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Discurso de ódio contra nordestinos. O que está por vir em 2022?

Não devemos subestimar o poder da máquina de produção de desinformação e discurso de ódio, que certamente exibirá a sua artilharia nas eleições

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“É sempre esse Nordeste atrapalhando tudo, cambada de mongoloides”

“Hoje a gente teve a prova de que não podemos generalizar falando que o brasileiro é burro, porque o correto é O NORDESTINO É BURRO”

“Nordestino é burro, que morram de sede e fome”.

“Jair Bolsonaro, se ganhar corta a água (que já é pouca) e corta o bolsa família do Nordeste, corta essa p**** do mapa e deixa ser um lugar independente pro comunismo ficar lá, pelo amor de Deus”

“Arrasada. Envergonhada. Inconformada. O Nordeste merece mesmo se lascar”

Todas essas mensagens, de autorias diferentes, foram publicadas num mesmo dia em redes sociais: 7 de outubro de 2018, logo após a primeira apuração apontar que a eleição presidencial daquele ano seria resolvida em segundo turno, visto que Jair Bolsonaro, primeiro colocado geral nas pesquisas, não vencia em nenhum dos nove estados da região Nordeste.

Um levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV revelou que, em menos de 48 horas (entre 19h do dia 7 e 10h de 09) foram registradas 1,76 milhão de mensagens – apenas no Twitter – relacionando Nordeste e eleições, com um pico de menções à população nordestina entre 19h15 e 19h30 do dia 7, com média de 4,5 mil tuítes por minuto.

Outro importante estudo, realizado pela organização Safernet Brasil, evidenciou que, não por coincidência, houve um aumento significativo das denúncias de discurso de ódio na internet entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais daquele ano, saltando os casos de xenofobia de 338 (16 de agosto a 7 de outubro) para 8.009 (8 a 28 de outubro).

Não bastasse a gravidade das mensagens em si, inúmeros posicionamentos do atual presidente da República e medidas do seu governo ajudam a legitimar discursos como os que abrem este texto, em narrativas/ações caracterizadas por mesclar dois componentes: a xenofobia e o ódio contra pobres. Em artigo publicado neste blog, a Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político, articulação que reúne movimentos, entidades, fóruns e redes e atua para mudar a forma como o sistema político brasileiro está organizado institucionalmente, destacou que a trajetória discursiva de Bolsonaro traz graves prejuízos à democracia.

Além das palavras

Um primeiro indicador neste sentido são as próprias falas de Bolsonaro contra nordestinos. Em artigo publicado em outubro de 2019, um ano após a eleição, a jornalista Luisa Fragão reuniu um conjunto dessas manifestações do presidente, que incluíram, por exemplo, chamar os governadores da região de “paraíbas”, afirmar que “a única coisa boa do Maranhão é o presídio de Pedrinhas” e dizer que é vantajoso comprar carro na Bahia “porque já vem com o freio de mão puxado”.

Mas, é fundamental ressaltar isto, o ódio de Bolsonaro contra a população nordestina não se limita a palavras absurdas. É prática corrente do seu Governo, orientação política expressa, fragilizar a região Nordeste em termos socioeconômicos, como denunciado em uma reportagem do The Intercept.

Como não relacionar, por exemplo, estas ideias sobre o Nordeste e os nordestinos com o fato de que, ainda no primeiro ano de governo Bolsonaro, a Caixa Econômica Federal reduziu em 22% os empréstimos para a região?

Como não relacionar, por exemplo, estas ideias sobre o Nordeste e os nordestinos com o descaso do Governo Federal em relação ao derramamento de petróleo que atingiu povos e comunidades tradicionais – marisqueiras, pescadores artesanais, quilombolas, etc. – dos nove estados da região e segue, dois anos depois, sem qualquer responsabilização?

Como não relacionar, por exemplo, estas ideias sobre o Nordeste e os nordestinos com a intenção do Governo Federal em transpor o Cadastro Único (que permite acesso ao Bolsa Família) para o digital, sabendo que apenas 33% das pessoas das classes D e E já usaram computador de mesa, notebook ou tablet ao menos uma vez na vida?

Como não relacionar, por exemplo, estas ideias sobre o Nordeste e os nordestinos com a opção adotada pelo Governo Federal em conceder o auxílio emergencial via solicitação por aplicativo digital, sabendo que – como demonstrado em um levantamento da Rede de Pesquisa Solidária – mais de 7 milhões de brasileiras e brasileiros (em sua maioria, nordestinos) elegíveis para receber o benefício viviam em domicílios sem acesso à internet?

Tecnopopulismo, desinformação e discurso de ódio

Ao analisar as estratégias discursivas e políticas de Bolsonaro e do bolsonarismo contra o Nordeste e os nordestinos, uma tática de comunicação política fica expressa: o deslocamento da política para o ambiente online, a partir de uma presença digital cada vez mais ativa e o uso estratégico das novas ferramentas para engajar o maior número de indivíduos às suas causas e ideias.

Com discursos extremistas, da criação de um inimigo comum ao fortalecimento da imagem do “Mito”, do “patriota”, daquele que representa a “vontade popular”, Bolsonaro pratica uma nova acepção do populismo – o tecnopopulismo – que, com recursos cada vez mais tecnológicos, baseado em monitoramento de dados, segmentação de mensagens para grupos específicos e comportamentos inautênticos (robôs, disparos, contas falsas), conquista apoio e ataca desafetos

No caso do Nordeste e dos nordestinos, é possível perceber que os discursos de ódio estão sempre relacionados a uma condição de inferioridade e de pobreza, uma xenofobia próxima aos discursos e ações tecnopopulistas praticados por outros lideres da extrema direita contra os imigrantes, como foram os casos de Donald Trump, nos EUA, e Matteo Salvini, ex-vice primeiro-ministro da Itália. É, portanto, o tecnopopulismo uma estratégia internacional de líderes da extrema direita na qual Bolsonaro reza na cartilha.

As investigações que estão sendo conduzidas no âmbito da CPMI das Fake News e no Supremo Tribunal Federal revelam que o contexto tecnopopulista perdura pós eleição de 2018 já como estratégia de governo. 

Uma análise realizada pela empresa AP/Exata, no Twitter, com os chamados perfis de interferência – que são ativistas ou pessoas contratadas –, mostrou que a atuação de perfis falsos e robôs na rede social de Jair Bolsonaro, mesmo depois do processo eleitoral, permaneceu significativa. De acordo com a amostragem, ainda há pelo menos 2.078 robôs, perfis falsos e militantes mencionando Jair Bolsonaro. 

O que estamos falando, portanto, é de uma lógica de ação política contínua e que deverá estar presente nas eleições de 2022, com uma nuance a mais: o seu principal concorrente ao próximo pleito é uma liderança política que não só é nordestino, como explora essa característica e o apoio que tem na região.

Eleição é logo ali

Esse é o cenário: três anos depois da eleição que conduziu Bolsonaro ao comando do Executivo Federal, o Brasil caminha para mais um processo eleitoral à presidência da República. 

É um outro cenário, com ensaios golpistas quase que diários por parte do atual presidente, que agoniza nos cada vez mais baixos índices de popularidade. É um outro cenário, com um nordestino – agora elegível, diferente de 2018 – ocupando a liderança de todas as pesquisas. 

Neste novo cenário, de intentos golpistas e com um nordestino largando na frente da disputa, não devemos subestimar o poder da máquina de produção de desinformação e discurso de ódio, que certamente exibirá a sua artilharia contra o povo que, parafraseando o cantor Flávio José, “não quer virar suco” e “quer a rédea do seu destino”. É hora de estar atento e forte agora, denunciando todas as manifestações de ódio, expondo os que nos odeiam e afirmando que discurso de ódio não tem nada a ver com liberdade de expressão.

Ana Carolina Westrup

Ana Carolina Westrup Mestre em Comunicação e doutoranda em sociologia pela Universidade Federal de Sergipe.

Paulo Victor Melo

Paulo Victor Melo Jornalista, professor e pesquisador de políticas de comunicação. Integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

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