Psicodelicamente
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UFRJ sedia encontro sobre psicodélicos, saúde e espiritualidade no Rio
Evento gratuito reúne pesquisadores, psicólogos e representantes de instituições ligadas à pesquisa psicodélica, redução de danos e vegetalismo amazônico
A discussão sobre psicodélicos e saúde mental, tema que vem ganhando espaço em universidades, centros de pesquisa e serviços clínicos no Brasil e no exterior, será debatida na próxima quarta-feira 20, no Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A 1ª Jornada sobre Psicodélicos e Saúde Coletiva na UFRJ reunirá pesquisadores, profissionais da saúde e representantes de instituições que atuam nas áreas de psicologia, espiritualidade, redução de danos e pesquisa psicodélica.
A programação contará com integrantes da APB (Associação Psicodélica do Brasil), do NEP (Núcleo de Ensino e Pesquisa) do LIS (Lar e Integração do Ser), centro de vegetalismo peruano sediado no Rio, e pesquisadores ligados à UFRJ, UFPR (Universidade Federal do Paraná) e UFC (Universidade Federal do Ceará). As mesas abordarão temas como regulamentação de substâncias psicodélicas, psicologia, espiritualidade, experiências místicas, epistemologias indígenas e os desafios metodológicos da chamada “renascença psicodélica”.
Segundo César Pessoa, pós-doutorando da UFRJ e um dos organizadores da jornada, o evento nasce do encontro entre diferentes movimentos acadêmicos e institucionais que vêm se aproximando do tema nos últimos anos. “Existe um interesse crescente pelo tema dos psicodélicos, mas também uma preocupação em ampliar o debate para além do modelo biomédico tradicional”, afirma. A proposta, segundo ele, é mostrar que existem diversos contextos históricos, culturais e epistemológicos.
Psicologia, autonomia e espiritualidade
A primeira mesa, marcada para 11h, terá como tema “Psicologia e Psicodélicos: sobre os desafios para a prática profissional”. A mediação será de Arthur Leal Ferreira, professor titular do Instituto de Psicologia da UFRJ. Participam do painel os psicólogos Fernando Rocha Beserra e Sandro Eduardo Rodrigues, ambos da APB (Associação Psicodélica do Brasil) e Karla Perdigão, do LIS (Lar e Integração do Ser).
Fernando Rocha Beserra discutirá os desafios regulatórios e políticos em torno do uso terapêutico dos psicodélicos no Brasil, abordando os riscos de regulações restritivas e os impactos do que define como “chauvinismo farmacológico” sobre saberes tradicionais.
Karla Perdigão abordará os limites da psicologia tradicional diante de experiências com ayahuasca e outras plantas mestras no contexto do vegetalismo da Amazônia peruana (conjunto de práticas ancestrais baseado na relação ritual com plantas consideradas “mestras” ou “professoras”).
A proposta parte da ideia de que essas vivências não devem ser reduzidas apenas a categorias psicológicas ou biomédicas, mas compreendidas também em suas dimensões espirituais e cosmológicas.
Segundo a psicóloga e cofundadora do centro LIS, a chamada “escuta cosmocêntrica” busca sustentar experiências relacionadas a plantas e espíritos sem traduzi-las de forma reducionista, propondo uma articulação entre psicologia, espiritualidade e cuidado em saúde.
Já Sandro Rodrigues falará sobre a relação entre psicodélicos, autonomia e saúde coletiva e a necessidade de pensar políticas de redução de danos e modelos de gestão autônoma dos usos psicodélicos para além do campo exclusivamente médico.
Cosmologias, ciência e experiência
A segunda mesa, prevista para às 15h, terá como tema “Compondo cosmologias: reflexões sobre o inconsciente e a agência não humana na pesquisa com psicodélicos”, com mediação da psicóloga Karla Perdigão.
Participam do painel Andrew Omar Soares, doutorando da UFPR (Universidade Federal do Paraná), César Pessoa, pós-doutorando da UFRJ, Marina Athila, mestranda da UFRJ, e Thiago Novaes, antropólogo do NEP.
Andrew Omar Soares discutirá os desafios da psicologia junguiana diante das experiências com ayahuasca e dos diálogos interculturais com povos indígenas. O pesquisador propõe reflexões sobre os limites epistemológicos da psicologia analítica e a necessidade de construir abordagens mais horizontais em relação aos saberes tradicionais.
Já César Pessoa abordará o uso do questionário MEQ-30, ferramenta utilizada em pesquisas clínicas para avaliar experiências místicas associadas aos psicodélicos. Inspirado nas teorias do filósofo Bruno Latour, o pesquisador analisa como experiências subjetivas passam a ser organizadas, estabilizadas e incorporadas aos protocolos científicos contemporâneos.
Outro eixo importante da mesa será o debate metodológico sobre pesquisa científica com psicodélicos. Marina Athila, da UFRJ, discutirá a chamada “abordagem enativa”, corrente das ciências cognitivas que entende a experiência como um processo corporificado e relacional, em oposição a modelos puramente neuroquímicos centrados apenas no cérebro.
Fechando o painel, Thiago Novaes apresentará o conceito de “tecnogênese” das plantas mestras no vegetalismo peruano. A proposta parte da ideia de que as plantas não funcionam apenas como substâncias ou instrumentos, mas como agentes técnicos e relacionais capazes de modular afetos, cognição e processos de subjetivação.
O evento acontece em um momento de crescimento das pesquisas sobre substâncias psicodélicas. Nos últimos anos, universidades e grupos independentes passaram a discutir não apenas aplicações terapêuticas, mas também questões ligadas à espiritualidade, políticas públicas, ética e saberes tradicionais associados ao uso de plantas como a ayahuasca.
Apesar do avanço das pesquisas internacionais, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, o campo ainda enfrenta disputas regulatórias, metodológicas e culturais, envolvendo desde o uso clínico até debates sobre apropriação de conhecimentos indígenas e medicalização de práticas ancestrais.
O encontro na UFJR é gratuito, aberto ao público e terá transmissão ao vivo pelo canal do LIS (Lar e Integração do Ser) no YouTube. Participantes presenciais também poderão solicitar certificado mediante credenciamento prévio.
Serviço
1ª Jornada sobre Psicodélicos e Saúde Coletiva na UFRJ
20 de maio de 2026
11h às 17h (com intervalo entre 13h e 15h)
Sala 8 do Instituto de Psicologia da UFRJ, campus Praia Vermelha, Urca, Rio de Janeiro
Evento gratuito
Capacidade: 80 lugares
Transmissão ao vivo pelo canal do LIS no YouTube
Certificados mediante inscrição prévia:
https://forms.gle/jLKUBsvXWjt6QCto7
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