Maior manifestação indígena pós-Constituinte tem pouco destaque na mídia

Seis mil indígenas de 170 etnias acampados em Brasília manifestam-se contra o marco temporal

Foto: Webert da Cruz

Foto: Webert da Cruz

Intervozes

No domingo 22, milhares de indígenas, oriundos de todas as regiões do Brasil, começaram a chegar na capital federal para formar o Acampamento Luta pela Vida. A ocupação de Brasília tem como principal bandeira de luta a derrubada da tese do marco temporal, em discussão no STF. Segundo esta tese, os indígenas só teriam direito às terras de que fossem donatários na data de promulgação da Constituição Federal de 1988. O argumento beneficia ruralistas e grileiros e, se aprovado, acelera o genocídio dos povos originários, abrindo as porteiras para a devastação ambiental. O julgamento foi iniciado no dia 26, quinta-feira, e deverá ser retomado nesta quarta, 1º de setembro. Desde a segunda-feira 23, milhares de indígenas seguem ocupando a Esplanada dos Ministérios no que já é a maior manifestação indígena pós-redemocratização. 

Apesar da importância do fato, a cobertura da mídia comercial demorou a deslanchar. Nos jornais impressos, o evento só ganhou status de notícia após pelo menos três dias de acampamento, que gerou engajamento de milhares de pessoas e o compartilhamento de fotos e vídeos nas redes sociais.

Na comunicação pública, o assunto foi ainda mais relegado. Na Agência Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação, os primeiros sete dias de acampamento e protestos renderam apenas três notícias (nos dias 24, 25 e 26 de setembro). Não localizamos nenhum conteúdo sobre o movimento no noticiário Repórter Brasil, da TV Brasil, a partir de busca com as palavras-chave “indígenas”, “STF” e “acampamento”.

Na edição impressa da Folha de S. Paulo, a primeira notícia foi publicada na terça-feira 24. Ocupando um pequeno espaço e na forma de foto-notícia, o jornal afirmou: “Milhares de indígenas de diversas etnias e todas as regiões do país participam do acampamento Terra Livre, em Brasília, nesta segunda-feira, em protestos por mais direitos”, sem fornecer mais detalhes. A Folha voltou a pautar o assunto no dia seguinte, 25, em editorial intitulado “Demarcação em xeque: STF tem desafio de fixar entendimento sobre direito de povos indígenas a terras”. A opinião do diário do Grupo Frias – num esforço argumentativo de propor um caminho do meio entre os interesses ruralistas e dos indígenas – é resumida no trecho final: “o desafio será evitar que se consolidem injustiças cometidas contra etnias que tiveram terras tomadas, sem deixar de atentar para garantias aos proprietários de boa-fé”.

Na quinta 26, a Folha não voltou a tratar especificamente da manifestação contra o marco temporal, mas publicou entrevista com Nick Estes, professor e líder do movimento de povos nativos dos EUA. O entrevistado apontou semelhança nas lutas em seu território e no Brasil. Na sexta 27, o jornal relatou a participação de artistas no acampamento e trouxe aspas de duas lideranças indígenas e de um advogado da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), em contraposição a declarações de Bolsonaro no Twitter.

Conforme observado em análise dos veículos impressos de 22 a 29 de agosto, a sexta 27 iria marcar um aumento na visibilidade das manifestações com a queima simbólica de um caixão em frente ao STF. No dia seguinte, a Folha trouxe na capa foto do protesto, única vez que o tema ocupou esse destaque no recorte feito para esta análise. A matéria destacava o papel dos indígenas na preservação ambiental com a chamada “Terras indígenas respondem apenas a 1,6% do desmatamento no país em 36 anos”. Na sessão Painel dos Leitores, uma carta reclamava do pouco destaque dado ao tema pelo veículo.

Na edição de domingo 29, fechando a semana, a Folha não voltou a pautar a manifestação, apesar de trazer vários conteúdos sobre a agenda climática e sobre sustentabilidade, como na reportagem “Brasil não se classifica em programa de mercado de carbono do Banco Mundial”. Tiveram espaço também diversos anúncios publicitários, em folha inteira, como os do Banco Safra (com o mote “qual impacto seus investimentos causam no mundo?”) e da Ambipar, empresa de gestão ambiental (“não existe planeta B, cuide do planeta A”). A edição trazia ainda entrevista de página inteira com diretor da Marfrig, e a manchete: “O agronegócio é injustiçado por uma minoria que desmata”.

 

 

O Estado de S. Paulo deu ainda menos importância à pauta que seu concorrente. Nas sete edições analisadas, citou o tema em duas foto-notícias do acampamento, que identificavam o marco temporal como o motivo das manifestações.

O jornal O Globo só foi noticiar a manifestação indígena no dia 25, terceiro dia de acampamento. O texto factual ocupou menos da metade da página, anunciando o provável adiamento da decisão da Corte e o apoio de artistas à causa indígena. Na sexta (26), o veículo publicou entrevista com o líder indígena Ailton Krenak, que se posiciona contra o marco temporal. No dia 27, o tema voltou a ser pauta em reportagem que trouxe citações do presidente e do ministro Edson Fachin, mas sem nenhuma fala de indígenas ou lideranças do acampamento. No sábado (28), a exemplo do restante da mídia, o destaque ficou para o ato simbólico de queima de um caixão: “Indígenas queimam caixão gigante contra marco temporal”. Novamente, o jornal repercutiu falas de Bolsonaro retiradas da rede social do presidente e trechos do voto de Fachin. Nenhum acampado foi entrevistado. Durante a semana de 22 a 29 de agosto, o tema não ocupou a capa do jornal nenhuma vez.

Desinformação e sensacionalismo

Os televisivos SBT Brasil e Jornal Nacional noticiaram o assunto pela primeira vez na terça-feira, dia 24. O Jornal Nacional, da Rede Globo, veiculou nota coberta de cerca de 20 segundos, factual, sem aprofundar o tema. O SBT optou por uma chamada sensacionalista digna dos chamados “caça-cliques”: enquanto o âncora anunciava a reportagem, o letreiro exibia: “7 set? Protesto? O que é o acampamento na Esplanada”. A desinformação de que o protesto seria um preparativo para as manifestações pró-Bolsonaro convocadas para o dia 7 de setembro circulou em Whatsapp e foi desmentida por manifestantes no Twitter. O noticiário aproveitou a onda do boato para atrair e confundir a audiência. Na matéria, o repórter circula no acampamento e só então cita os motivos da manifestação. Na sequência, é corrigido ao vivo por uma liderança ao se referir à chegada dos colonizadores portugueses em 1500 como “descobrimento” do Brasil. Agnaldo Pataxó enfatizou: “o genocídio começou em 1500, nós não fomos descobertos”. Somente quando a transmissão retornou ao estúdio, o âncora esclareceu aos telespectadores que a manifestação não tinha ligação com os atos convocados para 7 de setembro pelo presidente Jair Bolsonaro e arrematou: “Brasília cumpre seu papel, de receber todos as pessoas, de diversas partes do país que queiram protestar pacificamente”. No sistema de busca do site do SBT Brasil, só foram localizadas as duas reportagens sobre o tema a partir das palavras-chave “indígenas” e “STF” durante o período recortado.

Na quinta, 26, o Jornal Nacional voltou ao assunto de maneira mais detida, numa cobertura que durou aproximadamente 3 minutos e 40 segundos de um total de cerca de 50 minutos do noticiário. O caso em julgamento no STF foi apresentado com trechos da fala do relator, aos quais foram acrescentadas entrevistas com um procurador e uma liderança da Apib. Na sexta, o noticiário apresentou nota coberta rápida (de 30 segundos), com destaque para o ato de queima simbólica do caixão. No sábado, o tema sumiu da pauta tanto no JN quanto no SBT Brasil.

No Jornal da Record, veiculado pela RecordTV, do bispo Edir Macedo, as manifestações só foram assunto na sexta-feira, 27, quinto dia de acampamento. Em reportagem de um minuto, o noticiário narrou o ato de queima do caixão e disse que os manifestantes protestavam contra “a grilagem, o governo Bolsonaro e o garimpo”. Merece destaque a opinião do jornalista Augusto Nunes, veiculada em seguida. O comentarista repudiou de maneira veemente o que chamou de “espasmo de selvageria protagonizado por grupelho de indígenas”. No comentário, que durou mais que a reportagem factual, disse que os indígenas “berraram” e “festejaram as chamas” enquanto lançavam uma “tempestade de ofensas” contra o presidente e o Palácio do Planalto. Ressaltou que o Exército se limitou a fazer uma barreira para proteger o patrimônio nacional. No sábado, o noticiário também não voltou a tocar no tema.

 

Foto: Webert da Cruz

A mídia e o agro

Algumas causas para a falta de abertura da mídia comercial à pauta indígena são a concentração e o conflito de interesses. Segundo dados do Monitoramento da Propriedade da Mídia (Media Ownership Monitor – MOM), pesquisa realizada pelo Intervozes e pela Repórteres Sem Fronteiras e publicada no final de 2017, o sistema de mídia brasileiro tem alta concentração de audiência e alta concentração geográfica, falta de transparência, além de interferências políticas, religiosas e econômicas. Entre as relações no campo da economia, um dos destaques é para o fato de que parte dos proprietários dos meios de comunicação de maior alcance no país possuem negócios no setor agropecuário.

A Folha de S.Paulo, por exemplo, jornal impresso de maior tiragem no país, teve origem na Folha da Manhã S.A., empresa fundada em 1931 com uma linha editorial voltada para os “lavradores de São Paulo”, os proprietários de terras, principalmente os cafeicultores.

Essas relações se mantiveram ao longo do tempo. De um lado, há aqueles que são ao mesmo tempo proprietários de terras e de veículos de comunicação. De outro lado, há os que não apenas detêm os dois tipos de propriedade, como investem na produção de conteúdo voltado ao agronegócio; como a campanha Agro – A indústria riqueza do Brasil, inclusa na grade de programação da TV Globo e veiculada em horário nobre. A família Marinho, além do conglomerado midiático, é dona também de fazendas e empresas de produção agrícola, como as fazendas Bananal Agropecuária, Guara Agropecuária e Mangaba Cultivo de Coco. Aliás, a empresa Globo é integrante da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

Mídia indígena

Enquanto, nos impressos e na TV, a narrativa do noticiário foi marcada por ausência de diversidade e pouco aprofundamento da pauta, nas redes sociais, a hashtag #MarcoTemporalNao mobilizou e engajou milhares de pessoas, a partir da circulação de vídeos, fotos, artigos e de transmissões ao vivo diretamente do Acampamento Luta pela Vida. Segundo levantamento da analista de redes Carina Pensa (@cajupensa) perfis ambientalistas, ONGs, mídia alternativa, políticos da esquerda e influenciadores divulgaram amplamente conteúdos contra o marco temporal. A analista destacou, no entanto, que o protagonismo do movimento, tanto on-line quanto off-line, ficou por conta das lideranças indígenas. Perfis como o da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Mídia Índia e de personalidades como Sônia Guajajara e Alice Pataxó puxaram as mobilizações nas redes, produzindo e difundindo conteúdo e se contrapondo aos perfis de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro que insistiam nas já conhecidas práticas de difusão de ódio e boatos.

Apesar do sucesso da mobilização, como já tratamos aqui neste blog, e ainda que seja cada vez mais uma realidade a apropriação das tecnologias pelos povos indígenas, o caminho para chegarmos a uma comunicação intercultural, num contexto de concentração e hegemonia midiática, ainda é longo e um pouco distante de se efetivar – tanto nas mídias tradicionais quanto na internet.

Em carta publicada na sexta-feira 27, a Apib reforçou a posição contrária ao marco temporal e destacou a continuação das manifestações pelo movimento permanente chamado “Primavera Indígena”. De 7 a 11 de setembro, será realizada a 2ª marcha das mulheres indígenas, a primeira mobilização da nova agenda. A ver se as mídias comercial e pública, pressionadas pelas redes sociais e pela comunicação popular, farão cumprir seu papel, dando visibilidade à agenda de lutas e discutindo com profundidade temas tão cruciais para o nosso país.

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Jornalista, mestra em Comunicação pela UFF e coordenadora executiva do Intervozes.

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