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Portal Novo Norte e Eduzz são notificados por disseminarem desinformação contra Amazônia

Campanha lançada no Dia da Amazônia busca frear financiamento de sites de notícias com roupagem jornalística, mas que geram desorganização informacional na Amazônia Legal 

Em julho deste ano, o site de notícias Portal Novo Norte, de Tocantins, publicou a notícia “Mamata das ONGs e compra irregular de terras na Amazônia serão alvos de CPI” (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
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Por Raquel Santos, Viviane Tavares e GT de Combate à Desinformação na Amazônia Legal

Na semana em que se comemora o Dia da Amazônia, celebrado no dia 5 de setembro, é notória a ausência do tema nos discursos e debates nacionais, seja nas recentes explanações dos presidenciáveis ou mesmo na cobertura da imprensa sobre temáticas relevantes de uma das maiores reservas naturais do planeta. Essa invisibilidade acaba produzindo um terreno fértil para o fenômeno da desinformação na região da Amazônia Legal. As informações desencontradas em relação à morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, a retomada do caso do reino perdido de Ratanabá e o silenciamento sobre a morte do último indígena isolado da Terra Indígena Tanaru, conhecido como “índio do buraco”, encontrado sem vida no último dia 23 de agosto, são alguns dos exemplos.

Boa parte da população brasileira acredita que a proteção da Amazônia deveria ser pauta importante nessas eleições. Segundo o levantamento do Instituto PoderData, a pedido do Instituto Clima e Sociedade (ICS), seis em cada dez brasileiros que participaram da pesquisa Amazônia e Eleições 2022 afirmaram que um candidato à Presidência da República aumentaria as chances de atrair seu voto se apresentasse um plano específico para a proteção da região. Mas não é o que estamos assistindo ou ouvindo. No debate transmitido no último domingo de agosto, pela rede Bandeirantes, a palavra Amazônia sequer foi mencionada. Não foi estimulada pelas perguntas feitas pelos jornalistas e nem citada de forma espontânea como importante ponto do plano de governo pelos candidatos. 

 O que tem circulado ainda em algumas mídias e redes sociais, como  grupos de Facebook e de mensageria, seja em territórios amazônicos ou outras regiões do país, são ainda vestígios de um discurso feito pelo presidente Jair Bolsonaro na 75ª Assembleia-Geral das Organizações das Nações Unidas (ONU) em 2020, quando afirmou que o Brasil é vítima de “uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal”, que mantém política de tolerância zero para crimes ambientais e ainda culpou organizações da sociedade civil pela disseminação de inverdades, já que foram algumas ONGs que denunciaram o avanço do desmatamento no país. 

Portal distribui desinformação favorável a Bolsonaro

Em julho deste ano, o site de notícias Portal Novo Norte, de Tocantins, publicou a notícia “Mamata das ONGs e compra irregular de terras na Amazônia serão alvos de CPI”. A matéria exalta a fala do senador Plínio Valério (PSDB-AM) a respeito  da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre as ONGs e o desmatamento, que teria o objetivo de investigar supostas irregularidades encontradas na distribuição de recursos do Fundo Amazônia e a suspeita de compras camufladas de terras brasileiras por empresas estrangeiras com interesse no bioma amazônico, a partir da ONGs que atuariam sob pretexto da preservação. Vale lembrar que o senador citado já declarou inúmeras vezes sua posição favorável ao Projeto de Lei 191/2020, que autoriza o garimpo, a agropecuária, a extração de petróleo e gás, além de geração de energia elétrica em terras indígenas na Amazônia Legal.

A questão aqui não é afirmar ou negar que as ONGs estão desmatando ou vendendo terras porque para aferir algo seria necessário estudar o caso de cada uma delas. Essa matéria não apresenta uma notícia falsa em sua análise geral e este é o ponto: não precisa ser fake news para desinformar. Inventar, distorcer ou negar fatos e acontecimentos também são estratégias de desinformação, assim como o deserto de notícias ou a infodemia. Muitas dessas práticas discursivas visam reconstruir a história e alterar o passado para redirecionar o futuro. Outras estão a serviço de interesses econômicos, religiosos ou estritamente políticos e eleitorais. 

O Portal Novo Norte tem sido objeto da pesquisa realizada pelo Intervozes e o GT de Combate à Desinformação na Amazônia Legal, que tem feito o levantamento de páginas e perfis que propagam conteúdo desinformativo na região. O site foi criado em 2019 e recebe em média 1,2 milhão de acessos por mês, segundo dados do SimilarWeb. Funciona como agregador de notícias diversas e distribui seu conteúdo principalmente pelo WhatsApp e pelo Telegram, apesar de também ter atuação no Facebook e Instagram.

Quatro meses após sua criação, o Novo Norte já alcançava audiência superior a seis dígitos. Há indícios de uma rede de compartilhamento de mensagens, já que  o tamanho da audiência nas plataformas de redes sociais não condiz com a quantidade de cliques que o site recebe. Durante a pandemia, o portal se destacou por propagar conteúdos que apoiavam as iniciativas do Governo Federal e o uso de tratamentos alternativos à Covid-19, como a cloroquina, não indicados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em artigo, sobre narrativas que dominaram as redes sociais nas eleições de 2018,  Pablo Ortellado e Márcio Moretto Ribeiro pontuaram que o hiper-partidarismo é entendido como um efeito da polarização da esfera pública e “(…) que tem transformado o debate político numa guerra de informação pouco reflexiva na qual compartilhar matérias noticiosas de baixa qualidade é um expediente socialmente aceito”. Observa-se que o Portal Novo Norte possui características hiper-partidárias porque reproduz, em sua maioria, conteúdos de agências governamentais que favorecem um viés político. A partir do início da campanha eleitoral no mês de agosto, o Portal circulou cada vez mais conteúdos, principalmente pró-Bolsonaro. A descrição de um dos grupos de WhatsApp vinculados ao Portal diz que “Este grupo é focado no compartilhamento de notícias. Somente administradores podem postar para manter o foco e evitar esquerdistas infiltrados”, o que já traduz o espectro político. Há ainda uma forte associação com a desinformação porque nota-se a presença de conteúdos manipulados ou enganosos, sobrepondo conteúdos fabricados. 

Um exemplo atual foi o ocorrido no dia do debate com os candidatos a presidência da TV Bandeirantes. Uma chuva de notícias foram disseminadas nos grupos de mensagerias e nas redes sociais. Em um dos grupos de WhatsApp do Portal foram disparadas 23 notícias na sequência naquela segunda-feira (29), todas pró-Bolsonaro. Nos dias anteriores ao debate, não passavam de dez notícias compartilhadas. 

Entidades se unem em campanha de desmonetização

Um das ações que podem frear a proliferação e o alcance de conteúdos desinformativos é a desmonetização. Por isso, na semana do dia da Amazônia, o Intervozes e o GT de Combate à Desinformação na Amazônia Legal notificaram o Portal Novo Norte e a empresa Eduzz, que é responsável por recolher assinaturas do site e lançaram a campanha #EduzzPareoFinanciamento. A notificação, que se baseia nos próprios termos de uso da empresa de viabilização de assinaturas, alerta que o Portal Novo Norte tem descumprido os termos de uso e propagado desinformação. Além de cobrar a suspensão do serviço, a ação reivindica também a responsabilidade da empresa devido ao apoio à propagação de conteúdos nocivos à democracia, sobretudo em ano eleitoral, e que sejam responsáveis sobre sua cartela de clientes.

A iniciativa #AmazoniaLivreDeFakes, da qual faz parte a campanha #EduzzPareoFinanciamento, tem como objetivo visibilizar, responsabilizar e desmonetizar empresas que viabilizam recursos para sites de notícias que têm disseminado desinformação na Amazônia Legal. Através das articulações do projeto foi construído um Grupo de Trabalho (GT) formado por 10 organizações distintas, oito delas da Amazônia. De março até o momento foi realizada a primeira etapa da pesquisa para identificar páginas e perfis que disseminam conteúdos duvidosos. Todas essas informações foram reunidas em um relatório parcial lançado no Fórum Social Panamazônico, em Belém, e  que estará disponível no site do projeto ainda este mês.

No primeiro levantamento, foram identificados 70 sites/blogs desinformativos, agrupados em veículos jornalísticos, movimentos sociais de direita e perfis de figuras públicas. Após esse perfilamento foram realizados o monitoramento dos grupos jornalísticos com maior audiência/alcance, a investigação sobre suas fontes de financiamento e analisados seus termos de uso. Além do Portal Novo Norte, outras duas páginas foram encontradas com grande alcance na região da Amazônia e serão anunciadas em breve.

*Raquel Santos e Viviane Tavares são associadas do Intervozes e integram o GT de Combate à Desinformação na Amazônia Legal, formado por dez entidades

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