A briga com a China, o tiro pela culatra e a pistola que não para

Não é nada bom que as relações entre Brasil e China estejam tão fragilizadas em um período de grandes transformações como o que vivemos

Créditos: EBC

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Por Ana Tereza Lopes Marra de Sousa*

A crise que abate as relações Brasil-China foi produzida pela mesma facção ideológica que tenta, desde que Jair Bolsonaro era ainda candidato à presidência, promover uma ampla reavaliação das relações bilaterais. Esse grupo é representado por Ernesto Araújo, ministro das relações exteriores, e Eduardo Bolsonaro, presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara.

Eles constituem a ala ideológica da política externa brasileira. Baseiam suas ações em uma lógica abstrata de defesa da civilização ocidental, justificando-se assim um alinhamento com os EUA e uma necessidade de distanciamento da China, encarada como uma ameaça ao Ocidente.

Com essa convicção, desde o ano passado essa facção tenta rebaixar a importância das relações sino-brasileiras. Entretanto, houve muitas dificuldades para colocar em prática essa orientação, dada a importância econômica que a China tem para o Brasil, pois é o principal destino de exportações, principal fonte de importações e do superávit comercial brasileiro. Tal fato levou a mobilização de interesses concretos para a defesa das relações Brasil-China.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a Vice-Presidência da República e o Ministério da Economia, ecoando preocupações de setores econômicos, principalmente o agronegócio e a mineração, constituíram um grupo mais pragmático, em contraposição a ala ideológica, e desde os primeiros meses do governo tomaram do Ministério das Relações Exteriores (MRE) o protagonismo nas relações, passando a concentrar em si as principais negociações com a China. Também os governos subnacionais, caso do Consórcio Nordeste, estabeleceram com a China canais diretos. A ala ideológica viu-se, então, em segundo plano.

Entretanto, em 2020, fortalecida por dois novos fatos – o acordo de cooperação militar entre Brasil e EUA e a pandemia do covid-19 -, a facção ideológica renasceu. O acordo militar com os EUA, fechado no início de março, colocou mais pressão nas relações Brasil-China por causa do contexto de disputa entre China e EUA, a chamada guerra comercial (que não deve ser lida apenas como uma disputa por comércio, pois envolve também a luta pelo estabelecimento de padrões tecnológicos, poder e riqueza nas relações internacionais).

Desde o início dessa disputa, os EUA tentam forçar uma tomada de partido em seu favor, o que se desdobrou na insistência para que a Huawei – empresa chinesa de tecnologia da informação – tenha sua atuação prejudicada no Brasil como moeda de troca ao aprofundamento das relações bilaterais.

A Huawei é uma das poucas empresas do mundo a dominarem a tecnologia 5G, essencial para a próxima revolução industrial. Um dos objetivos dos EUA é evitar que empresas chinesas obtenham domínio sobre os padrões tecnológicos do futuro, daí o ataque a Huawei. Com o acordo militar, a ala ideológica tentou novamente se colocar no primeiro plano das relações Brasil-China para pressionar o Brasil a tomar partido dos EUA na guerra tecnológica.

É nessa moldura de disputa que se deve ler os ataques proferidos por Eduardo Bolsonaro a China em uma rede social no dia 18 de março, no qual o deputado culpou o país pela pandemia do covid-19, reproduzindo argumentos semelhantes aos utilizados por Trump. É ainda nesses marcos que se deve compreender a gestão problemática feita pelo Ministério das Relações Exteriores que, em vez de pedir desculpas a China pelo que disse o deputado, preferiu exigir uma retratação da embaixada chinesa por um outro conteúdo compartilhado em rede social, abrindo assim uma crise diplomática entre os países.

O objetivo não declarado de tais ações foi oportunizar um aprofundamento do alinhamento com os EUA e reforçar China e EUA como opções excludentes de política externa. O tiro, contudo, saiu pela culatra. Pressionado, Jair Bolsonaro se viu obrigado a pessoalmente encaminhar o problema por meio de um telefonema ao presidente Xi Jinping. O resultado foi, apenas alguns dias depois, a liberação para a participação da Huawei no leilão nacional do 5G, como forma de reafirmar o caráter pragmático nas relações bilaterais.

Porém, não deu tempo de normalizar as relações, pois os disparos da ala ideológica contra a China continuaram. Campanhas foram erguidas nas redes sociais para defender o boicote ao país e outros personagens do governo, como o ministro da Educação, Abraham Weintraub, reforçaram a facção anti-China, aumentado o mal-estar entre os países e, do mesmo modo, o tom das respostas da Embaixada da China no Brasil.

Durante todo o ano de 2019, a posição da China havia sido a de não problematizar o discurso ideológico que vinha desses fragmentos de governo. Contudo, as declarações de Eduardo Bolsonaro e, mais ainda, a forma como o MRE coniventemente lidou com elas, colocaram o Brasil – em defesa da posição estadunidense – no meio da guerra de narrativas que existe entre China e EUA pela culpa do covid-19. Diante disso, a embaixada chinesa se viu na necessidade de rebater pública e amplamente os ataques.

 

Em termos práticos, ainda não é possível mensurar as consequências dessa rusga diplomática. Até o momento dois aspectos foram apontados: o cancelamento de encomendas direcionadas ao Brasil de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), por parte de empresas chinesas, e uma possível revisão da participação do Brasil como fornecedor de soja da China.

Contudo, no que se refere ao primeiro aspecto, o que ocorre é que há uma imensa demanda mundial por equipamentos e insumos utilizados no combate ao covid-19, e os cancelamentos se devem a força econômica e logística que outros países possuem – e o Brasil não – para garantirem as compras.

No que se refere ao segundo ponto, já era esperado para este ano que a trégua na guerra comercial com os EUA levasse a China a retomar compras de soja deste país, o que não significa que o Brasil deixará de ser um dos maiores fornecedores da China, até porque não teria como se substituir um fornecedor do tamanho do Brasil.

Entretanto, não é bom que as relações estejam tão fragilizadas em um período de grandes transformações como o que vivemos, e que pode produzir mudanças que, em tempos normais, seriam muito difíceis de serem processadas. É hora de interromper os tiros.

*Ana Tereza Lopes Marra de Sousa é professora do Bacharelado de Ciências e Humanidades, do Bacharelado de Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, além de vice-coordenadora do Observatório de Política Externa Brasileira (OPEB).

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