Psicodelicamente
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Congresso de psicodélicos terá indígenas e foco em justiça social
Evento no Rio, com transmissão ao vivo pela internet, chega à sua segunda edição maior, com debates sobre integração, acesso e regulação
As inscrições para a segunda edição do Congresso Brasileiro sobre Psicodélicos, que acontecerá no Rio de Janeiro nos dias 8 e 9 de novembro, estão encerradas. A boa notícia é que o evento será transmitido ao vivo pelo canal da Associação Psicodélica do Brasil no YouTube. Neste ano, a conferência terá como foco três eixos principais: integração, acesso e regulação.
Pensando no acesso, os organizadores fizeram questão de manter a entrada gratuita, o que ajuda a explicar o rápido esgotamento das inscrições. De acordo com a APB, foram disponibilizados 1.260 ingressos, distribuídos em três lotes. Os primeiros se esgotaram em menos de dois dias, e o último em apenas 20 horas. Outro fator que contribuiu para o recorde de inscritos é o crescente interesse pelo tema no Brasil.
Realizado pela primeira vez em novembro de 2022 na Fiocruz, o congresso terá sua segunda edição em um novo endereço e será maior: no Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). De acordo com o cofundador da APB e coordenador geral do evento, o psicólogo Fernando Beserra, haverá três espaços com atividades simultâneas: dois auditórios e uma sala.
Um terceiro auditório deverá ser disponibilizado para que o público que não conseguir acessar as palestras possa acompanhá-las no local por meio da transmissão em tempo real pela internet.
Ciência, arte, clínica, engajamento político e a diversidade de vozes e atores que compõem a temática dos psicodélicos no Brasil devem marcar a segunda edição do congresso, prevê Beserra. “Além de renomados convidados de diversas regiões do país, teremos a apresentação de trabalhos científicos.”
Povos originários estarão representados
Embora a programação ainda não tenha sido divulgada, o coordenador do congresso, Fernando Beserra, afirmou que os principais grupos de pesquisa, empresas, atores e entidades ligadas ao campo dos psicodélicos no país estarão presentes.
Uma novidade desta edição é a participação de representantes dos povos originários e do conhecimento tradicional indígena. Entre eles, Kellen Vilharva, Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, pós-graduanda na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas); Joel Puyanawa, líder espiritual de seu povo em Mâncio Lima, no Acre; e Randy Gonzalez, curandeiro vegetalista da região de San Martín, na Amazônia peruana.
Diversas universidades participarão do evento, incluindo UFRJ, PUC-Rio, Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Unicamp e UFG (Universidade Federal de Goiás). Também estarão presentes os conselhos regionais de psicologia do Paraná, Pernambuco e Rio de Janeiro, além de associações, ONGs, startups e imprensa especializada. Estão confirmadas as participações do Instituto Chacruna, da Rede Reforma, do Instituto Nhanderu e da Scirama. A revista Psicodelicamente estará em duas mesas do congresso.
Resistência política
Muita coisa mudou na cena psicodélica brasileira e global durante o hiato entre a atual e a primeira edição do congresso, diz Beserra. Segundo ele, nos últimos dois anos, o evento cresceu significativamente e amadureceu junto com a APB. No entanto, algumas pautas permanecem as mesmas, como o foco na justiça social. Ele também destaca que os desafios políticos, que afetam os processos regulatórios, voltarão a ocupar lugar de destaque nas discussões.
“Atualmente, observamos um aumento significativo nas pesquisas sobre psicodélicos. Curiosamente, porém, a discussão sobre a regulação dos usos sociais continua em grande parte invisibilizada”, observa o coordenador do congresso. Na avaliação do psicólogo, enquanto a perspectiva de mercado avança, com altos potenciais de lucro, os debates sobre o acesso aos usos terapêuticos, sociais e culturais seguem com pouca visibilidade, assim como as análises políticas e sociais mais amplas.
Aliás, a crescente organização de minorias, frequentemente negligenciadas pela ciência psicodélica, também será representada no evento pelos coletivos Psicodelia Baixo Astral e Marcha das Favelas (RJ) e por políticos favoráveis à luta antiproibicionista. “A interseccionalidade no debate sobre psicodélicos está ganhando força, atuando como uma forma de resistência política.”
Programação ampliada
Neste ano, a organização estima receber o dobro do público em relação à edição anterior, com a expectativa de mais de 600 participantes ao longo dos dois dias. Em 2022, foram cerca de 300 presentes.
E a programação também será ampliada, informa o coordenador do congresso. “Teremos 35 palestrantes convidados, um aumento de mais de 50% em relação ao primeiro. Além disso, estão previstas cerca de 50 apresentações de trabalhos científicos inscritos, em comparação com 16 na primeira edição.”
No eixo de trabalhos científicos, Beserra detalha que serão abordados nove temas: reparação social, redução de danos, acesso à saúde pública, filosofias e artes psicodélicas, espiritualidade e usos tradicionais, psicoterapia de integração, política de drogas, potenciais terapêuticos dos psicodélicos e relações abusivas em contextos psicodélicos. Veja mais detalhes sobre o evento no site do congresso.
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