Notícia de que crise climática não chegou no semiárido é fake news

Silêncio sobre a desertificação no Nordeste contrasta com imagens do flagelo da seca e exposição internacional das queimadas na Amazônia

Rio São Francisco chegou a níveis muito baixos e hidrelétricas tiveram de diminuir produção durante a longa estiagem iniciada em 2012. Foto: Lorena Maniçoba/Divulgação

Rio São Francisco chegou a níveis muito baixos e hidrelétricas tiveram de diminuir produção durante a longa estiagem iniciada em 2012. Foto: Lorena Maniçoba/Divulgação

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A região semiárida brasileira possui um território de mais de um milhão de quilômetros quadrados com 1.262 municípios, abriga cerca de 12% da população brasileira e está em um processo de longos anos de desertificação, como é apontado pelo Portal da Desertificação lançado no último dia 18 pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa). Apesar de toda a repercussão da Crise Climática nas últimas semanas, no entanto, essas informações não são suficientes para gerar manchetes de jornais ou reportagens nas principais emissoras do Brasil.

“A gente acredita que o primeiro passo do Portal é dar visibilidade, pois é um tema que não está na grande mídia. A televisão fala apenas de seca, porque é fácil mostrar. Você mostra o sítio seis meses antes, seis meses depois e isso dá boas imagens. O processo de desertificação não é tão simples”, destaca Ricardo Cunha Correia Lima, pesquisador do Insa e coordenador geral do Portal da Desertificação. Ele destaca que a seca é um fenômeno natural e a desertificação é um processo de escala global, caracterizado pela degradação das terras semiáridas, resultante de ações locais, incluindo as variações climáticas e as atividades humanas.

“Uma seca prolongada acelera aspectos da desertificação. Torna a área mais suscetível, mas quem promove a desertificação é o homem”, explica.

O portal apresenta, através de mapas e tabelas, o cruzamento de diversos dados socioeconômicos e ambientais, incluindo os Censos Agropecuários e Demográficos, agrupados em 27 variáveis. A metodologia sistematiza informações que demonstram como as desigualdades sociais na região semiárida, por exemplo, também podem influenciar o processo de desertificação. A ideia dos pesquisadores é atualizar o sistema anualmente ou até mesmo a cada seis meses. Assim como a política ambiental do governo Bolsonaro em relação ao semiárido, a própria construção midiática continua até hoje a invisibilizar ou recorrer a respostas simples, para tentar responder a temas que nem sempre podem ser resumidos nas fotos de queimadas ou da terra seca e de animais mortos à beira da estrada.

É difícil cravar que uma estiagem é fruto da Crise Climática, pois um processo como a desertificação pode durar séculos. No entanto, Ricardo Lima diz que uma seca como a dos últimos sete anos pode sim ter entre suas causas a mudança climática, já que uma das características do processo é justamente aumentar os fenômenos extremos. Poderia ser o aumento das tempestades, furacões, chuvas intensas, mas a seca extrema também pode ser uma das marcas numa região desta nova realidade ambiental.

“Diferentemente das secas que são um fenômeno natural, que quando é muito intensa traz consequências sociais. A desertificação é um longo processo. A gente pode associar o início do processo de desertificação ao início da colonização, que foi feita a partir das fazendas de gado. A colonização se deu de maneira totalmente inapropriada, porque o principal mecanismo era desmatar a caatinga para formação de pasto”, explica o pesquisador.

Para mudar essa realidade, a partir dos anos 90, diversas organizações da sociedade civil se organizaram e começaram a cobrar a implantação de programas sociais que atendessem necessidades básicas para a convivência com o semiárido. Apesar da região ter vivido desde 2012 a pior seca que se tem notícia, pouco ou nada se mostra na grande mídia das mudanças positivas ocorridas por conta (inclusive) de projetos de convivência com o semiárido como o Programa 1 Milhão de Cisternas, capitaneado pela Articulação Semiárido Brasileiro. Programas sociais como o bolsa-família e a aposentadoria rural, além de projetos como o de construção de de tecnologias para armazenamento de água, fizeram com que na seca dos últimos 7 anos a migração fosse praticamente nula e também não houvessem saques.

Ou seja, só existe visibilidade quando há seca flagelada, em uma exposição imagética da desgraça e da morte alcança visibilidade. O imaginário sobre o Semiárido brasileiro está muito ligado à força da mídia brasileira, que contribuiu para a expansão de uma estética da miséria, através de suas narrativas sobre as secas, estereotipando suas populações e paisagens, vinculando à região um cenário de flagelo, ligado à fome, êxodo rural, carros pipas, morte. Este olhar estigmatizado foi um fenômeno que atravessou décadas e ainda interfere na visão do senso comum sobre a região, resultando na formação de estereótipos que frequentemente negam o potencial ambiental, social, cultural e humano dos territórios. Isso vale para a Amazônia também.

O que a superfície midiática esconde

Para muitos, apesar do sucesso de Bacurau e Boi Neon no cinema, ficções que tratam a região com a devida complexidade, a discussão sobre as mudanças climáticas no Brasil pouco parece estar conectada ao Nordeste.Uma velha forma de fazer política e produzir notícias está estampada de forma acentuada no discurso do presidente Jair Bolsonaro. Nesta semana, marcada no mundo pela Crise Climática, o presidente usou a tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas para dizer que a preocupação com a Amazônia faz parte de um discurso “ideológico”. Pouco antes, o Instituto Nacional do Semiárido colocou na internet em imagens e palavras uma brutal explicação sobre como a desertificação tem atingido parte do Nordeste. No entanto, os órgãos de imprensa do Governo Federal ainda não deram a divulgação necessária para o projeto.

Essa situação se estende na produção de informações sobre Semiárido pela maioria dos veículos privados de comunicação que também estão concentrados nas mãos de poucas famílias que detêm poder extremo. E isso não é privilégio apenas do Semiárido, mas reflexo de um contexto nacional. O Brasil apresenta os piores indicadores para a pluralidade na mídia entre 12 países em desenvolvimento analisados pelo Monitor de Propriedade de Mídia (MOM, na sigla em inglês), uma iniciativa dos Repórteres Sem Fronteiras (RSF) com coordenação do Coletivo Intervozes. Outro dado mostrou que 80% das empresas de comunicação têm sede no Sul e Sudeste, 73% delas na região metropolitana de São Paulo. Não é coincidência que, até hoje, o sotaque sulista domine o telejornalismo, até mesmo nos estados do Norte e Nordeste. Um símbolo de como a elite dominante deseja impor seu modo de enxergar o país, e estigmatizar estereótipos nas imagens construídas sobre a região.

Escutar Bolsonaro e navegar no portal da desertificação é ter ainda mais certeza que é preciso expandir com nossas particularidades o discurso gringo do #PrayForAmazonas. Ou ainda mais difícil, enfrentar primeiro os robôs e humanos que fizeram aqui o destaque durante um dos dias de maior debate sobre os incêndios no Twitter ser #MacronLies (em inglês!). Evidentemente, dizer que precisamos estar atentos ao semiárido nordestino não significa diminuirmos a atenção para os incêndios e a devastação da Amazônia. Hoje, essas questões estão intrinsecamente ligadas. Não adianta usarmos a hashtag ambiental do dia, se não pararmos para entender o que está acontecendo em cada um dos cinco biomas brasileiros.

A Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) vem ensinando desde o fim dos anos 90 que precisamos reaprender a conviver com o clima na região. Através da agroecologia, diversas organizações têm utilizado a educação para propagar técnicas como as dos sistemas agroflorestais. No Nordeste, uma agrofloresta chega a ter resultados de produção melhores do que os da agricultura envenenada, na Amazônia o modelo também pode ser viável. Ou melhor, os indígenas que convivem com o território a milhares de anos são os melhores professores para quem quer entender como a região pode ser ambiental e economicamente viável!

As grandes empresas e os políticos sabem que a Crise Climática mundial é real. Porém, muitos dos que estão morando na beira do mar das nossas grandes capitais ainda não se tocaram que o risco é grande também para quem tem como patrimônio um apartamento à beira-mar. Mas certamente quem está sendo afetado mais gravemente na atualidade são as populações rurais, as comunidades pobres, no interior do Brasil, para quem a mudança no clima chegou como seca, tempestade ou alagamento antes de sabermos quem é Greta Thunberg. A ambientalista, de 16 anos, que discursou na Cúpula do Clima e foi vítima nesta semana das Fake News de Eduardo Bolsonaro.

 

Informação é poder. E contextualização dessas informações é fundamental para a construção de ações que possam de fato colaborar para o enfrentamento de problemas como a Crise Climática. As informações produzidas pelos meios de comunicação, assim como o direito de informar e ser informado fazem parte do arcabouço do direito à comunicação, agregando a ela o valor dos direitos humanos. E assim se expressa o direito de o sujeito dos territórios amazônico ou semiárido participarem dos processos de comunicação, reafirmando enquanto direito fundamental, fazendo parte da moral e da ética das sociedades, ainda que enfrentando tensões e contradições. Somente assim haverá uma contribuição para ruptura de estereótipos que maculam a imagem desses territórios e suas populações.

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