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O que havia no LSD de Charles Manson?

O livro ‘Helter Skelter’, que relata um dos crimes mais brutais da história americana, expõe a face sombria dos psicodélicos e o paradoxo por trás do sonho hippie

O que havia no LSD de Charles Manson?
O que havia no LSD de Charles Manson?
O promotor Vincent Bugliosi que pessoalmente reuniu grande parte das evidências que levaram às condenações e aos veredictos de pena de morte para Charles Manson e seu grupo (Foto: Curt Gunther)
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São Francisco, verão de 1967. Nas calçadas da Haight-Ashbury, jovens de cabelo comprido distribuem papelotes de LSD como quem oferece bombom. O movimento ganha o nome de Summer of Love. Cantam que o amor vai salvar o mundo, que basta expandir a consciência para acabar com a guerra, com o egoísmo, com a violência. O ácido é a chave dessa porta.

Dois anos depois, na madrugada de 9 de agosto de 1969, a mesma chave abre outra porta, numa casa em Cielo Drive, Los Angeles. Sharon Tate, grávida de oito meses, é esfaqueada dezesseis vezes por seguidores de um ex-presidiário chamado Charles Manson. Na parede, escrito com sangue das vítimas, a palavra pig (porco, em inglês).

No dia seguinte, na casa do casal LaBianca, aparece na geladeira, também em sangue, a expressão Helter Skelter (em português, algo como “correria desordenada”), título de uma canção dos Beatles. E é esse o nome que batiza o livro que reconstrói, em detalhes, como uma comunidade nascida sob o signo da paz e do amor terminou num dos crimes mais brutais da história americana.

Vincent Bugliosi, o promotor que levou Manson a julgamento, e o jornalista Curt Gentry publicaram Helter Skelter em 1974. O livro se tornou o mais vendido da história do gênero true crime. Meio século depois, a obra chega ao Brasil pela primeira vez, lançada recentemente pelo selo Crime Scene, da DarkSide Books, numa edição caprichada em capa dura, com 752 páginas, tradução inédita e um rico caderno de fotos exclusivas.

Ler esse calhamaço hoje é reencontrar, entre as linhas do processo criminal, uma pergunta que a essa altura já deveria estar respondida e não está: o que exatamente havia no LSD de Charles Manson?

Manson durante a batida de 16 de agosto de 1969 no rancho Spahn. (Foto: Reprodução)

A coleira disfarçada de viagem

Manson chega a São Francisco em 1967, aos 32, no modo “pé rapado” em nível hard após sair da prisão federal de McNeil Island, no estado de Washington, onde cumpriu sete anos por transportar mulheres entre estados para fins de prostituição e por falsificação de cheques. Não era a primeira vez atrás das grades, aliás, ele já tinha passado praticamente metade da vida entrando e saindo de prisões desde os 13. Era só mais um fracassado, sem dinheiro e sem o sucesso que desejava, mas com um instinto afiado para reconhecer gente perdida.

Tinha uma espécie de antena parabólica que captava, na imensa multidão que o verão do amor atraía à Haight-Ashbury, garotas fugidas de casa, rapazes que corriam da guerra do Vietnã, e todo tipo de maluco em busca de famílias mais alinhadas com as ideias da nova onda do amor livre.

O LSD para aquela geração prometia o combo perfeito: expandir a consciência, dissolver o ego, revelar a conexão essencial entre todas as coisas. Nas mãos de Manson virou o oposto de tudo isso. E o ego dele, que apesar das condições adversas já era enorme, além de não dissolver nem um tiquinho, ficou ainda maior.

Dianne Lake, que entrou para a comuna aos 14, contou que Manson dosava o grupo e discursava por horas, distorcendo trechos da Bíblia e letras dos Beatles até encaixá-los na própria visão de mundo. No Spahn Ranch, o cenário decadente de faroeste onde a estranha tribo se instala em 1968, ele decidia quem comia, quando dormia, com quem transava. E, nas sessões coletivas de ácido, cuidava para tomar menos que os outros, às vezes nada, preservando a lucidez enquanto pregava como profeta para uma plateia alucinada. A viagem que devia libertar virava uma coleira.

Paul McCartney escreveu Helter Skelter em 1968 só pra soar mais suja e barulhenta que qualquer coisa que o The Who tivesse gravado, buscando o som de um brinquedo de parque de diversões descendo em espiral. Não tinha nada a ver com raça, nem com apocalipse. Mas o White Album virou trilha obrigatória das sessões de ácido em Spahn Ranch, e sob o efeito da droga, ouvindo a mesma faixa em loop, Manson decodificava em Piggies, em Blackbird, em Revolution 9, uma profecia de guerra racial iminente que só ele enxergava, e que caberia à sua família sobreviver escondida no deserto até reaparecer no comando do mundo.

O livro Helter Skelter expõe, logo em suas páginas iniciais, como o LSD que já era personagem central do cotidiano da turma de Manson ganha destaque também na investigação policial. Na primeira parte, “Os assassinatos”, Bugliosi registra que Peter Hurkos, médium contratado por amigos de Jay Sebring, foi levado à cena do crime para fazer uma “leitura” do caso.

Sebring, que era cabeleireiro de celebridades, ex-namorado de Sharon Tate e amigo próximo do casal, foi morto junto com ela na mesma noite. O médium declarou à imprensa que os assassinos eram amigos de Sharon Tate, transformados em “maníacos homicidas desvairados” pelo uso de uma enorme quantidade de LSD. Bugliosi e Gentry registram ainda que Hurkos afirmou que a droga era usada em um ritual de magia conhecido como goona goona.

A teoria não foi longe, porque a polícia tratou as informações com ceticismo, mas isso mostra como, desde o primeiro momento, o LSD orbitava o imaginário e as investigações.

A água que ia salvar o mundo

Do outro lado do país, gente como Timothy Leary, o psicólogo de Harvard que virou o principal guru do movimento psicodélico americano, sonhava em colocar essa mesma substância, ou seja, o LSD, na água de uma cidade inteira, mas com uma proposta bem diferente das alucinações de Manson. O gesto tinha como objetivo a salvação coletiva. A ironia é que a ideia não nasceu num guru do amor livre.

A fantasia de dopar uma cidade inteira com LSD não brota da contracultura. Nasce do Pentágono. Em 1959 o general James Creasy, do Corpo Químico do Exército americano, defendeu publicamente que enlouquecer temporariamente uma população com um agente químico seria mais humano que bombardeá-la, um argumento de guerra fria para justificar armas psicoquímicas.

Leary lê isso e inverte o sinal em 1962, sugerindo que o próprio governo dope preventivamente sua água, para blindar os cidadãos contra um hipotético ataque psicodélico soviético. Anos depois, em 1967, a Neo-American Church, fundada por Arthur Kleps, um dos integrantes do grupo psicodélico do psicólogo de Harvard reunido na propriedade de Millbrook, Nova York, ameaça publicamente fazer o que o general só cogitara em teoria, dopar a água caso fosse perseguida pelo estado.

Em 1968, no rescaldo dos assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy, com a Guerra do Vietnã em escalada, o ativista Abbie Hoffman, fundador dos Yippies, um desdobramento politizado do movimento hippie, espalha a história, puramente satírica, de que o grupo doparia a água de Chicago durante a Convenção Democrata, na esperança de que os políticos atingissem iluminação espiritual e parassem a máquina de guerra. Pura encenação, que nunca saiu do papel.

O delírio de controlar uma cidade inteira via LSD atravessa os dois lados do espectro, o establishment que queria dominar e a contracultura que queria salvar, e talvez essas duas coisas não estivessem tão distantes quanto pareciam.

Quem controlava Manson

Existe ainda uma camada dessa história que Bugliosi mal tocou em 1974, mas que o jornalista Tom O’Neill vasculhou décadas depois no livro “Chaos”, adaptado recentemente pela Netflix no documentário “Chaos: The Manson Murders”, dirigido por Errol Morris.

O’Neill descobriu que Manson e suas seguidoras frequentavam a Haight-Ashbury Free Medical Clinic, onde atuava Louis Jolly West, psiquiatra ligado ao MKUltra, o programa da CIA conhecido por seus estudos com LSD para controle mental. O’Neill também documenta uma leniência incomum da polícia e da condicional com um ex-presidiário que vivia violando as regras.

Mas O’Neill é cauteloso, não prova conexão direta entre a agência e o líder da comuna maluca, e levanta perguntas que seguem sem resposta. Mas a hipótese, mesmo não confirmada, empurra ainda mais longe a pergunta que abre esse texto. Se havia mesmo alguém de olho em Manson enquanto ele testava os limites do LSD sobre um grupo de jovens vulneráveis, o experimento involuntário pode ter sido maior do que qualquer um imaginou.

Cinquenta anos depois, vivemos outro momento de fascínio com os psicodélicos, agora embalado por pesquisa clínica séria que investiga possíveis tratamentos para depressão, estresse pós-traumático, dependência química, entre outras condições de saúde. Mas a crescente empolgação esconde armadilhas e abre espaço para novos gurus, inclusive do estilo de Manson. A revista The Lancet, uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo, alertou em 2026 que é preciso separar firmemente a esperança do hype, e que os estudos ainda são preliminares para sustentar as promessas messiânicas que circulam por aí.

Parte da elite bilionária do Vale do Silício já expandiu a consciência em cerimônias e microdoses, e mesmo assim segue investindo em vigilância em massa, especulação espacial e concentração de riqueza, uma prova de que “consciência expandida sem análise de poder é espiritualidade de boutique”, observa o psicólogo Felipe De Nadai, integrante da APB (Associação Psicodélica do Brasil) em artigo publicado recentemente.

Reler Helter Skelter nesse momento, além de relembrar um assassinato que abalou o mundo, pode trazer uma percepção incômoda, mas oportuna. A molécula que abre as portas de percepção não vem com garantia nenhuma sobre o que existe do outro lado. Foi assim em 1969, é assim hoje.

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