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André Figueiredo: Bolsonaro não é “nacional-desenvolvimentista”!

‘Os ocupantes do Palácio do Planato, a começar pelo chefe, são entreguistas e subdesenvolvimentistas’

Foto: Marcos Corrêa/PR
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Por André Figueiredo, deputado federal (PDT-CE) e Líder da Oposição na Câmara de Deputados

Alguns respeitados comentaristas da cena política fizeram declarações sobre o suposto “nacional desenvolvimentismo” do presidente Jair Bolsonaro, as quais produziram uma onda de perplexidade entre os militantes do Projeto Nacional de Desenvolvimento (PND).

 

O PND, embora seja uma marca muito forte do Partido Democrático Trabalhista, não é exclusividade nossa. Outros partidos, movimentos e intelectuais levantam a bandeira do nacional desenvolvimentismo, e isso mostra a força dessa ideia.

Palavras são importantes. Guerras, revoluções, tragédias, são deflagradas ou evitadas com palavras mal ou bem usadas. A imprensa profissional deveria ser a primeira a ter plena consciência disso.

Bolsonaro não tem uma gota de sangue nacional-desenvolvimentista correndo em suas veias!

Agora, não seria a primeira vez, nem a última, que um governante tenta aumentar popularidade fazendo obras inúteis, tocadas de qualquer jeito, sem estratégia ou projeto.

E pode ser que haja, dentro da administração federal, alguma divisão entre setores políticos mais populistas, que tem interesse em criar uma agenda positiva de obras, e outros mais liberais, interessados apenas em promover a imagem de um governo comprometido com os setores financeiros da economia, para os quais o Estado deve ser mínimo quando o tema for investimentos em infra-estrutura e serviços públicos, embora máximo no pagamento de juros da dívida estatal.

Mas não há nada aí de “nacional desenvolvimentismo”. Sobretudo se considerarmos que o o que entendemos com essa expressão, em 2020, evoluiu um bocado em relação ao que se entendia no passado. E não porque o conceito fosse equivocado naquela época, mas simplesmente porque o mundo evoluiu, e com o mundo, nossas ideias.

Hoje, não se pode conceber um projeto nacional de desenvolvimento, sem que os temas da sustentabilidade e da desigualdade de renda, participem de seu núcleo.

Está claro que o governo Bolsonaro não tem nenhum tipo de compromisso nem com a agenda da sustentabilidade (ambiental e social) nem com a luta contra a desigualdade.

Para que houvesse algum tipo de nacional desenvolvimentismo no governo Bolsonaro, além disso, seria preciso que ele mostrasse compromisso real com os interesses nacionais, de um lado, e com o desenvolvimento, de outro.

Os interesses nacionais pressupõem a defesa de setores estratégicos do país num determinado momento histórico. Como detentores de reservas de minério de ferro, petróleo, terras agricultáveis de extensão continental, uma administração realmente nacionalista procuraria usar essas vantagens comparativas para arrancar, em acordos comerciais com as grandes potências, pactos transnacionais de transferência de tecnologia. Foi assim que Getúlio Vargas conseguiu transferir a tecnologia de produção de aço para o Brasil, criando a Companhia Siderúrgica Nacional. Hoje poderíamos, com uma diplomacia inteligente, transferir tecnologia nas áreas de inteligência artificial, telecomunicações, satélites espaciais, energia solar, através de acordos diplomáticos com a China, por exemplo.

O governo Bolsonaro, no entanto, nomeou uma figura completamente desequilibrada para o ministério das relações exteriores, o qual, ao invés de costurar acordos com os países industrializados, tornou-se um sub-chanceler, submisso aos caprichos e grosserias do filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, que vem fazendo ataques cada vez mais graves a China.

Quanto ao desenvolvimento, hoje é evidente que nenhum país do mundo o alcançará sem investimentos maciços em educação, desde a primeira infância até o ensino superior, e em pesquisa e tecnologia.

Ora, o governo Bolsonaro é assumidamente contra a educação pública, na medida em que, desde que assumiu, não ofereceu nenhum projeto, nenhuma ideia, nenhum debate sério, sobre como aperfeiçoar o treinamento de nossas crianças, adolescentes e jovens. Ao contrário, seus ministros da Educação foram sempre os mais grosseiros e ideológicos, e o sistema nacional de educação apenas não entrou em colapso em virtude da abnegação e esforço sobre humano de milhares de educadores, que vem trabalhando diuturnamente para que as diatribes de Bolsonaro não destruam o futuro de nossos filhos.

Os ataques de Bolsonaro à pesquisa e aos pesquisadores brasileiros, suas manifestações e ações seguidas de desprezo pela ciência, a absoluta ausência de qualquer projeto que almeje reduzir o abismo cada vez mais profundo entre o Brasil e as nações ricas nas áreas que estão na fronteira do conhecimento e da tecnologia, deixam bastante claro que o presidente da república não é, definitivamente, um homem interessado em desenvolvimento.

Na verdade, nada poderia definir melhor o governo Bolsonaro e o próprio presidente como a expressão que seria exatamente o oposto de um nacional desenvolvimentista: os ocupantes do Palácio do Planato, a começar pelo chefe, são entreguistas e subdesenvolvimentistas! Vendilhões da pátria!

Redação Projeto Brasil

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