georreferenciamento como o CityMapper e o Maps.Me, ou de mapas físicos de bairros e cidades, como o mapa que criamos este ano, o Bixiga a Pé. Através de mapas pode se escolher conscientemente passar por ruas desconhecidas, mesmo em bairros bastante conhecidos.

A outra forma é o oposto, não traçar rotas e não ter destino, mas se propor a caminhar sem rumo, perambular. Para isso, é possível criar lógicas e jogos, como seguir pessoas com características distintas ou simplesmente sair caminhando sem pensar. Brincar com o espaço é outra técnica de interagir, ressignificando e aprofundado o conhecimento dos lugares, sejam eles conhecidos ou não.

No livro do mesmo autor fala-se sobre a defesa “da cidade lúdica contra a cidade burguesa” pelos situacionistas, que defendiam o tempo livre como tempo lúdico de viver a cidade e não tempo de consumo, e para isso era preciso construir aventuras ao se deslocar a pé na cidade.

Importantes edifícios, como a Praça das Artes, passam despercebidos. (Foto: Paulo Pinto)

Para estimular o brincar com o caminho criamos o Diário da Caminhada (que pode ser baixado no link), uma ferramenta que ajuda a estimular caminhantes a se conectar melhor com a paisagem.

Existem muitas outras ferramentas para isso. Outra muito simples é caminhar com crianças, que não estão formatados sobre como se comportar no espaço público e vivendo os espaços caminhados como uma grande aventura e descoberta, o vídeo “Caminhando com Tim Tim” é uma mostra poética disso.

Voltando à rotina

Subverter a relação tempo-espaço mesmo com a pressão por produzir e consumir. O grande desafio é voltar ao dia a dia de “produtividade” e não deixar a pressa e a rotina fazer com que a falsa ideia de “ganhar tempo” nos roube os espaços.

Ano novo, novas resoluções, 2019 pode ser o ano de caminhar mais e com mais atenção. Mesmo os trajetos utilitários e a rotina pode ter “mais espaços”. Uma forma bem simples para começar é mapeando o próprio  bairro – sair caminhando para conhecer  comércios e serviços nas quadras próximas à sua casa.

Esta simples prática tem efeitos a longo prazo, pois muitas vezes se descobre que muitas coisas que se faz em lugares distantes – usando meios mais velozes de transporte –  podem ser alcançadas a alguns passos da própria casa. Trazendo, assim, mais caminhada no dia a dia e mais conhecimento e vida nos espaços percorridos.

Outra forma é procurar companhia para o roteiro mais repetitivo. Se tem uma rota que se pratica todos os dias (como de casa ao trabalho), uma companhia que possa compartilhar uma parte do trajeto pode estimular mais caminhadas, novos olhares e novas conversas.

Mesmo para decisões de trabalho, pode-se adotar o caminhar como uma ferramenta. Momentos de tomadas de decisões e temas importantes podem ser feitos a pé. Caminhar oxigena o cérebro e ajuda as ideias a fluírem, sem contar os estímulos no caminho.

E por fim, avaliar trajetos que se faz rotineiramente e conferir se algum é a uma distância caminhável – até 2 km. Se sim, uma forma de começar a se propor a realizar a pé é  fazer o trajeto caminhando em um dia sem pressa (aos fins de semana, por exemplo) desmistificando o caminho e podendo repeti-lo nos “dias úteis”.

E aí, vamos produzir e conhecer mais espaços nas cidades? Vamos entrar em 2019 a pé? Boas caminhadas.

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