O Mundo É uma Bola

A visão sagaz e erudita de Luiz Gonzaga Belluzzo sobre esporte e sociedade

O Mundo É uma Bola

Dudu-Ademir e o Dinheiro

Ao observar os craques de hoje, suas coortes de parças e serviçais, torna-se fácil compreender a grandeza humana de Dudu e Ademir

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Apoie Siga-nos no

Entrei na fila para colher a honra de receber o autógrafo de João Leiva Filho, o Leivinha. A biografia do jogador foi escrita por Luciano Nassar.

Houve quem sugerisse o privilégio de furar a fila. Não sou santo, mas o superego ocupado por meu pai, Dr. Belluzzo, olhou feio. E quando os olhares do magistrado Belluzzo me fulminam, recuo rapidinho.

A fila era longa, os palmeirenses carregavam o livro e tagarelavam, falavam sobre as conquistas do Verdão. Na escada de acesso à platibanda da Livraria Cultura onde ocorria a cerimônia, subitamente despontaram dois símbolos da epopeia palestrina. Vou contornar a palavra “ídolos” por razões compreensíveis: Dudu e Ademir assomaram ao fervilhante espaço de congraçamento verde e branco sem pose e nem protagonismo.

Cumprimentaram a patota. Esperei os cumprimentos e me aproximei da dupla inesquecível. Conversamos sobre o Palmeiras de ontem e de hoje. Estávamos no maior tro-lo-ló quando um torcedor se reaproximou e disparou: “Dudu, se você jogasse bola hoje, estaria cheio da grana”.

Certamente o mesmo valeria para Ademir. Imaginei que o craque meio-campista fosse responder: “Pois é, os tempos eram outros”.

Nada disso. Dudu sapecou, sem titubear: “Se ganhasse essa grana dos caras de hoje, iria perder a concentração no futebol. Meu negócio era jogar bola”.

Ademir riu, meneando a cabeça em sinal de aprovação.

Dudu estreou no Palmeiras no dia 11 abril de 1994 contra o Santos de Pelé. O Verdão perdeu por 2×1. A estreia de Dudu coincidiu com a posse de Castelo Branco na Presidência da República, entronizado pelas forças que deflagraram o golpe civil-militar de 1964.

Talvez seja um excesso de autoestima relatar o que acontecia, no momento do jogo, na Arcadas do Largo de São Francisco. Lá também ocorria um golpe na Sala dos Estudantes. Me senti impedido de ir ao Pacaembu.

Um dos membros da diretoria, antecipando Michel Temer de 2016, convocou a Assembleia do Centro Acadêmico XI de Agosto para propor a destituição do presidente eleito, João Miguel. Os trogloditas do Comando de Caça aos Comunistas lá estavam para intimidar os adversários e recalcitrantes. O pau quebrou. Meu amigo corintiano Itobi foi encurralado pelos fascistas.

Outro amigo corintiano, Luis Sérgio Pedrosa me chamou para ajudá-lo a conter a tigrada. Levei umas porradas e safanões. Pedrosa e eu jogávamos no time do XI nas manhãs de sábado e à tarde, no mesmo sábado, vestíamos a camisa do glorioso Buscapé F C.

Pedrosa era de briga. Quando ele jogava, brigas não faltavam. Eu era da paz, mas aprendi na várzea que o bom jogador não deve ser nem valentão nem cagão. Apanha, mas escolhe a melhor oportunidade para descontar a pancada na canela ou no lombo de quem bateu.

Enquanto eu tentava segurar o brutamontes, Pedrosa acertou o nariz do gajo. Supreendentemente a briga cessou. O fim da pancadaria permitiu que eu tomasse de volta o radinho Spica para ouvir meu Palmeiras jogar contra o Santos. Queria saber do desempenho do novo contratado, Dudu. Até mesmo os trogloditas cochichavam: “Esse cara é louco!”. Nesse caso, eles tinham razão.

Volto ao Dudu, ao futebol e ao dinheiro. Há tempos ele declarou a um portal esportivo:

“Tinha qualidade para atacar e correr bastante. Joguei assim em 1964, no Palmeiras. Mas comecei a sentir que não estava certo. Então, o Djalma Santos, o [Valdemar] Carabina e o Djalma Dias conversaram comigo: ‘Magrinho, você corre muito e nos atrapalha aqui atrás. Deixa o Ademir municiar o ataque. Fica aqui na frente da zaga. Você não precisa fazer gols.’ Entendi o recado. Até porque sempre fui detalhista. Estudava os rivais. Tentava saber como jogavam, por onde driblavam. Mas as coisas só melhoraram com a ajuda dos mais velhos e com a chegada de Filpo Nuñez, que arrumou de vez o time. Ele berrava para mim: ‘Toca la pelota, Duda!’ É pimpampum!’ Não era Dudu, era Duda, mesmo. E eu tocava. Foi quando me aperfeiçoei na marcação e na cobertura e cheguei à Seleção.”

Dudu não menosprezava o dinheiro, apenas tocava a pelota da vida ao utilizar a grana como um meio para o bom desempenho em sua atividade e para uma vida digna e confortável. Intuitivamente, o craque reafirmou em sua declaração o que George Simmel escreveu na Filosofia do Dinheiro:

“A ‘vacuidade’ do dinheiro dispensa qualquer conteúdo que ultrapasse a simples forma de possessão. O dinheiro nos liberta da tirania dos objetos singulares e, ao mesmo tempo, nos tiraniza com sua capacidade de adquirir qualquer objeto. A impessoalidade e a universalidade de seu ser abstrato se colocam a serviço do egoísmo e da diferenciação”.

Ao observar os craques de hoje, suas coortes de parças e estilistas e serviçais, aviões particulares, torna-se mais fácil compreender a grandeza humana de Dudu e Ademir da Guia.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor…

O bolsonarismo perdeu a batalha das urnas, mas não está morto.

Diante de um país tão dividido e arrasado, é preciso centrar esforços em uma reconstrução.

Seu apoio, leitor, será ainda mais fundamental.

Se você valoriza o bom jornalismo, ajude CartaCapital a seguir lutando por um novo Brasil.

Assine a edição semanal da revista;

Ou contribua, com o quanto puder.