Diversidade

Repercussão do Oscar expõe lógica racista e colonial da imprensa brasileira

Erra quem acredita que a resposta é incompetência. O problema é de outra ordem

(Reprodução)
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Título: Jada Pinkett Smith é vítima de humor perverso e Will Smith reage.

“Durante cerimônia de premiação do Oscar, a atriz, dubladora, cantora e empresária Jada Pinkett Smith, que convive com uma doença autoimune chamada alopecia areata, que tem a queda de cabelo como uma das consequências, foi ridicularizada pelo humorista Chris Rock. Ao perceber a violência verbal contra a esposa, num evento transmitido ao vivo para quase todos os países do mundo, Will Smith reagiu com um tapa no rosto do colega. 

Diferentes estudos têm demonstrado que pessoas com alopecia areata possuem maior risco de desenvolver ansiedade, depressão e estresse. Algumas pesquisas já apontam também evidências de impactos emocionais nos familiares mais próximos da pessoa que possui a doença.”

Por que não vimos até aqui, quase dois dias completos após o término da cerimônia do Oscar 2022, um conjunto de matérias na imprensa brasileira que tenham título e abertura semelhantes aos que escrevi acima?

Se, em meio às minhas tarefas cotidianas e com poucas horas de leitura sobre a alopecia areata, eu tive condições de escrever isso, por qual motivo os principais grupos de comunicação privado-comercial do Brasil não conseguem?

Erra quem acredita que a resposta é incompetência. Há excelentes profissionais de comunicação no jornalismo brasileiro. 

O problema é de outra ordem, se situa numa lógica colonialista em que, ainda que sem uma intencionalidade direta dos profissionais envolvidos, reforça estereótipos sobre as pessoas negras. 

E essa lógica se materializa numa cobertura como a discutida aqui porque, como já nos disse o professor Muniz Sodré, o racismo é parte da estrutura institucional dos meios de comunicação, sendo a estigmatização – a partir de uma distinção entre a identidade social que se atribui ao outro e a identidade social real – uma das principais marcas.

No caso em questão, o estereótipo principal é do homem negro que resolve os seus problemas à base da violência física (representado por Will Smith). Mas há também dois estereótipos indiretos e igualmente perversos: o do negro que discrimina os próprios negros (representado por Chris Rock) e o da mulher negra que, como tal, deve ser invisibilizada, silenciada (representada por Jada Pinkett), enquanto os homens “resolvem as coisas”.

Sobre estereótipo do homem violento, não bastou o ato de Will estampar a maior parte do noticiário, conteúdos posteriores buscaram imputar um perfil já agressivo ao vencedor do Oscar de melhor ator.

Uma matéria no portal da revista Quem, publicada no início da tarde de segunda-feira, exibiu o título “Will Smith já deu tapa em repórter durante evento na Rússia. Veja  vídeo”. Porém, quem conferir a própria matéria perceberá que o ator reagiu a uma tentativa de assédio (o repórter, fazendo uma “brincadeira”, tentou beijá-lo enquanto ele concedia entrevista a outros jornalistas).

Já o site da Vogue deu espaço a Maíra Cardi (me perdoem, nem sei que é), que publicou em seu Instagram: “dessa vez bateu por ela. E quando bater nela?”. Ou seja, como homem negro, ele é mesmo violento e a próxima vítima pode ser a própria Jada.

Vale destacar ainda que em nenhuma das matérias consultadas para este artigo uma feminista negra foi ouvida. Djamila Ribeiro, por exemplo, colunista da Folha da S.Paulo, publicou em seu Instagram que “mulheres negras nunca foram vistas como frágeis e são as maiores vítimas de deslegitimação e chacotas”. Com referências a Carla Akotirene, Sueli Carneiro e Lélia Gonzalez, a filósofa e acadêmica brasileira pontua que as mulheres negras são as que mais sofrem com ataques de ódio nas redes sociais. “Na grande maioria das vezes, mulheres negras lidam sozinhas com ataques porque as pessoas, partindo de uma visão racista e sexista (viva Lélia Gonzalez) dizem que elas aguentam, não enxergam humanidade nelas”, escreveu.

A respeito do negro que discrimina os próprios negros, não faltaram matérias relatando casos de piadas públicas, de caráter ofensivo, feitas por Chris Rock tanto a Jada quanto a outras pessoas. 

O portal Splash, do UOL, publicou um retrospecto com o título “Jada não foi a única: veja as piadas polêmicas que Chris coleciona”. Na matéria, há ainda uma afirmação de Rock de que os negros são mais racistas que os brancos. Porém, quem conhece a série Everybody Hates Chris, escrita por Rock sobre eventos e memórias da sua infância enquanto criança negra nos Estados Unidos, sabe bem a qualidade e profundidade da crítica que o artista direciona à branquitude.

E sobre a invisibilização da mulher negra, chega a ser absurdo – que, infelizmente, não surpreende mais – o apagamento de Jada Pinkett Smith em toda a situação. Quando muito, Jada foi reduzida a “mulher de Will Smith” ou a uma mulher que tem alopecia. 

Atriz conhecida desde a década de 1990. Vencedora de nove prêmios – e indicada para outros sete – por atuações no cinema. Cantora, empresária e apresentadora de televisão. Tudo isso, que também diz bastante sobre quem é Jada, parece ser algo irrelevante (ou que ocupa o segundo plano) para a imprensa privado-comercial brasileira.

A ausência de palavras de Jada sobre o fato, ou mesmo de um parágrafo informando que “Jada até aqui não se pronunciou em seus perfis oficias nem deu declaração à imprensa”, como recurso jornalístico válido quando não se tem o depoimento de uma fonte importante, é outro indicador dessa invisibilização.

Num país em que colunistas têm espaço privilegiado na imprensa para dizer que vivemos tempos de “racismo reverso” (sic), a cobertura da mídia privado-comercial sobre a cerimônia do Oscar é um prato cheio para a consolidação de estereótipos e estigmas contra homens negros, mulheres negras e famílias negras.

Paulo Victor Melo

Paulo Victor Melo Jornalista, professor e pesquisador de políticas de comunicação. Integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

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