Diversidade

Sexismo e etarismo: uma pauta conjunta recorrente na mídia

A cobertura jornalística tem denunciado a discriminação por idade – mas, ao mesmo tempo, segue reproduzindo e reforçando estereótipos etários e de gênero

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
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Por Raquel Baster e Cristina Tadielo

Nos últimos meses, notícias que relacionam a idade a comportamentos femininos foram divulgadas pela imprensa e disseminadas com recorrência pelas redes sociais. Foi o caso do vídeo publicado por três jovens mulheres discriminando uma colega de sala que faz graduação aos 44 anos. “Era para estar aposentada. Gente, 40 anos não pode mais fazer faculdade”, disse uma das estudantes. O material, que inicialmente foi publicado para um grupo restrito no perfil das redes sociais, gerou comoção ao ser compartilhado em outras plataformas. 

A vítima, Patrícia Linhares, é caloura de Biomedicina na Unisagrado, faculdade particular localizada em Bauru, no interior de São Paulo. Nos chama a atenção uma mulher ser, considerada por outras, “velha” para estudar. Tal prática é chamada de etarismo, ou seja, o uso do fator idade para categorizar e dividir as pessoas por atributos que causam danos, desvantagens ou injustiças, e minam a solidariedade intergeracional, segundo a OMS.

Outro ponto que destacamos na cobertura jornalística deste caso é como a mídia, em geral, informa de maneira desconexa. Conceitos são lançados sem o cuidado dos fundamentos, daquilo que, de fato, está sendo tratado. O que importa é o barulho midiático… até que apareça outra situação que sobreponha. Neste ambiente, as interpretações se tornam rasas e até mesmo danosas.

Em janeiro deste ano, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria intitulada “Backstreet Boys atiram cuecas para trintonas em show nostálgico em SP”. A matéria, escrita por um jornalista homem, começa e termina de forma sexista. “Só trintonas” foi parar no título, mas o primeiro parágrafo do texto fala também de quarentonas. A cobertura jornalística segue uma lógica argumentativa que estereotipa e diminui mulheres em função do gênero e da idade. 

Então, por mais que no caso da universitária a enxurrada de matérias produzidas jogue luz sobre a discriminação, o fundamental seria aprofundar a discussão sobre questões que envolvem fatores etários, principalmente em se tratando de mulheres praticando atos discriminatórios entre si. Neste sentido, esvazia-se o cerne da discriminação, reduzindo sua prática a questões individuais, abandonando uma dimensão mais estrutural, trazida pela noção de que a violência tem origem e manutenção no patriarcado. 

A sub-representação, em muitos momentos reforçada pela própria mídia, impõe padrões de juventude que não são aprofundados no debate público. E há um histórico recorrente dessas projeções. Um estudo publicado em 2022 pela OMS analisou algumas situações de preconceito etário que ocorreram entre os anos de 1982-2020 pelos meios de comunicação. O ‘Relatório Mundial sobre Idadismo’ apresentou as representações das pessoas idosas na mídia impressa, nos anúncios e programas de televisão na Europa e na América do Norte. 

A análise revelou que até os anos 1990, as pessoas idosas estavam sub-representadas e/ou eram apresentadas negativamente. Nos anos noventa em diante, embora os idosos continuassem a ser sub-representados, houve uma mudança em seus estereótipos, que deixaram de ser apresentados como ofensivos, doentes, solitários e dependentes, e passaram para um novo estereótipo, o de pessoas ativas, aproveitando a vida e mantendo um estilo de vida saudável. 

Com resultado parecidos, aqui no Brasil, foi produzido em 2018 o “Guia para jornalistas na cobertura do envelhecimento” pela Dínamo Editora com apoio da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, que em seu prefácio destaca que na  “década de 1960 o brasileiro vivia uma média de 54 anos, hoje chegamos sem grandes sustos aos 76 – um salto de 22 anos, em tempo recorde”. A publicação orienta que é papel do jornalismo abordar o novo contexto da longevidade, ressignificando a velhice e estimulando o debate sobre o tema.

Além disso, houve uma tendência implícita em demostrar em algumas coberturas em que boa saúde ao envelhecer é uma questão de escolha, que a responsabilidade é do indivíduo e que as desigualdades no acesso aos recursos no país pouco influenciam. Essa representação positiva do envelhecimento também pode ser considerada uma forma mais sutil de etarismo. Ainda mais em um país onde 900 mil pessoas, entre a idade de Patrícia ou mais, estão sendo alfabetizados pelo programa de Educação para Jovens e Adultos (EJA), ou seja, aprendendo a ler e escrever. Sendo que algumas delas nem chegarão ao ensino superior. 

As violações desencadeadas pelos ‘ismos’

A atriz Livia La Gatto sofreu ameaças após divulgar um vídeo de sátira, ironizando o coach e influencer sobre masculinidade Thiago Schutz que pratica discurso de ódio contra mulheres em seus perfis. Em fevereiro, Thiago mandou uma mensagem dizendo que, se ela não apagasse o vídeo, a questão seria resolvida com “processo ou bala”. O caso foi parar na Justiça de São Paulo que investiga o caso e concedeu medida protetiva para Livia. Por mais absurdo que pareça, a vítima depois de sua denúncia começou a receber comentários ofensivos e não faltaram pronunciamentos duvidosos contra mulheres acima de 30 anos em seu perfil. E sobre esses discursos de ódio quem se responsabiliza?

O agressor chegou a postar na semana da decisão judicial que “a mídia manipula fatos e informações”, que não foi intimado para depor e que continuará seu trabalho “do mesmo jeito”. Ou seja, seu perfil na plataforma segue funcionando e influenciando mais de 35 mil seguidores. As empresas de tecnologia precisam ser responsabilizadas por  compactuar com essas violências de gênero. O etarismo na mídia não vem carregado somente ao lado do sexismo, mas também do racismo e de tantas outras violações de direitos humanos contra mulheres que as redes sociais acabam ampliando.

Na mesma pesquisa realizada pela OMS citada anteriormente também foram analisados dados sobre representação de mulheres nos diálogos de filmes de Hollywood. Do total de duas mil películas investigadas entre os anos 80 e 2020, somente 20% dos diálogos são protagonizados por mulheres entre 42 a 65 anos. E praticamente por pessoas brancas. Na edição do Oscar deste ano, a atriz asiática Michele Yeoh ganhou o prêmio, aos 64 anos, e discursou sobre esse tipo de preconceito: “Mulheres, não deixem ninguém dizer que vocês passaram do prazo”. Ela foi premiada pela atuação em “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”.

Esta cronologia numérica chamada idade, em uma sociedade que valoriza antes de qualquer coisa a marca, a estampa sem se preocupar com o processo evolutivo, passa a ser um peso, principalmente para mulheres que precisam enfrentar obstáculos múltiplos neste processo de inserção social. O avançar da idade, que deveria ser uma celebração, passa a ser um fardo, um defeito, quase que um crime. 

No livro Banzeiro Okotó – Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo, a escritora Eliane Brum lembra que a idade, apesar de estar relacionada com processos biológicos, também é definida socialmente. Uma pessoa é considerada jovem ou idosa com base no contexto, na finalidade e na cultura e cita sua experiência com os povos amazônidas: “a idade medida em números numa linha reta não faz o menor sentido para quem vive na floresta e se move pela estação da seca e pela das chuvas, pelos ciclos de todas as outras gentes, humanas e não humanas, aos quais são intimamente conectados (…). Por que você precisaria saber quantos anos têm se sabe o que sente, o que pode e o que deseja?”. 

Como enfrentar as discriminações

Juridicamente, não existe uma lei que criminalize o etarismo. Neste sentido, assemelha-se, por exemplo, a gordofobia (preconceito contra pessoas gordas). No momento em que a pessoa atingida por essa discriminação passa a ser aquela protegida pelo Estatuto do Idoso, quando completa os 65 anos, tem-se um crime. Nos termos da lei e nas suas diversas interpretações, o caso das estudantes, por exemplo, poderia se inserir em pressupostos dos crimes contra a honra como a Difamação e Injúria (artigos 139 e 140 Código Penal), e ainda o pleito de uma ação civil com pedido de compensação por dano moral.

O Guia Mídia e Direitos Humanos, mesmo tendo sido produzido em 2014 pelo Intervozes, ainda é atual em recomendar que as coberturas jornalísticas “acompanhem a implementação de políticas públicas voltadas à pessoa idosa, amplifiquem as reivindicações dos movimentos sociais, visibilize fontes em diversas faixas etárias, traga à tona as potências criativas, inventivas e de intervenção política e social deste grupo social”. Acrescentamos ainda que é preciso que a mídia não caia no constante erro de colocar no mesmo patamar da universalidade as desigualdades sociais quando for falar sobre idade, gênero e raça. 

Tratar essas pautas como um assunto qualquer é igual a esquecer de que no Brasil as diferenças são muitas vezes predominantes, determinantes, para dizer quem é pobre ou rico, bem como para negativar a imagem de quem se encontra, em sua grande maioria, em situação de vulnerabilidade. Não é o passar dos anos, o envelhecer que faz a vida mais difícil, é o preconceito, a discriminação e a falta de conhecimento. E nisso, a mídia tem um papel central. 

Cristina Tadielo é advogada, educadora, pesquisadora e especializada em Direitos Humanos e Relações Étnico Raciais.

Raquel Baster é jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade Federal da Paraíba e associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação. 

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