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Não importa se o gato é vermelho ou branco, desde que ele compre soja

Vejamos como ficará a realização da Cúpula dos Brics a ser realizada em novembro deste ano no Brasil, com presença do Xi Jinping

Em maio duas comitivas visitaram a China, uma capitaneada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e outra pela vice-presidência da República. Ambas em um contexto em que grupos internos tentam desfazer a desconfiança nas relações bilaterais e reforçar uma agenda mais pragmática com a China – que é a maior parceira comercial e fonte de investimento e financiamentos para o Brasil.

A visita de Bolsonaro e seus filhos a Taiwan, em março de 2018, e as declarações de que “a China é uma ameaça nacional”, dadas por Bolsonaro durante a campanha eleitoral, tinham instaurado um clima de incertezas nas relações Brasil-China. Como resultado, ainda no fim do ano passado, houve a paralisação de desembolsos do Fundo de Cooperação Brasil-China para Expansão da Capacidade Produtiva, orçado em até 20 bilhões de dólares.

Xi Jinping na sessão do Comitê Nacional (Foto: AFP)

Mesmo no governo, o Ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, não amenizou o discurso em relação à China. Afirmou-se que apesar de vendermos “soja e minério de ferro” “não vamos vender nossa alma”. Na narrativa criada, pressupõe-se que as relações econômicas com a China resultaram de concessões do Brasil em termos políticos, mormente a participação no “mundo pós-americano dos Brics”. Juntou-se a isso a fantasia de que a intensificação da aproximação do Brasil com o país corresponde a “um período de estagnação”, enfeixado em um ciclo “do Brasil com parceiros errados”. Parecia que havia um desejo de diminuir a importância da China para o Brasil, coerente com o realinhamento com os EUA que considera China e Rússia como ameaças.

Contudo, há outros grupos no governo que pensam as relações de uma forma mais pragmática. Destaca-se entre eles o Mapa, comandado pela ministra Tereza Cristina, que concentra os interesses do agronegócio: os maiores ganhadores e os que mais têm a perder com um afastamento da China. E a vice-presidência, responsável por co-presidir a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), criado durante o governo Dilma para coordenar a relação entre os países.

Na missão à China capitaneada pelo Mapa e acompanhada pelo setor privado, o principal objetivo foi aumentar a quantidade de frigoríficos com habilitação para vender para a China e o leque de produtos exportados. Embora o governo chinês tenha se disposto a avaliar a habilitação de um número reduzido de plantas frigoríficas (apenas 20), avançaram as negociações para a criação de um método de inspeção entre os países. Acertou-se ainda que no segundo semestre um especialista, que deve ser alocado na embaixada chinesa, viria ao Brasil para trabalhar com empresas e governo federal em questões sanitárias. A ministra Teresa Cristina também recebeu confirmação de interesse de investidores chineses em aportar recursos em obras de infraestrutura para facilitar o escoamento de minério e grãos no Brasil.

No final de maio foi a vez do vice-presidente visitar a China. Em diversas entrevistas concedidas antes, durante e depois da viagem, Mourão declarou que ambicionava explicitar à China a sua importância estratégica para o Brasil. E que almejava retomar as reuniões da Cosban, que estavam paralisadas desde o golpe de 2016, intentando alinhá-las a resultados concretos e não “meros fóruns de debate”. Ele permaneceu lá por cinco dias e desenvolveu uma lista intensa de atividades. Discursou em favor do aumento do valor agregado da diversificação das exportações brasileiras, da continuidade dos investimentos chineses, em particular da empresa Huawei no Brasil, à qual Mourão não fez objeção. Por pressão chinesa, admitiu uma possível integração do Brasil à Belt and Road Initiative (BRI). Mourão foi ainda recebido pelo presidente chinês, Xi Jinping, em uma demonstração da importância atribuída pela China ao Brasil.

Mais do que tomar alguma decisão de envergadura sobre os temas discutidos, a visita serviu para tentar desfazer as incertezas que se instalaram nas relações bilaterais desde ascensão de Bolsonaro à presidência. Contra o discurso crítico à China propagado pelo Itamaraty, observa-se a imposição do pragmatismo dos interesses concretos. Ao final, não importa se o gato é vermelho ou branco, desde que ele compre soja. Isso tudo condicionado ao esvaziamento do conteúdo político do Brics – processo iniciado no governo de Michel Temer.

Lembra-se que antes de viajar aos EUA, em março último, Bolsonaro anunciou que visitaria a China no segundo semestre. O presidente também não se opôs a requisição do Mapa, instado por setores do agronegócio, para que o Brasil apoiasse o candidato chinês para as eleições na FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura).

Se considerarmos que só pode haver sustentação de uma posição em política externa uma vez que ela esteja enraizada em grupos de interesses, o que se espera é que a China deva ser mantida em elevada posição na hierarquia de prioridades brasileiras. O bom andamento das relações exige que se mantenha uma aproximação política para o encaminhamento dos problemas. Portanto, por enquanto o pragmatismo dos interesses econômicos se sobrepõe à retórica anti-China e à ideologia do ocidentalismo judaico-cristão.

Vejamos como ficará a realização da Cúpula dos Brics a ser realizada em novembro deste ano no Brasil, com presença do Xi Jinping. Sem dúvida um acirramento do conflito entre os EUA e a China pode gerar uma pressão norte-americana para enquadrar seus aliados em uma cruzada contra os interesses chineses.

*Com a colaboração do Prof. Giorgio Romano Schutte e dos alunos Bruno Castro Dias da Fonseca, Bruna Belasques Souza e Ana Paula Fonseca Teixeira.

**Os textos do Observa Mundo são produzidos pelo Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil, um projeto de extensão da Universidade Federal do ABC que nasceu de um esforço conjunto entre docentes, discentes e militantes da área de Relações Internacionais para acompanhar e analisar de forma crítica e sistemática a nova dinâmica da inserção internacional do Brasil, bem como democratizar o debate sobre a política externa brasileira.

 

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