Mais uma crise, mais uma chance: Será o fim do neoliberalismo econômico?

Economistas deveriam repensar o entendimento sobre o funcionamento das economias de mercado

Ativista levanta cartaz em protesto contra a gestão da crise sanitária no Brasil. Foto: Evaristo Sá/AFP

Ativista levanta cartaz em protesto contra a gestão da crise sanitária no Brasil. Foto: Evaristo Sá/AFP

Economia,Observatório do Banco Central

O período entre dezembro de 2007 e julho de 2009 entrou para a história econômica mundial como a Grande Recessão. Se a recessão não foi tão dramática como a Grande Depressão da década de 1930, isso se deveu à rápida intervenção dos bancos centrais, que momentaneamente abandonaram as recomendações dos manuais de macroeconomia.

Em 2020, com a crise sanitária da Covid-19, uma nova crise econômica se instalou mesmo antes de uma plena recuperação do abalo econômico de 2007-2009. Novamente os bancos centrais tiveram de intervir de forma não convencional.

Com a experiência de duas crises mundiais em pouco tempo, o que muda no entendimento dos economistas sobre o funcionamento das economias de mercado?

 

 

Na retomada da crise financeira de 2007-2009, a influência do sistema financeiro sobre os níveis do produto e do emprego detinha pouca (ou nenhuma) atenção dos responsáveis pela condução da política macroeconômica. Acreditava-se que o principal e único objetivo da intervenção na economia era o controle da inflação, condição suficiente para a garantia da estabilidade econômica e do ritmo de atividade a níveis satisfatórios. A teoria macroeconômica de cunho monetarista fundamentava esta crença.

Ao se depararem com a possibilidade de uma recessão prolongada, a resposta dos formuladores de política foi promover reduções em suas taxas de juros, com o intuito de estimular a atividade econômica. Apesar de os juros caírem próximos ou até abaixo de zero em alguns países, contudo, os resultados em termos macroeconômicos foram pífios. O abalo no estado de confiança dos agentes econômicos e o excesso de liquidez nas economias provocaram um aumento das dívidas e baixo nível do produto e emprego. Foi necessário, então, lançar mão de políticas monetárias não convencionais e políticas fiscais expansivas.

Essaa políticas monetárias, adotadas principalmente na Europa, Estados Unidos e Japão, consistem basicamente na expansão dos meios de pagamento via compra de títulos públicos e privados, buscando estabilizar os mercados financeiros e, assim, facilitar as condições de financiamento para famílias e empresas.

Outras medidas que se desviaram da cartilha ortodoxa foram as políticas fiscais expansivas que, segundo o modelo convencional, não teriam a capacidade de estimular a atividade econômica no curto prazo e ameaçariam a estabilidade de preços a longo prazo. A despeito disso, os países que implementaram pacotes fiscais expansivos apresentaram melhor desempenho econômico. A título de exemplo, um dos primeiros atos do governo Obama, após tomar posse em fevereiro de 2009, foi sancionar um pacote fiscal que previa a injeção de quase 800 bilhões de dólares na economia americana (o maior da história do país até então).

As políticas fiscais expansionistas apresentaram maior eficácia em comparação à cartilha ortodoxa. Foram, porém, gradativamente sendo descartadas diante da recuperação econômica e do alarmismo em torno da piora de indicadores fiscais. Eram interpretadas apenas como políticas emergenciais. Já as políticas monetárias não convencionais foram mantidas até a primeira metade de década de 2010. Com baixo crescimento econômico, tal opção levou à exacerbação do peso do sistema financeiro e das práticas financeiras, sem necessariamente gerar externalidades positivas para o crescimento e a geração de emprego. Em uma economia financeirizada, as empresas não financeiras, por exemplo, passam a buscar cada vez mais ganhos em aplicações financeiras e o consumo das famílias passa a depender cada vez mais do crédito e menos de renda de salário.

Tomando os Estados Unidos como exemplo, o impacto das políticas monetárias não convencionais na dinâmica de famílias e empresas não financeiras foi o de aprofundar o processo de financeirização na economia americana.[1]

No caso das famílias, entre os anos de 2008 e 2019, houve crescimento do consumo acima da média do PIB mesmo com a renda pessoal estagnada e queda da participação dos salários na renda total. O crédito ao consumidor teve crescimento real de 30%, o que indica que o crescimento do consumo se deu com um maior endividamento das famílias.

Já as ações das empresas obtiveram uma valorização fictícia, uma vez que não foram apoiadas pelo crescimento do lucro ou do investimento produtivo, mas possivelmente, pelas baixas taxas de juros. Assim essas duas dinâmicas são características de aumento da financeirização e não podem ser dissociadas das políticas adotadas durante a Grande Recessão.

Em 2020, na crise do Covid-19, países ao redor do mundo adotaram em maior ou menor grau políticas de estímulos fiscais e monetários. Nos Estados Unidos, no governo Biden, surgem as propostas de pacotes fiscais robustos, que parecem estar deixando para trás a retórica do neoliberalismo de não intervenção. Será que no plano das ideias e na prática o reconhecimento da importância do papel do Estado interventor na economia com vistas a sinalizar rotas de crescimento com mais equidade social e sustentabilidade ambiental está ganhando terreno? Já não era sem tempo.

[1] ANTONIOLLI, T.; SAMPAIO, A.V.; FEIJÓ; C. A. (2021) A hora da política fiscal? O impacto das políticas macroeconômicas nos EUA a partir da crise financeira de 2008 e lições para a crise da pandemia, Brazilian Keynesian Review, vol. 8, no.2.

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Doutorando em economia na Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (Finde).

Professor de economia na UFF e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (Finde)

Professora titular na UFF e coordenadora do Finde

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