Como anda a relação da grande mídia com Jair Bolsonaro?

Band, Record e SBT não embarcaram em campanha contra medidas de isolamento, mas isso não significa que abandonaram o presidente

Bolsonaro na feira (Foto: Reprodução/TV)

Bolsonaro na feira (Foto: Reprodução/TV)

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*Por Bia Barbosa, Gyssele Mendes, Iara Moura, Olívia Bandeira e Paulo Victor Melo


Ao que tudo indica, a campanha “O Brasil não pode parar”, lançada pelo governo federal na última quinta-feira 26 e suspensa pela Justiça Federal do Rio de Janeiro no sábado 28, não teve adesão entre as mídias aliadas do presidente Jair Bolsonaro. O monitoramento realizado pelo Intervozes nos dias 28 e 29 de março das emissoras Band, Record e SBT mostra que a notícia da suspensão da campanha foi a única repercussão sobre o tema. Nem as carreatas convocadas por apoiadores do presidente entraram na cobertura.

Nos programas jornalísticos das três emissoras, praticamente todo o conteúdo foi destinado a reportagens sobre o novo coronavírus. De modo geral, as matérias abordaram o panorama internacional da doença, com foco nos números de mortos e infectados, os impactos na economia e na vida das famílias durante o isolamento social, os relatos de brasileiros no exterior, golpes virtuais, notícias falsas e ações voluntárias em periferias e de apoio à população em situação de rua.

Campanha não pegou

No Jornal da Band, exibido no sábado 28, o destaque foi a coletiva do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, concedida naquela tarde. “Existe necessidade de arbitrar em um determinado tempo qual é o grau de retenção que uma sociedade deve fazer. O lockdown, que é a parada absoluta e total, pode vir a ser necessária em algum momento, em alguma cidade. O que não existe é um lockdown, um fechamento de todo o território nacional ao mesmo tempo, desarticulado. Isso é um desastre que vai causar muito problema para nós da saúde. Então, agora, nós vamos ter que junto com governadores, a quem eu faço aqui um apelo, não façam atitudes intempestivas de entrar com ações e entrar em uma fábrica de máscaras e pegar todas as máscaras para si. Agora é preciso coordenar a ação nacional”, afirmou o ministro, numa tentativa de equilibrar o discurso do governo federal com as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Na sequência, o jornal noticiou a decisão da juíza federal Laura Bastos Carvalho, que proibiu o governo de publicar qualquer campanha publicitária que sugira à população “comportamentos que não estejam estritamente embasados em diretrizes técnicas emitidas pelo Ministério da Saúde, com fundamento em documentos públicos, de entidades científicas de notório reconhecimento no campo da epidemiologia e da saúde pública”. 

Nos intervalos, uma propaganda da própria emissora dizia que os cuidados nas próximas duas semanas seriam vitais, pedia aos telespectadores que evitassem eventos e que não compartilhassem notícias falsas. Em outro momento, os jornalistas convidam os espectadores para assistir ao programa Band Esporte e dizem: “uma programação pra você que faz muito bem de ficar em casa nesta semana”.

No mesmo dia, o Jornal do SBT tratou da proibição da campanha “O Brasil não pode parar” logo na abertura. Mostrou um trecho curto de um dos vídeos, apresentou a decisão da Justiça e a resposta do governo: “após apagar os vídeos das redes sociais, o governo declarou que a campanha nunca existiu”, leu o âncora Carlos Nascimento.

Nos intervalos, uma campanha do próprio canal com o objetivo de dar orientações sobre cuidados com coronavírus era exibida. Em um dos vídeos, o apresentador Carlos Nascimento aconselha que as pessoas se recolham em casa e evitem o contato social como forma de se proteger e proteger o próximo. Em outro comercial, apresentadores do canal aplaudem os profissionais da saúde. O slogan da campanha é: “Eu, você e o SBT do Bem no combate ao novo coronavírus”.

Na emissora do Bispo Edir Macedo, a edição de sábado 28 do Jornal da Record veiculou dois trechos da coletiva do ministro reforçando o isolamento social. “Todo mundo pode fazer o seu filho, ou o seu pai ou o seu tio ou seu amigo mais rebelde, entender que tem que lavar as mãos, entender que nós temos que ficar um pouco em casa, pra gente poder organizar o sistema”.

Logo após a apresentação dos números atualizados sobre a crise sanitária no Brasil, colocou-se outro trecho da coletiva: “mais uma razão pra gente ficar em casa, parado, até que a gente consiga colocar os equipamentos na mão dos profissionais que precisam, porque se a gente sair andando todo mundo de vez vai faltar pro rico, pro pobre, pro dono da empresa, pro dono do botequim. Nós precisamos ter racionalidade e não nos mover por impulso nesse momento”.

Vale registrar que o telejornal da Record dedicou apenas 18 segundos para informar a decisão da Justiça que proibiu a veiculação da campanha e apresentar a resposta do governo. O principal telejornal da emissora não citou diretamente os discursos de Bolsonaro sobre isolamento e retorno das pessoas às suas rotinas, mas em alguns momentos destacou a importância do isolamento social como medida necessária para a redução das contaminações.

Relação segue estável

Nota-se que, durante o fim de semana, o ministro Henrique Mandetta foi a principal voz do Poder Executivo. Mas na sexta-feira 27, o Brasil Urgente, comandado por José Luiz Datena, entrevistou Jair Bolsonaro ao vivo por mais de uma hora. Em grande parte, conversaram sobre as medidas do governo federal para conter a pandemia e os riscos do isolamento social à economia do país. O presidente classificou como “heresia” os dados apresentados por universidades e institutos de pesquisa que indicam milhares de mortes no Brasil.

No sábado 28, o Brasil Urgente reprisou trechos da entrevista e Datena comentou: “pode até fechar uma cidade inteira, mas o Brasil inteiro não dá”.

(Foto: Marcos Correa – PR)

Já no domingo 29, o programa Hora do Faro foi ao ar como se o país não vivesse uma situação de recomendação de isolamento, com muitos convidados no palco e uma plateia repleta de pessoas. Não foi informado pela emissora se o programa havia sido gravado antes da pandemia. Os momentos de exceção aconteceram nos intervalos, quando o “Plantão Coronavírus”, foi ar, às 16h30, 17h e depois às 19h, atualizando o número de infectados e de mortes no país.

Também num intervalo, o próprio apresentador Rodrigo Faro discursou: “Fique em casa se você tiver mais de 60 anos, doenças crônicas e respiratórias. Se apresentar sintomas, entre em isolamento por 14 dias. Siga as orientações do Ministério da Saúde e só procure o hospital se tiver falta de ar”. A fala do apresentador foi seguida por um comercial do Ministério em que essas orientações são apresentadas e que recomenda medidas de prevenção como a higiene das mãos.

Ao final, Faro orientou os telespectadores a baixarem o aplicativo do Ministério sobre o coronavírus. O discurso, calibrado, se por um lado não embarcou na fala de Bolsonaro de dizer que “o Brasil não pode parar”, por outro não trouxe aos telespectadores da Record a orientação das autoridades sanitárias brasileiras e da OMS de que todos que puderem – e não apenas os maiores de 60 anos – devem ficar em casa, de que é necessário evitar aglomerações e que a circulação normal de pessoas facilita a propagação do Covid-19.

No Domingo Espetacular, que foi ao ar no domingo à noite, Bolsonaro apareceu por menos de um minuto. O programa mostrou sua ida às feiras de Taguatinga e Ceilândia, no Distrito Federal, e um trecho de sua entrevista em frente ao Planalto. A emissora afirmou que Bolsonaro foi às ruas por estar preocupado com os impactos econômicos da pandemia. “É a vida que está em jogo. Não podemos tratar esse assunto com demagogia, disputa eleitoral. Tem que tratar com seriedade, temos dois problemas pela frente: o vírus e os empregos. Agora, se você não estiver trabalhando e estiver em casa, ou [você] vai voltar de férias ou vai estar demitido. Essa é uma realidade”, declarou o presidente. Em seguida, o programa abordou a liminar concedida pelo STF autorizando o governo a não apresentar os impactos orçamentários das medidas econômicas para combater o coronavírus enquanto estiver decretado o estado de calamidade pública.

O programa da Record deu ênfase aos impactos econômicos da pandemia e foi o que mais se aproximou do discurso do governo federal. Os relatos de preocupação de motoristas de aplicativo, trabalhadores formais e microempresários ocuparam quase 10 minutos da atração. O dono de uma empresa metalúrgica disse que os próprios trabalhadores escolheram continuar trabalhando, pois não iriam receber se não trabalhassem. Em seguida, a voz do especialista, um economista, diz que não há como escapar da recessão econômica em 2020. A única diferença será o tamanho da crise.

A hidroxicloroquina, substância ainda em fase de estudos clínicos para tratamento da Covid-19 e que vem sendo amplamente divulgada por Bolsonaro como solução para a doença, também ganhou destaque nas reportagens do Domingo Espetacular, que exibiu relatos de pacientes que supostamente se curaram após o uso do remédio.

Globo parte para o ataque

Na abertura do Fantástico deste domingo 29, a Globo repercutiu o que chamou de “passeio” de Bolsonaro a regiões do Distrito Federal. De acordo com a emissora, descumprindo todas as orientações das autoridades de saúde, o presidente tirou fotos com cidadãos e sua simples presença levou à aglomeração de pessoas, muitas maiores de 60 anos, consideradas como parte do grupo de risco. Na ocasião, o presidente voltou a se posicionar contra o isolamento geral. “Vamos enfrentar o vírus como homem, e não como moleques. Todos vamos morrer um dia”, esbravejou. “Não juntei ninguém, não combinei nada. Fui ouvir as necessidades do povo. Vamos condenar esse cara a ir pra dentro de casa? Ele não tem poupança, não tem renda, tem que cuidar dos seus filhos”, disse, destacando depois os 600 reais que serão liberados pelo governo para os trabalhadores informais.

A Globo reforçou que a recomendação da OMS é para que todos fiquem em casa, para que os que trabalham em serviços essenciais possam sair. E informou da flexibilização, concedida pelo STF, para que o governo possa gastar além dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal. “Se Bolsonaro acha que o recurso é insuficiente para o trabalhador ficar em casa, cabe só a ele aumentar este recurso”, disse o apresentou Tadeu Schmidt.

Na noite de domingo, duas postagens do Twitter de Jair Bolsonaro foram apagadas. Ambas continham vídeos do seu passeio pelas feiras no DF. Segundo a plataforma, as publicações violavam as regras de uso por irem contra informações de saúde pública orientadas por fontes oficiais e por potencialmente colocarem as pessoas em maior risco de transmitir Covid-19.

Em nenhum momento, as emissoras acenaram para a possibilidade de abraçar a campanha “O Brasil não pode parar”. Mas engana-se quem pensa que a mídia tradicional pulou, de vez, pra fora do barco.


*São jornalistas e integrantes do Intervozes.

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