Enquanto a Amazônia arde, governo e mídia ignoram discussão sobre a política climática

Semana do Clima em Salvador é agenda pouco visível e desvinculada da política federal

Fotos: Agência Brasil

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*Por Lizely Borges e Iara Moura, com colaboração de Ramênia Vieira

Na semana em que os incêndios de grandes proporções atingiram cinco estados da Amazônia, com visibilidade ampliada pelos posicionamentos públicos de lideranças e organismos internacionais e cobertura pela imprensa de fora, a agenda de diálogo direto com uma das causas centrais dos incêndios – o clima – foi silenciada e pouco abordada pelos veículos de comunicação. Quando apareceu, a questão do clima foi tratada de maneira desconectada dos papéis dos entes administrativos federais e dos impactos na vida dos povos e comunidades tradicionais que ocupam as regiões afetadas pela variação climática e grandes incêndios.

Não apenas a visibilidade midiática da Semana Latino-Americana e Caribenha sobre Mudança do Clima, realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Salvador (BA), entre os dias 19 a 23 de agosto, foi inferior à altura da importância da agenda, como também os enquadramentos das notícias demonstram um cenário preocupante sobre o papel dos meios de comunicação em evocar as responsabilidades dos diferentes sujeitos sociais na preservação da Amazônia e de seus povos.

Durante o período do evento, de 19 a 23, o Intervozes monitorou os jornais O Globo, a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo em suas edições impressas e online em busca das palavras chave “Semana do Clima”. Aberto ao público, o evento reuniu representantes de 26 países e contou com a participação de cerca de 5000 pessoas, entre poder público, organizações, universidades e público em geral.

Nenhuma citação ao evento apareceu como pauta central ou secundária no Estadão na edição impressa ou no portal do veículo. No G1, a menção à semana apareceu nos primeiro e segundo dia do evento (“Semana do Clima começa em Salvador com discussões sobre aquecimento global” e “Segundo dia da Semana do Clima tem debates sobre financiamento climático em Salvador”) com foco na programação. No dia 21, a cobertura do veículo destaca a vaia proferida pelos participantes contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles e, na sexta-feira, enfoca o encontro entre prefeitos da América Latina e Caribe que marcou o encerramento da Semana.

Embora o G1 tenha conferido alguma visibilidade ao evento, em especial pelo trabalho da sucursal na Bahia, as matérias se restringiram à polêmica em torno dos anúncios feitos por Salles do cancelamento da Semana seguido da decisão posterior de manter o Brasil como sede.

Além disso, enfocam a pressão de municípios brasileiros, organizados em torno da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP), para que o país sediasse a agenda – mesmo com a desistência do governo brasileiro em realizar no país a Conferência do Clima (COP 25), então transferida para o Chile.

Como fontes citadas aparecem apenas o próprio Ministro em declaração no qual anuncia visita ao Mato Grosso para acompanhar as queimadas e uma entrevista do diretor sênior de Política e Programa de Mudanças Climáticas da ONU, Martin Frick. É de Frick a única sinalização de vínculo entre a pauta do clima e as queimadas em entrevista ping pong. Na edição impressa d’ O Globo, a única menção à Semana é numa notícia sobre as queimadas que cita a vaia que o ministro recebeu.  

Na Folha de São Paulo, a cobertura da Semana do Clima foi pauta de três reportagens: “Salvador recebe conferência climática sem representantes do governo federal”, “Salles é recebido com vaia em evento do clima, muda agenda e vai para Amazônia” e “Estados e prefeituras querem cumprir metas de Acordo de Paris independentemente da posição de Bolsonaro”. 

Comparativamente aos demais veículos monitorados, a cobertura da FSP possui mais vieses e elementos de resgate da conturbada realização da agenda, provavelmente pelo fato de que uma repórter do veículo esteve presente na agenda a convite do Instituto Clima e Sociedade (ICS). 

A matéria posiciona que a agenda se insere em contexto de crescente preocupação mundial com o tema, cita a recusa de Salles em receber informações sobre a Semana do Clima, aponta que as metas estabelecidas em 2015 pelo Acordo de Paris são insuficientes para conter a grave problemática do aquecimento global, resgata as ameaças do presidente Jair Bolsonaro para deixar o Acordo e papel do Brasil na ECO92 e relata esforços de prefeitos para a realização do evento.

Queimadas da Amazônia vistas do espaço. (Foto: Reprodução/Twitter/NASA Worldview)

As matérias também apresentam maior diversidade de vozes retratadas – não apenas Salles ou Frick são rapidamente citados. As notícias trazem falas do secretário de sustentabilidade de Salvador, André Moreira Fraga, a coordenadora-geral de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia, Ana Luiz Champloni, o governador do Espírito Santo Renato Casagrande e o ex-coordenador do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Alfredo Sirkis.

Embora traga mais elementos, as ausências informativas da cobertura da Folha de São Paulo corroboram a linha dos demais veículos monitorados e suas funções sociais no trato de tema de alta relevância. Novamente as matérias não questionam o Governo Bolsonaro sobre a não apresentação de um programa para enfrentamento ao aquecimento global e não reconhecem os povos e comunidades afetadas diretamente pela crise climática como fontes legítimas para opinar sobre as realidades que vivenciam. 

Nos dois veículos, contraditoriamente ao peso predominante de fontes do poder público nas matérias monitoradas, a responsabilidade do Estado brasileiro é pouco evocada. Diante do anúncio da cancelamento das presenças de Salles e do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, nos debates previstos na programação da Semana e a saída brusca do ministro no segundo dia do evento, os veículos optaram apenas para descrever os episódios. A ausência do governo brasileiro – dos seus alto comandos e não dos técnicos, como noticiado – na agenda pré-Conferência Internacional do Clima e a presença evasiva de Salles diz intensamente sobre a política ambiental adotada pelo país. 

Caberia aos veículos conectar estas ausências com elementos como os sucessivos cortes orçamentários na fiscalização ambiental e prevenção de incêndios (na ordem de 20%), o esvaziamento das funções do Ministério do Meio Ambiente pela reestruturação administrativa pelo governo Bolsonaro – inclusive com ida da pauta sobre mudanças climáticas para pasta da Economia – entre outros, o destruidor incêndio na Amazônia em curso neste momento.

Vozes silenciadas

No impresso do grupo Globo, por exemplo, mesmo nas matérias que tratam das queimadas, não há espaço para os povos e comunidades tradicionais da Amazônia. Na semana de realização do evento – período no qual as queimadas na Amazônia atingiram seu ápice, nenhum indígena, quilombola, ribeirinho ou mesmo ONG foi ouvido nas edições online e impressa do jornal. As matérias privilegiaram as fontes oficiais e se resumiram a ecoar as declarações e contrapontos entre o apresentado por institutos de pesquisa e o governo Bolsonaro, além de repercutir falas dos governadores responsabilizando o chefe do Executivo.

Além destes, são ouvidos como fontes ainda agropecuaristas como Blairo Maggi (grande produtor de soja, ex ministro, ganhador do motossera de ouro pelo Greenpeace) e Marcelo Britto (Associação Brasileira do Agronegócio), sem nenhum contraponto às suas falas.

Nas páginas de opinião os articulistas d’O Globo enfatizam os riscos do desastre ambiental para a exportação de commodities. O impacto sobre a biodiversidade é quase que um mal menor comparado ao impacto negativo que pode vir a ter no setor agropecuário com a possibilidade de sanções internacionais à produção brasileira. Tanto as matérias quanto nos editoriais, com exceção de uma menção ao Acordo de Paris, não se reverenciam em tratados e acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Sem a conexão entre a adoção pelo governo de uma política de desmonte da agenda ambiental e seus perversos efeitos para os povos e comunidades tradicionais da Amazônia – invisíveis nas matérias monitoradas – as reportagens d’O Globo e Folha De São Paulo, oferecem uma contemplação superficial do debate – sem a revelação das causas e consequências dos fatos e são marcadas pela despolitização das responsabilidades do Estado, da sociedade e da própria mídia no que concerne à questão ambiental. 

*Lizely Borges, Iara Moura e Ramênia Vieira são integrantes do Intervozes

 

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