Psicodelicamente

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Psicodelicamente

Por que o turismo xamânico e ‘renascença psicodélica’ ameaçam o conhecimento tradicional

O líder indígena peruano Mateo Arévalo, que esteve no Brasil, fala sobre os perigos que a globalização da ayahuasca representa para a tradição de seu povo

Mateo Arévalo, mais conhecido como Don Mateo, diz: 'Meus avôs, pais, tios e primos são todos curandeiros' (Foto: Conexões Shipibo/Divulgação)
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Cantos ancestrais começaram a serpentear pelo salão de maneira envolvente. O curandeiro Mateo Arévalo, imóvel e concentrado, parecia controlar o manche de uma aeronave. Sua voz dançava suavemente em um padrão sinuoso e curvilíneo, possivelmente para controlar a altitude, a velocidade e a direção da viagem que estava apenas começando.

Não conseguia entender quase nada do que diziam os cânticos, cantados no idioma shipibo (etnia indígena que vive no Peru). Mas, era como se pudesse sentir seu significado. Eles pareciam abraçar lentamente cada uma das cerca de 20 pessoas que participavam da cerimônia de ayahuasca que acabava de começar.

A experiência poderia ter ocorrido na distante selva amazônica peruana, mas aconteceu mesmo em São Paulo. Para ser mais exato, na Vila Leopoldina, zona oeste da capital paulista. Numa noite quente de novembro, este repórter participou de uma sessão de ayahuasca com o curandeiro peruano do povo indígena Shipibo-Conibo, Mateo Arévalo, 69.

Antevendo voos vertiginosos por lugares desconhecidos, um típico ‘frio na barriga’ se instalou desde bem antes do momento da ‘decolagem’. Não deu outra. Depois de mandar goela adentro o segundo copo de ayahuasca, não sobrou tempo nem para anotar a placa.

Um estudo global estima que mais de quatro milhões de pessoas tenham consumido ayahuasca em algum momento da vida

Fui atropelado por uma enxurrada de sentimentos, pensamentos, lembranças e percepções. Tudo num fluxo veloz e incessante, ao mesmo tempo suave e profundo.

O velho curandeiro cantarolava seus antigos icaros, cantos transmitidos pelos espíritos das ‘plantas professoras’ nas muitas dietas que fez ao longo de várias décadas na selva.

Com seus cantos, sussurros, sopros e a fumaça de seu cachimbo de mapacho (tabaco medicinal usado nas cerimônias de ayahuasca na Amazônia peruana), o ancião indígena foi pilotando a sessão e nos guiando como para dentro de um antigo sonho.

Foto: Anastásia Vaz

Tranquilo, ele parecia tecer um manto com a voz. No escuro do salão (sim, a sessão é no breu total, não fica nem uma velinha acesa), os ícaros (ao menos para mim) foram se transformando em desenhos, com mandalas complexas e imagens labirínticas, típicos da arte shipibo.

Os cânticos, animados de vida, dançavam como uma serpente que observava a todos, sorrateira e atenta, entrelaçando-se às mirações (visões provocadas pela ayahuasca) que surgiam e desapareciam como ondas invisíveis.

No meio desse emaranhado caótico e misterioso, uma força estranha (talvez a tal ‘voz das plantas’) começou a me mostrar ‘pontos cegos’ em minhas percepções sobre vida, morte, trabalho, relações.

Aspectos e camadas ocultas da realidade naquele momento pareceram óbvias e simples. Insights que no estado normal cotidiano escapariam facilmente, como areia entre os dedos. É a ‘mágica’ da ayahuasca.

O caminho do xamã

“Sou a continuação de uma família de curandeiros”, diz Mateo Arévalo, mais conhecido como Don Mateo. “Meus avôs, pais, tios e primos são todos curandeiros”. Ele conta que bebeu ayahuasca pela primeira vez aos 12 anos na Comunidade São Francisco, em Pucallpa, na região de Ucayali, na Amazônia peruana, onde vive até hoje.

Don Mateo conversou com a Psicodelicamente antes de chegar ao Brasil para uma série de cerimônias e retiros de ayahuasca em São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O caminho para se tornar um curandeiro, ele diz que começou a trilhar aos 25, quando regressou à comunidade indígena depois de uma temporada em Lima para estudar.

Desde então já se vão mais de quatro décadas de trabalho com a ayahuasca e com uma infinidade de outras plantas amazônicas usadas nos trabalhos que conduz em Pucallpa.

Segundo Arévalo, a ayahuasca é como um caminho, uma ponte, uma estrada, por onde o curandeiro, guiado pelas ‘plantas professoras’, consegue sondar os diferentes tipos de doenças físicas, psíquicas ou espirituais e fazer um diagnóstico do paciente. “Com isso, podemos utilizar outros tipos de plantas ou outros meios de cura.”

Arévalo diz que antigamente havia poucos curandeiros. Ele alerta que hoje, com dezenas de centros de ayahuasca por todo o Peru, é preciso cuidado antes de escolher onde ir. “Muitos fazem mau uso da medicina”.

Pouco se fala sobre quanto o avanço da ciência psicodélica tem a ver com isso, de como o fenômeno da globalização da ayahuasca, entrelaçado à retomada das pesquisas científicas, afeta o conhecimento tradicional.

Há um crescente interesse de empresas de biotecnologia, especialmente nos Estados Unidos, pelo acesso e uso da ayahuasca, sem previsão de compensação aos povos originários, detentores milenares dos conhecimentos associados à bebida psicodélica.

E o novo turismo da ayahuasca, principalmente nas cidades amazônicas, é, em grande parte, também impulsionado pelo hype vinculado à chamada renascença psicodélica.

Um estudo global realizado pelo Iceers (sigla em inglês para Centro Internacional de Educação, Pesquisa e Serviço Etnobotânico), sediado na Espanha, estima que mais de quatro milhões de pessoas tenham consumido ayahuasca em algum momento da vida.

O relatório, divulgado este ano, aponta que apenas em 2019 aproximadamente 820 mil pessoas consumiram ayahuasca, o que representa quase 5,5 milhões de doses.

O atendimento a essa enorme demanda de novos viajantes representa hoje, junto com o narcotráfico e outras atividades ilegais, uma ameaça real ao conhecimento tradicional amazônico.

De acordo com o estudo do Iceers, que mapeou os centros de ayahuasca em países amazônicos, o Peru é o país com a maior quantidade de retiros em atividade atualmente, 174, ou 74,6% do total de espaços na região.

Proteção do conhecimento tradicional

Para defender as boas práticas da medicina tradicional, Mateo Arévalo e outros curandeiros fundaram, em 2018, a Associação Onanyabo de Médicos Ancestrais Shipibo-Conibo, que tem a participação de mais de 130 indígenas.

Durante o evento que marcou a criação da associação, foi divulgado um documento chamado Declaração de Yarinacocha (região em Pucallpa onde está localizada a comunidade São Francisco, dos indígenas shipibo).

O texto afirma que as oportunidades abertas pelo interesse internacional pela medicina shipibo, em particular a ayahuasca, trouxeram perigos.

Curandeiros reclamam que, apesar da popularidade da beberagem amazônica – embalada por evidências de pesquisas científicas que apontam o potencial terapêutico do chá para tratar diversos transtornos mentais – pouco se fez até agora em relação a outras preocupações políticas e socioeconômicas dos povos indígenas.

“Centenas de centros de ayahuasca surgiram em toda a Amazônia. Tendo conversado com uma vasta gama de curandeiros e trabalhadores, acreditamos que a maioria dos centros, muitos deles de propriedade estrangeira, exploram os seus funcionários, não lhes pagam salários justos e muitas vezes negligenciam os seus problemas de saúde”, denunciam os autores da Declaração de Yarinacocha.

Depois de mandar goela adentro o segundo copo de ayahuasca, não sobrou tempo nem para anotar a placa

O manifesto dos curandeiros também ressalta que centros não se preocupam com a transmissão de conhecimento às gerações mais jovens do povo shipibo e com a luta política por seus territórios.

O documento sugere que medidas sejam tomadas para que os curandeiros possam concentrar-se na formação e educação de jovens, especialmente nas comunidades.

De acordo com o texto, essa é uma ação necessária contra a apropriação cultural que se impõe com a presença massiva de estrangeiros nos locais. “Nossos jovens não têm recursos econômicos ​​para realizar longos períodos de formação”, diz a carta.

“Milhares de estrangeiros nos visitam para cerimônias de ayahuasca e falam de consciência expandida enquanto as comunidades shipibo diminuem fisicamente, e o extrativismo, a poluição e a usurpação territorial cobram o seu preço”, ressaltou a associação de curandeiros.

“Raramente é mencionado, mas os curandeiros estão migrando das suas aldeias para locais mais urbanos e acessíveis aos turistas”, disse o ativista shipibo, Robert Guimaraes Vásquez, durante reunião da associação.
Segundo ele, com isso as comunidades ficam sem os cuidados de saúde da medicina tradicional e a única opção que resta é um passeio de barco até uma farmácia urbana.

“Isto é apenas parte do problema que está tornando as florestas tropicais ainda mais vulneráveis, enfraquecendo a gestão das comunidades indígenas”, diz Vásquez.

O ativista cita uma pesquisa que mostrou que as terras indígenas têm taxas de desmatamento mais baixas do que os parques nacionais e reservas naturais.

No entanto, apesar de todas as evidências, os povos indígenas, como guardiões das florestas, são muitas vezes deixados sozinhos com suas lutas, ressaltou o ativista. “Uma comunidade indígena que não tem curandeiro está condenada a perder também seu território”.

Conexões Shipibo

“A ayahuasca representa uma antiga forma de medicina capaz de auxiliar na cura de diversos sofrimentos humanos”, diz a terapeuta Anelise Pacheco, 46. “No entanto, é crucial que essa medicina seja administrada por indivíduos devidamente preparados para direcionar as pessoas em suas jornadas de cura.”

A terapeuta é idealizadora do projeto Conexões Shipibo, que busca fortalecer e preservar as tradições do povo indígena com as quais teve contato na selva peruana. Foi ela que organizou a viagem de Mateo Arévalo ao Brasil este ano. 

Anelise agora se prepara para levar em 2024 grupos para retiros e dietas com ayahuasca e outras plantas amazônicas no centro do curandeiro em Pucalpa, a Casa de Medicina Natural Ancestral “OniNete”.

Uma força estranha começou a me mostrar ‘pontos cegos’ em minhas percepções sobre vida, morte, trabalho, relações

“É um pequeno espaço com algumas cabaninhas onde realizo trabalho com as pessoas que chegam, por dias, semanas, ou meses dependendo da enfermidade que tenham”, diz Mateo Arévalo.

Ele reconhece que o turismo xamânico traz benefícios econômicos para a comunidade indígena e para a economia local, mas reclama que, por outro lado, há pessoas de olho apenas no lucro.

“Muitos trabalham apenas como intermediarios, levam os turistas a qualquer pessoa que somente dá a ayahuasca, mas que não é curandeiro de verdade. Há vários casos de gente que se deu mal assim, não queremos isso”, alerta Arévalo.

Simulacro da serotonina

A cerimônia com o curandeiro shipibo em São Paulo, da qual participei, terminou por volta das duas da madrugada. Ainda deitado em cima de um fino colchonete, com a cabeça escorada numa almofada improvisada, o sentimento, apesar de alguns bons sustos, era de bem-estar.

Em parte, simulacro de serotonina (efeito típico dos psicodélicos clássicos, como a ayahuasca). Mas, por outro lado, nutrido também de gratidão pela oportunidade de estar ali e vivenciar uma experiência guiada por um autêntico ‘maestro’ indígena, um ancião da ayahuasca, reconhecido internacionalmente por sua luta em proteção do conhecimento tradicional amazônico da selva peruana.

Ao me recompor da aterrissagem vertiginosa (semelhante a um desvirar do avesso, permeada por uma sensação de plenitude e liberdade), me veio à mente o trecho de um clássico do cancioneiro de Roberto Carlos: “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi.”

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