Mídia negra: discursos e ações em permanente luta contra o racismo

Falta de representatividade na mídia, além da ausência de negros na linha de frente de definições editoriais, motiva a criação de coletivos

Desfile da Mangueira no Carnaval 2019 (Foto: Wikimedia)

Desfile da Mangueira no Carnaval 2019 (Foto: Wikimedia)

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Por Alex Hercog*

Em fevereiro de 2019, corpos negros coloridos de verde e rosa desfilaram na Sapucaí cantando a história que a História não conta. O samba-enredo da Mangueira, “História para ninar gente grande”, composto por Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino, denunciava os versos apagados pelos livros e o “sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado”.

No Brasil, o racismo estrutural sempre garantiu aos brancos o controle dos espaços de poder: na política, na economia, na produção intelectual, na mídia. Isso explica a ausência de heróis e heroínas negros e negras emoldurados, da continuação do sangue retinto sendo pisado em cada favela e das histórias que não entraram para a História. Por esta razão, o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, se faz tão presente na construção e no resgate de histórias e memórias silenciadas.

A reprodução racista da mídia sempre contribuiu para a manutenção das estruturas existentes até hoje. De acordo com Alan El Youssef, que pesquisou a relação da imprensa com o tráfico escravista (YOUSSEF, Alain El. Imprensa e Escravidão – político e tráfico negreiro no Império do Brasil, Rio de Janeiro, 1822-1850, Intermeios, 2016), houve um apoio explícito à continuidade do mesmo, resultando em mais 15 anos dessa prática após o decreto de 1836, que extinguia a transação de pessoas escravizadas.

Segundo a pesquisa, a narrativa construída pela imprensa estava em sintonia com o que defendiam os grupos conservadores do parlamento imperial.

“Oferece-se uma creola de bons costumes para ama de casa de homem solteiro ou de pouca família”, anunciavam os classificados do Diário de Pernambuco em 1842. Anúncios do tipo eram habituais na imprensa brasileira do século XIX, controlada por políticos e empresários brancos.

Eu quero um Brasil que não está nos retratos

“Não basta ser negro, é preciso fazer uma cobertura antirracista.” Essa é a afirmação de Pedro Borges, co-fundador e editor-chefe do Alma Preta, agência de jornalismo especializada na temática racial. A falta de representatividade na mídia, além da ausência de negros na definição das linhas editoriais dos principais veículos, motivaram a criação do coletivo.

De acordo com Pedro, em entrevista para este Blog do Intervozes, essa exclusão reflete a invisibilidade de temas que afetam a população negra. “Quantos veículos apresentaram o recorte racial durante a cobertura da Reforma da Previdência, por exemplo? Denúncia de casos de discriminação ou recortes raciais, se a gente não faz, não existe”, afirma Pedro. (Mais informações sobre silenciamentos na cobertura da Reforma podem ser encontradas na publicação recente do Intervozes: “Vozes Silenciadas – Reforma da Previdência e Mídia”).

Essa limitação não se encontra apenas nas redações dos jornais, mas também no processo de formação acadêmica dos futuros jornalistas, como destaca Alane Reis. Uma das fundadoras da Revista Afirmativa (https://revistaafirmativa.com.) Alane conta que a ideia de criar a revista surgiu dentro da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

“Eu e meus colegas cotistas da universidade sentíamos um incômodo com a impossibilidade de escrita sobre a questão racial dentro do próprio curso”, relata Alane. O coletivo de mídia negra surgiu em 2014, com o slogan “somos nós, falando de nós, para todo mundo”, e com o objetivo de produzir conteúdo abordando a questão racial de forma transversal.

Com razões semelhantes, surgiu o Correio Nagô em 2008 – um dos veículos pioneiros de mídia negra. O portal é um dos projetos do Instituto de Mídia Étnica, fundado três anos antes.

“Decidimos não ficar restritos apenas a criticar a mídia hegemônica, mas que deveríamos ter a nossa própria mídia”, conta André Santana, um dos fundadores. Ele destaca a existência de uma gama de intelectuais negros e negras, capazes de analisar qualquer assunto de interesse geral, porém muitas vezes invisibilizados.

Além das denúncias ao racismo, as mídias negras, portanto, garantiram espaços para publicação de conteúdos e busca de fontes de pessoas negras para tratar de temas diversos. Além da visibilidade dos corpos, esses coletivos vêm colaborando com a construção de outras narrativas que são excluídas pela mídia hegemônica.

Não veio do céu, nem das mãos de Isabel

Diversas análises e opiniões apontam para um avanço da representatividade de negros e negras na mídia, considerando as últimas décadas. Essa ampliação é percebida, sobretudo, na publicidade.

Um estudo feito pela agência publicitária Heads, em parceria com a ONU Mulheres, aponta para o crescimento de 4% para 25% de protagonistas negras nos comerciais entre 2015 e 2018. Já para os homens, o resultado é de 13%.

A pesquisa aponta que, apesar desse crescimento, os estereótipos dos negros e negras na publicidade ainda se mantém. Isso se repete também no entretenimento.

No campo do jornalismo, André Santana acredita haver uma evolução, com os meios de comunicação produzindo mais conteúdos que dialogam com a população negra, apesar da continuidade dos programas policialescos que tendem a criminalizar os corpos negros. André critica, porém, a ausência de debates na mídia sobre as políticas públicas estruturais que incidem, inclusive, no racismo. “Eu fico com vontade de perguntar a esses apresentadores que diariamente noticiam o aumento da violência, inclusive contra policiais, a quem interessa manter esse modelo de segurança pública? Não há nenhum espaço na mídia hegemônica para debater essa questão”, comenta André.

A ocupação dos negros na mídia não foi resultado de concessões gratuitas. A crescente representatividade na publicidade coincide com o aumento da renda e acesso a crédito experimentados pela população mais pobre nas duas últimas décadas. Isso torna compreensível o desejo das agências publicitárias em alcançar novos mercados, apostando na representatividade.

O jornalismo também se viu influenciado pela crescente produção de mídia negra e da pressão em torno de pautas raciais protagonizadas pelos movimentos negros. Pedro Borges comenta que muitos veículos têm buscado se aproximar dos coletivos de mídia negra. Ele cita parcerias do Alma Preta com grupos como Yahoo, UOL e The Intercept Brasil, mas reforça que a mídia tradicional ainda exclui pautas ligadas à população negra.

A liberdade é um dragão no mar de Aracati

“Ninguém mais vai calar o grito pela Liberdade.” Com esse título, cerca de 30 entidades lançaram o “Manifesto da Mídia Negra Brasileira”, após um encontro realizado em outubro desse ano, organizado pelo Fórum Permanente de Igualdade Racial.

O movimento busca articular diversos coletivos de mídia negra no País para realizar ações conjuntas pela garantia do direito à comunicação e produção de narrativas que enfrentem a lógica racista e sexista da mídia hegemônica.

Mas a própria estrutura midiática é um desafio para a existência desses grupos. As articulações em rede e a compressão da mídia negra enquanto um movimento mais amplo tem sido uma opção para as iniciativas espalhadas em todo o Brasil. Alane Reis destaca, no entanto, que ainda há dificuldade para os grupos se inserirem nas disputas realizadas pelo direito à comunicação, sobretudo em relação à formulação de leis, políticas públicas e acesso a verbas de publicidade estatal.

Ainda assim, as mídias negras são realidades e têm ajudado a alavancar os movimentos negros e pautar o racismo no debate público.

O debate racial tem crescido na mídia, os corpos negros estão cada vez mais visíveis e a população negra reafirmando seu interesse em ser protagonista de suas próprias histórias. “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”, como bem diz o mesmo samba da Mangueira, que anunciou história na avenida.

*Alex Hercog é membro do Intervozes

 

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