A cidade de 15 minutos, uma utopia que se aproxima?

O distópico cenário da pandemia deveria aproximar a vida urbana a um modelo que preza pelas curtas distâncias no cotidiano e pelos encontros

 Em Paris a primeira experiência dentro dessa visão é a abertura dos pátios das escolas aos finais de semana para ampliar as áreas públicas de lazer (Foto: iStock)

Em Paris a primeira experiência dentro dessa visão é a abertura dos pátios das escolas aos finais de semana para ampliar as áreas públicas de lazer (Foto: iStock)

Sampapé

por Carolina Guimarães, Gabriela Callejas, Leticia Sabino e Paola Caiuby*

Desde março de 2020, o mundo vive sob o medo e as condições da pandemia da Covid-19, essa situação evidenciou outras crises estruturais que estamos enfrentando há décadas: a climática, social e econômica.

Profissionais da saúde, cientistas e gestoras públicas trabalham para aprimorar medidas de detecção e rastreamento de pessoas infectadas, investem em vacinas, tratamentos; discutem, elaboram e revisam protocolos sanitários que afetam nossa forma de trabalhar, estudar, cuidar, socializar e estar nos espaços comuns com o vírus em circulação.  Junto a todas essas alterações, o principal modelo humano de habitar o planeta, as cidades, também passaram a ser questionadas e novos modelos de vida demandados. Afinal, as dinâmicas dos espaços urbanos ajudam a combater o vírus ou aumentam o contágio? Quais grupos são mais afetados pela pandemia nas cidades e por que?

Enquanto o vírus se espalhava em todo o mundo, a prefeita de Paris Anne Hidalgo, candidata à reeleição, lançava seu grande projeto urbano: a “cidade de quinze minutos”, com métodos e metas mais aceleradas como forma de enfrentamento da pandemia e reinvenção da cidade diante do contexto.

O objetivo desse modelo é de combater essa expansão espacial e temporal que o carro e o motor acarretaram às cidades

Desenvolvida por Carlos Moreno (veja o TedTalk aqui), a cidade de 15 minutos é inspirada em modelos urbanos de “crono-urbanismo” e de “hiper proximidade”, que se preocupam com a relação espaço-tempo nas cidades, e a forma desigual através da qual a território é acessado e usado pelas pessoas. Na visão de Moreno, as pessoas que moram nas cidades, grandes e médias, “aceitam” o inaceitável tempo em deslocamento nas suas rotinas para acessar o básico. Naturalizando a péssima qualidade de vida pela falta de acesso e por ambientes que não atendem às suas necessidades e por isso, propõe a “cidade de 15 minutos” como caminho para cidades melhores e mais justas.

O objetivo desse modelo é de combater essa expansão espacial e temporal que o carro e o motor acarretaram às cidades e promover a proximidade dos empregos, de serviços essenciais, parques e praças públicas, comércio e uma variedade de opções de entretenimento, conectados e acessados por meio da mobilidade ativa, bicicleta ou a pé.

A prefeita de Paris Anne Hidalgo. A ‘cidade de 15 minutos’ foi seu grande grande projeto urbano na disputa pela reeleição (Foto: AFP)

O modelo propõe o acesso dentro de um raio que compreende 15 minutos de caminhada ou de bicicleta da residência de toda cidadã e cidadão entendendo que os deslocamentos ativos também criarão em nível local mais coesão social, zeladoria do espaço, sentimento de pertencimento e estímulo à economia local, assim como a nível municipal atingir metas de diminuição de emissão de gases de efeito estufa e poluição.

Em cidades em que os deslocamentos médios são de mais de 2 horas para a maior parte da população, tal proposta pode parecer infactível, mas talvez é porque para alcançá-la muitas dinâmicas neoliberais, patriarcais e muitas vezes preconceituosas de desenvolvimento urbano terão que ser desconstruídas. Uma delas de afastar e marginalizar as populações mais pobres e de etnias minoritárias das áreas com equipamentos públicos e trabalho, a outra de proporcionar segurança, conforto e oportunidade para que mulheres e crianças estejam mais presentes nas ruas e espaços públicos a qualquer horário.  A cidade de 15 minutos é a cidade do cuidado e não da competição, que “sustenta” a sociedade que se viu fracassada com a pandemia.

Algumas visões críticas do modelo apontam que promover essa proximidade levaria a gentrificação, mas o modelo só funciona se for para todas as pessoas, por isso, se propõe a redistribuição de acessos e a diminuição de longos deslocamentos cotidianos. Menos veículos circulando são necessários para maior sustentabilidade ambiental, social e econômica.

A questão da moradia social e regulamentação de preços de aluguéis é uma forma de diminuir esse avanço da “gentrificação”, ter em todos os bairros, diversos tipos de moradias, com preços distintos, assim pode-se conter a evasão das pessoas dos bairros centrais, que acabam indo cada vez mais para áreas periféricas, menos densas e com menos oportunidades de emprego, de espaços públicos, de transporte coletivo e ficando cada vez mais longe da visão da cidade de 15 minutos.

Em 2019, em pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo e Ibope com o apoio de organizações de mobilidade a pé, revelou que em São Paulo quase ninguém tem acessos a 15 minutos a pé. De acordo com o levantamento Viver em São Paulo: Pedestres , apenas 30% da população alcançava um serviço médico em até 15 minutos de caminhada.

Toda mudança de paradigma normalmente vem acompanhada de reações negativas, principalmente quando desafia o status-quo e mexe em privilégios e interesses, como quando Jane Jacobs desafiou Robert Moses evitando a construção de vias expressas que cortariam bairros. Porém a busca por um futuro coletivo com justiça espacial traz benefícios a curto e longo prazo a todos, e pode acontecer de maneira gradual e participativa. Em Paris a primeira experiência dentro dessa visão é a abertura dos pátios das escolas aos finais de semana para ampliar as áreas públicas de lazer, é uma medida de baixíssimo custo que vai no sentido de democratizar o acesso.

Acreditamos que a cidade de 15 minutos não só é possível, como necessária para um desenvolvimento justo e sustentável no Sul Global. Ainda é necessário nos debruçarmos sobre este modelo de planejamento para entender como deve ser replicado e  adaptado a aos diferentes  contextos sociais, geográficos, culturais, econômicos e aos orçamentos locais. Todas as crises devem trazer lições e mudanças, não só para honrar as vidas perdidas e os grandes desafios ultrapassados, mas também para não repetirmos os erros do passado, e avançarmos com base em evidências e experiências a futuros mais resilientes.

Carolina Guimarães, urbanista e gestora de projetos, conselheira municipal de transporte e trânsito na cidade de São Paulo, atualmente está de licença maternidade da coordenação da Rede Nossa São Paulo e já trabalhou em diversa agências de desenvolvimento internacional incluindo Cities Alliance, ONU-Habitat, Comissão Européia DG Europeaid, CIDA etc.

Gabriela Callejas, é urbanista e arquiteta, consultora internacional para projetos de desenvolvimento urbano e mobilidade. Caminhando, se apaixonou pelo desenho urbano e pela vida nas ruas. É uma das fundadoras da organização Cidade Ativa, onde lidera pesquisas e projetos que transformam nossas cidades.

Letícia Sabino, é caminhante, urbanista e administradora com foco em caminhabilidade, urbanismo colaborativo e participação cidadã. Mestra em Design Urbano e Planejamento de Cidades pela UCL (University College London), Administradora de Empresas pela FGV-EAESP, com Pós graduação em Economia Criativa e Cidades Criativas. Fundadora presidente do SampaPé!, ONG que tem como objetivo transformar os ambientes urbanos em lugares mais caminháveis junto com as pessoas.

Paola Caiuby, gestora e consultora de projetos sociais e culturais, placemaker e pesquisadora. Trabalha com a metodologia Placemaking “transformando espaços a partir do desejo de quem neles mora e trabalha”. Desenvolve e coordena projetos culturais e sociais, de desenvolvimento territorial, urbanismo tático e ações na área da filantropia no Brasil.

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