Gigantes da comunicação ameaçam monopólio da Globo no futebol

DAZN e EI concorrem com a brasileira que segue concentrando as exibições esportivas

Gigantes da comunicação ameaçam monopólio da Globo no futebol

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Desde o início do ano, quem acompanha de perto seu clube do coração viu o mercado do futebol na mídia ganhar novos ânimos. Isso se deve à iniciativa de dois grupos de comunicação americanos que passaram a investir na exibição de futebol no Brasil, criando concorrência para a Globo na transmissão de alguns campeonatos.

Em 2017, o Esporte Interativo, canal de esportes da americana Turner, quebra o monopólio de anos da Globo em TV fechada para a transmissão dos jogos do Campeonato Brasileiro de 2019. A negociação se deu com sete times da série A (Palmeiras, Santos, Internacional, Atlético-PR, Fortaleza, Ceará e Bahia), além de outros seis clubes da série B, por valores bem superiores ao oferecido pelo Sportv, da Globo. Além do campeonato nacional, o EI transmite em rede fechada e na internet a “Champions League”, o maior campeonato continental do mundo, que também é exibido pelo Facebook.

O negócio ganhou novos contornos no ano passado quando a Time Warner, grupo que controla a Turner, dona do EI, foi vendida à gigante americana AT&T. Alvo de polêmicas no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), o contrato fere a Lei 12.485/11, que proíbe que empresas de telecomunicações (como a AT&T) tenham mais de 30% da participação em emissoras de conteúdo audiovisual. A AT&T, que é dona da SKY no Brasil, passa a controlar a Time Warner que, além de proprietária da Turner, possui na TV fechada os canais HBO e Warner Bros.

A venda da Time Warner tem como efeito o desmonte do Esporte Interativo, que cumpre o contrato das transmissões do campeonato nacional através de outro canal de propriedade da americana: o TNT.

A negociação dos clubes com outra empresa para as transmissões foi possível pois os contratos regulados pela CBF são feitos de forma separada para a TV aberta, fechada e Pay per view. No entanto, ao fazer contrato com a concorrente norte americana, os clubes tiveram problemas para renovar suas transmissões na TV aberta e Pay per view. Isto porque a Globo havia aplicado um redutor no valor das luvas desses clubes “desertores”. O caso poderia deixar diversas partidas do campeonato sem transmissão, já que as emissoras só podem exibir jogos de duas equipes que possuem acordo.

A resposta da emissora brasileira provocou um grande conflito com os clubes, que pressionaram por contratos mais justos. Após diversas reuniões, o Palmeiras, um dos últimos resistentes, aceitou a proposta da Globo de chegar em R$ 100 milhões de luvas e retirar a multa referente ao contrato com o EI, fechando um acordo de transmissão de seis anos para TV aberta e Pay per view. De acordo com nota oficial do grupo Globo, o contrato segue o modelo oferecido aos outros clubes, onde “do total da cota de TV, 40% serão divididos igualmente entre os 20 participantes, 30% serão destinados à premiação para os 16 primeiros colocados e 30% serão distribuídos pelo volume de jogos exibidos na TV aberta”. O único clube que ainda negocia seus direitos de transmissão com a Globo é o Athlético, que pede R$ 60 milhões de luvas.

Em 2019, em meio às disputas midiáticas pelo campeonato nacional, a DAZN, de propriedade da “Access Industries”, chega ao Brasil com um novo tipo de transmissão esportiva, via “streaming”, comprando os direitos de exibição dos jogos da Copa Sul-americana, Série A (campeonato italiano) e Ligue 1 (campeonato francês), além de outros esportes. Apesar de ser vendido como novidade, esse tipo de serviço de transmissão via internet já se encontra razoavelmente estabelecido mundialmente, a exemplo da Netflix ou Spotify, no entanto no futebol as experiências são bem recentes.

Diversos clubes importantes disputam o torneio sul americano neste ano – como o Corinthians, que possui a segunda maior torcida e audiência da Globo – não tendo exibição da emissora da família Marinho. A DAZN disponibiliza seu conteúdo via internet e o torcedor poderá então acompanhar as transmissões ao vivo pelo Facebook ou Youtube. A empresa de streaming, além de contar com espaço nas plataformas digitais, lançou um aplicativo próprio, que será a base de sua renda, com todo o conteúdo disponível dos campeonatos por pouco menos de R$ 40 reais mensais.

A possibilidade de escolha entre jogos é uma grata surpresa aos fanáticos pelo esporte no Brasil, já que há décadas a Globo monopoliza os direitos televisivos dos campeonatos que envolvem clubes brasileiros. No entanto, as ações pontuais de grupos internacionais no futebol brasileiro não são novidade, nada tendo alterado a estrutura da concentração da mídia, a exemplo da Fox Sports, que conquistou em 2011 o direito de transmissão da Copa Libertadores da América.

Será que o ano de 2019 reserva novidades relevantes no mercado de transmissões esportivas? A concorrência entre rede Globo e grupos internacionais representa o fim do monopólio da família Marinho no futebol e uma democratização das transmissões? São perguntas que suscitam debates profundos fora das quatro linhas.

Neste sentido, preocupados com os rumos do futebol e da comunicação, e acreditando no potencial de ambos enquanto instrumentos fortalecedores da cidadania e da democracia, buscamos entender como o novo cenário de concentração da comunicação, com novos players globais que atuam em rede, sobretudo na internet, pode influenciar os destinos do esporte.

A transmissão de futebol e a concentração da mídia no Brasil

O futebol se tornou no Brasil e no mundo um dos mais lucrativos negócios da indústria cultural, sobretudo para a mídia, que ganha cifras gigantescas em publicidade durante as transmissões, contando inserção visual, “merchandising” e comercial. Para se ter uma ideia, em 2018, ano de Copa do Mundo, a rede Globo faturou 2,4 bilhões de reais em cotas publicitárias só com o futebol. Isso é mais do que a Record ganhou de publicidade no ano.

Monopolizada pela emissora, a transmissão de futebol no Brasil expõe uma situação de concentração da mídia, que mescla favores políticos a interesses privados, além de relações econômicas entre conglomerados de comunicação e instituições internacionais. Aqui mesmo mostramos as denúncias de que o grupo Globo teria pagado propina para adquirir direitos de transmissão de futebol na América Latina, caso investigado nos Estados Unidos, conhecido como “Fifagate”.

Há trinta anos a Globo vence a concorrência e detém os direitos televisivos do campeonato brasileiro e dos jogos da seleção brasileira, onde firmou acordo com a CBF de transmissão exclusiva até 2022, em TV aberta, fechada e pay-per-view. Da mesma forma, permanece intacta há décadas a sua concessão pública de operação na radiodifusão, mesmo diante de violações de códigos brasileiros antimonopólio, que são fruto de investigações no Cade.

A lacuna de uma regulação que impeça monopólios na mídia brasileira possibilitou à Globo o controle da propriedade cruzada dos meios de comunicação: o grupo é dono da principal rede da TV aberta, de mais de 30 canais na TV paga (incluindo os canais SporTV e Pay Per View), de duas das principais redes de rádio nacionais, jornais, revistas e dezenas de outros veículos, como mostra o Monitoramento da Propriedade da Mídia.

Este levantamento dos proprietários dos meios de comunicação no Brasil, realizado pelo Intervozes em conjunto com a Repórteres Sem Fronteiras, chamado projeto MOM Brasil traz outra questão importante para pensarmos a relação da mídia com o futebol. Há uma concentração geográfica dos meios de comunicação, sendo que mais de 60% dos 50 maiores veículos do Brasil estão localizados na Região Metropolitana de São Paulo, além de 12% no Rio de Janeiro, 10% em Porto Alegre e 6% em Belo Horizonte.

A concentração da mídia nos grandes centros, junto com a difusão irrestrita do conteúdo produzido pelas cabeças de rede para as afiliadas, tem um efeito catastrófico no futebol regional, inviabilizando financeiramente os clubes do interior. O maior tempo de exposição, até na mídia regional, faz com que os clubes das capitais do sudeste e sul, além de receberem as maiores cotas televisivas, consigam maiores receitas de patrocínio e renda. Pior para os clubes do interior e de fora destas regiões, que se veem cada vez mais enfraquecidos em um modelo que amplia as desigualdades.

 O modelo de arenas e franquias e a democratização do futebol e da comunicação

Torcedores e usuários de internet têm diversos pontos para refletir sobre os caminhos do futebol e da rede no Brasil, através desta situação de ofensiva de grandes empresas de comunicação nas transmissões de campeonatos. Além do modelo de transmissão impactar diretamente no acesso dos torcedores, há outros motivos para se preocupar com o rumo do esporte, que vive a experiência do modelo de arenas “padrão FIFA”. Igualmente importantes, diversos debates são feitos sobre a internet, que passa por pressões de implantação de franquias e o fim da conexão ilimitada.

Para os desavisados em futebol, mas preocupados com a internet, o tal modelo “arena” se deve à adoção de alguns clubes à construção ou reforma de seus estádios segundo um formato arquitetônico e administrativo de “arena multiuso” – comportando nos estádios eventos culturais, musicais, esportivos e executivos. Tal modelo ficou conhecido como “padrão FIFA”, regulamentando os megaeventos esportivos.

Em conjunto com a implantação das arenas multiuso há uma reformulação administrativa nos clubes de futebol que promove novos impulsos nos programas de sócio-torcedor, visando um aumento de público nos estádios e arrecadação de renda. A parceria, em muitos clubes, entre diretorias e sócios-torcedores fecha através de acordos milionários com empresas patrocinadoras e publicitárias, muitas multinacionais, além de construtoras e seguradoras.

Já para aqueles preocupados com o futebol, muitos usuários de internet, mas que não estão por dentro dos assuntos de comunicação, a implantação de franquias na internet se deve a uma proposta das empresas de telecomunicações que visa acabar com a conexão ilimitada de dados na internet, defendida pela neutralidade de rede e protegida pelo Marco Civil da Internet.

A neutralidade da rede está no tráfego isonômico de dados que circulam pela internet, sem distinção de pacotes de serviços que colocam barreiras aos dados que não estão dentro da franquia. Este modelo é oposto ao da TV por assinatura, que distingue o acesso de acordo com combos de canais. Defensores deste princípio, o Intervozes e diversas outras entidades que lutam pelos direitos na internet, em boa parte organizadas na Coalizão dos Direitos na Rede, garantem que a neutralidade é condição para a internet livre. As teles, por outro lado, insistem que não adotar o modelo de franquias acaba por aumentar o preço da banda larga fixa para todos.

As aproximações entre o modelo de arena no futebol, a neutralidade de rede e as franquias na internet estão justamente no fato de que ambos excluem os mais pobres, comprometendo o acesso universal à comunicação e ao esporte, que fazem parte da cultura do povo brasileiro. Através de discursos de técnicos e marqueteiros, os clubes e as empresas de telecomunicações vendem aos usuários modelos que ampliam a rentabilidade financeira própria às custas do aumento da desigualdade social.

No esporte, o modelo de arenas aumenta o público médio através de programas que privilegiam pagadores – clientes, e não torcedores – de acordo com diferentes preços, que chegam a 300 reais mensais. Além do programa de sócios, o ticket médio das partidas tem uma alta significativa, ambos os fatos provocando uma elitização dos estádios. Ao mesmo tempo, torcidas organizadas e movimentos sociais são criminalizados, bem como são maltratados os estádios públicos, alvos de interesses privados.

Na comunicação, o fim da internet livre e ilimitada compromete totalmente o seu acesso universalizado, por exemplo através de pontos de wifi públicos, além de discriminar a internet segundo o poder financeiro dos usuários. A narrativa de haver usuários que sobrecarregam a rede “heavy users” justifica a ampliação das desigualdades na internet e compromete o acesso de diversas pessoas, sobretudo nas periferias, privilegiando interesses de um punhado de agentes econômicos.

A vinda de competidores internacionais, a nível das gigantes americanas como AT&T e Time Warner, que monopolizam a comunicação em seus países, ainda que insuficiente para quebrar o monopólio da rede Globo no Brasil, não se mostra como solução. Pelo contrário, o exemplo no futebol mostra que, para assistir os jogos do clube do coração, agora o torcedor deve contratar assinaturas na TV fechada e na internet, de modo separado, aumentando os gastos para garantir o acesso aos jogos. Pior ainda é o fato deste modelo absurdamente restrito de competição ser aplicado na internet, fato que ampliará a fragmentação social para ser garantida a rentabilidade financeira das empresas.

Exemplos como estes só podem ser combatidos juridicamente através da organização de ações e ideias que pensem a democratização do futebol, da comunicação, e valorizem a cultura popular. A gestão do futebol e da mídia deve respeitar as estratificações sociais e trabalhar para o fim da elitização do futebol e do acesso à internet.

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