Nem modelo de casa e família únicos, nem armário

O modelo único de família reforçado pela mídia tradicional é ameaça à comunidade LGBT. Mas pandemia coloca imagem em xeque

Foto: Caroline Lima

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Intervozes,Sociedade

Por Tiago Coutinho e Camila Nobrega*

Quase como uma aspirina, dessas aplicadas aos montes em postos médicos, quando não há outras opções, o primeiro antídoto contra a pandemia do coronavírus foi “fique em casa”. Exemplos de como driblar a quarentena pipocaram na mídia, algumas famílias até foram convidadas a contar sobre como estavam “aproveitando o momento”. Essas imagens, no entanto, apegam-se a famílias majoritariamente brancas, classe média ou alta, heterossexuais, compostas de homem, mulher, filhos. A composição da população brasileira, no entanto, é outra. 

Casa e família, nessa narrativa, confundem-se como espaço inequívoco de proteção. O tão aclamado fique em casa, porém, nem sempre funciona. Seja por não haver teto, ou, muitas vezes, ser na família onde mora o perigo. Para completar, o conservadorismo pega carona na ideia única de núcleo de proteção familiar e tenta avançar, silenciando outros tipos de organização de comunidades, redes de proteção e até mesmo outras conformações de famílias. Mesmo em meio à ausência de dados significativos que deem conta da população LGBT no país, porém, existência não se apaga, nem se joga para lugar algum. Melhor parar de tentar.

No texto LGBTS e o direito à moradia, o antropólogo Gustavo Belisário apresenta que “40% dos jovens moradores de rua nos Estados Unidos são LGBTs”. O pesquisador considera que a realidade brasileira não deve ser muito distinta, pois “o direito à moradia de LGBTs é fortemente afetado no Brasil por conta de expulsões e abandonos do lar das famílias de origem”. A violência familiar, de acordo com Gustavo, atravessa a população LGBT em sua diversidade de raças, classes e gêneros. Não há o percentual de LGBTs afetados pela COVID-19, mas a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) alertou que preconceitos e violências cotidianos contra LGBTI+ tendem a aumentar e aponta o “silêncio da mídia e da sociedade brasileira” como “uma evidência de sua persistente invisibilidade social”.

Durante a pandemia, o coletivo #VOTELGBT mostra que a população LGBT apresenta índices de desemprego e problemas de saúde mental acima do restante da população brasileira. Lidar com a saúde mental no contexto de isolamento aparece como a maior preocupação entre as 10 mil LGBT+ consultadas para a pesquisa. Os dados completos serão divulgados neste domingo (28), dia do orgulho LGBTQI+. A pesquisa diz que a maior dificuldade enfrentada pelos entrevistados é o convívio familiar. Em segundo lugar, a adequação às novas regras de convívio social.

Aquele difícil papo de família

A feminista e pesquisadora nigeriana Oyèrónké Oyěwùmí, no artigo “Conceituando Gênero” lembra que a noção de família nuclear, “centrada em uma mulher subordinada, um marido patriarcal, e as filhas e os filhos”, é resultado da colonização europeia. Trata-se de uma concepção heterossexual que traz em sua formação a distinção de gênero, além de reduzir, muitas vezes, a mulher à esposa, que “como um caracol, carrega a casa em torno de si mesma”.

Esse modelo de família traz inúmeros prejuízos. Uma criança LGBT, por exemplo, criada em um ambiente pré-dividido com determinadas características masculinas e femininas e com uma única imagem legitimada de relação heterossexual, tem seus desejos e afetos negados e não compreendidos cotidianamente. Seus sentimentos são recusados por aquela que deveria ser seu porto seguro: a família. O elo familiar, nesse caso, tende a se fragilizar e provoca formas de solidão dentro de casas cheias. Parcerias e sentidos de casa são apagados por não corresponderem às expectativas do padrão único. Se não há representação midiática que acompanhe as existências em sua diversidade real, a falta de sentido de pertencimento pode se agravar.

A disputa narrativa está em curso em vários países. Em um debate online sobre perspectivas feministas acerca das consequências da pandemia no final de junho, a feminista e panafricanista Olive Uwamariya, de Ruanda, ressaltou as desigualdades agravadas nos últimos meses, dentro e fora das casas. E chamou atenção para o fato de que, por um lado, grupos religiosos estão aproveitando o momento para pegar carona e disseminar ideias conservadoras, por outro, governos negam o tamanho dos problemas que acontecem nos ambientes domésticos, bem como a responsabilidade no enfrentamento dos mesmos: “Alguns governos não querem incluir as questões de violência contra mulheres, crianças e outros grupos vulnerabilizados nos pacotes de políticas públicas no contexto da pandemia. Precisamos apontar isso internacionalmente.” E foi complementada pela socióloga costa-riquenha Montserrat Sagot: “A noção de família fica em xeque, a partir de algumas evidências, entre elas o crescimento da violência doméstica”.

Ainda assim, os impactos do avanço do novo coronavírus e da situação prolongada de isolamento social vão muito além de situações de violência no sentido stricto senso, ou pelo menos como definida na lei. E eles começam na camada do discurso.

Para Amanda Padilha, fazer crítica à LGBTfobia sem problematizar a família deixa a questão na superficialidade. É necessário fazer um debate sistêmico. Em entrevista à Agência Pública, a travesti ativista lembra que “a família convencional não é um padrão de família à toa”. A família, no molde convencional, constitui o capitalismo como uma de suas condições básicas e “se baseia justamente num trabalho doméstico não pago, não remunerado, que reduz o valor da força de trabalho”. 

Essa unidade familiar padronizada é também produtora e reprodutora de casos de machismo e LGBTfobia, que só aumentaram neste período. No primeiros 15 dias de isolamento social, o Rio de Janeiro, por exemplo, registrou um aumento de 50% de casos de violência doméstica. Um boletim divulgado pela Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra) aponta, mesmo na pandemia, o aumento de assassinato de pessoas trans. Afinal, a família é segura para quem?

 

A distinção binária de gênero pauta políticas públicas. Países como Peru, Panamá e Colômbia, por exemplo, adotaram os “rodízios de gênero”. Homens e mulheres não podiam sair à rua no mesmo dia. A medida, contestada pelos movimentos LGBTQI+, mostra-se insegura para a população trans e para aqueles e aquelas que não se identificam como nenhum dos gêneros. 

No atual desgoverno do Brasil, a família é tão importante que se criou o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Ao longo da pandemia, a pasta, que poderia traçar políticas de abrigo para a população LGBTQI+, lançou duas cartilhas: uma voltada para o público LGBT e outra ensinando “como aproveitar o isolamento para fortalecer os vínculos familiares”. Enquanto na última aparecem os rostos apenas brancos dos familiares; na LGBT, as personagens desaparecem e apenas uma figura masculina branca está lá. A cartilha dos vínculos familiares é assinada pelo Ministério e pela Secretaria Nacional da Família. No material LGBT, a assinatura da Secretaria desaparece. Além disso, os demais materiais do mesmo ministério para a população LGBT têm como foco a saúde sexual, restringindo absolutamente e violentamente a abordagem.

Redes, comunidades, afetos

O termo comunidade, ao se tratar da população LGBTQI+, ganha um peso ainda mais significativo. Seja na convivência em espaços públicos ou em moradias coletivas construídas por LGBTQI+, o sentimento de estar entre as nossas é fundamental para a sobrevivência e segurança. A comunidade é exatamente um meio de garantir a sensação de pertencimento e, simultaneamente, visibilidade. Afinal quantas reportagens você vê na televisão, no jornal, nas rádios, que trazem personagens LGBTs sem que o assunto central seja o fato de elas serem LGBTs? Em geral, a visibilidade é mantida dentro de caixas e datas comemorativas – opa, não à toa você está lendo este texto hoje. 

Por termos uma mídia concentrada nas mãos de poucas famílias [https://www.cartacapital.com.br/sociedade/cinco-familias-controlam-50-dos-principais-veiculos-de-midia-do-pais-indica-relatorio/], apaga-se a diversidade das realidades existentes. Há uma violação do direito à liberdade de expressão e de comunicação, na medida em que a população LGBT é alienada de narrar a si própria, especialmente no contexto da pandemia e dessa formação de discursos universalizantes e totalitários. Tentam varrer a potência e a complexidade dos assuntos para debaixo do tapete, mas já não há mais armários suficientes, nem desejo de permanecer neles.

Mesmo na pandemia, redes de apoio se formam. O grupo Arco Íris, por exemplo, criou “um espaço de escuta, acolhimento e apoio emocional para os momentos de solidão, angústia e medo das LGBTIs em tempos de isolamento social”. Campanhas de arrecadação têm sido feitas para abrigos e iniciativas de acolhimento LGBT+. No campo da mídia, a campanha #VOTELGBT lançou as plataformas LGBTFLIX e Juntas em Tempos de Treta. A primeira é uma galeria de filmes brasileiros de temática LGBT+ dirigido pelas LGBTs. Atualmente, possui 230 filmes que podem ser assistidos pelo celular. A segunda compartilha textos de autoras e autores LGBT+, “uma forma de fazer circular bons afetos durante a quarentena”.

Outro canal muito importante são as Brejeiras “movimento cooperativo de e para lésbicas” que por meio de uma revista, busca “trocar experiências e salivas, ampliar imaginários e contatinhos, ocupar línguas e linguagens, revisitar os becos da memória, enfrentar apagamentos, construir resistências e dar visibilidade às lutas lésbicas”. A revista, por meio de suas redes sociais, tem mantido uma importante programação para a quarentena. Esses são exemplos de algumas experiências que correm por fora da mídia hegemônica. Assim, fora das caixas, vamos construindo afetos, redes, comunidades. Seguimos sobrevivendo e transbordando existência e, evidentemente, fazendo cair da parede o quadro pseudo perfeito da família tradicional brasileira. 

Tiago Coutinho é professor e doutor em Memória Social pela Unirio. Camila Nobrega é jornalista e doutoranda em Ciência Política na Universidade Livre de Berlim. Ambos são integrantes do Intervozes.

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