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Aldear a política: uma das respostas para “cadê os Yanomamis?”

O Acampamento Terra Livre promoveu chamamento ancestral para barrar a agenda histórica de extermínios dos povos indígenas 

(Foto: Thiago Yawanawa/@thiagoyawanawa)
(Foto: Thiago Yawanawa/@thiagoyawanawa)
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Por Daniel Macêdo e Well Leal

No dia 25 de abril, o presidente do Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana, Júnior Hekurari Yanomami, divulgou um vídeo denunciando a morte e estupro de uma criança indígena de 12 anos durante um ataque promovido por garimpeiros na comunidade de Aracaçá, em Roraima. A Terra Indígena Yanomami, onde ocorreu o ataque, tem sofrido com o avanço devastador da mineração. 

A denúncia ganhou novas proporções após relatos de ausência de membros da comunidade, em meio a um incêndio misterioso. O território chamuscado pelas labaredas e a ausência da vida são testemunhos dos gestos de silenciamento que a política, a economia e a mídia predatória impõem contra as aldeias. 

Em tempos de acirramento político, de revogação de direitos e de extermínios, a pauta “demarcação já!” se soma à defesa do que já está demarcado, ao rechaço às tentativas de entrada da mineração, da extração de madeira e da agropecuária nos territórios. Soma-se, ainda, a necessidade de questionar: cadê os Yanomamis? 

Aldear a política

O mês de abril foi marcado pela retomada de Brasília na incidência dos povos indígenas com a demarcação do Acampamento Terra Livre, que se contrapõe ao avanço de políticas que violam direitos e que promovem extermínio. 

Reunindo mais de 8 mil indígenas de todo o país, a 18ª edição do ATL convocou a retomada do Brasil com a demarcação dos territórios. Em paralelo, o Congresso Nacional acelerava a tramitação do Projeto de Lei 191/2020 que orienta a abertura das terras indígenas para mineração. Se a pressão promovida pelo movimento indígena foi fundamental para frear o avanço da iniciativa, é justo reconhecer que a presença no parlamento de Joênia Wapichana (Rede/RR) como deputada eleita redimensiona a tônica da discussão ao tensionar a pauta em 14 pronunciamentos contrários ao postulado pelo governo – sendo ela a proferir a maior quantidade de discursos sobre o tema, seguida por Ivan Valente (PSOL/SP) e Nilto Tatto (PT/SP) com 6 falas cada. 

A presença de Joênia Wapichana na Câmara Federal é uma trincheira importante de resistência ao projeto de genocídio e de extermínio promovido pela bancada do boi, da bala e da bíblia nos espaços de decisão política. Ao posicionar um corpo indígena e os saberes ancestrais nos espaços de debates, outras lógicas de país emergem. Por isso, o ATL apontou o aldeamento da política como uma estratégia para retomar o Brasil e para disputar o futuro ao compor uma “bancada do cocá”, nomeia Célia Xakriabá.

Pertencente ao povo Xakriabá do Norte de Minas Gerais, Célia (PSOL/MG) constrói a Articulação Nacional de Mulheres Indígenas e é uma das 30 pré-candidaturas indígenas no Brasil. Sônia Guajajara (PSOL/SP), Kerexu Yxapyry (PSOL/SC) e Paulo Anacé (PSOL/CE) também são pleiteantes para aldear o Distrito Federal e, juntas, atendem ao “chamamento ancestral” como um gesto para “solucionar a dívida histórica” de romper com  avanço de um projeto de país que pratica extermínios ao privilegiar os lucros e a exploração da natureza, aponta Célia. 

“Quando a lei cala, o ecocídio fala” 

Célia Xakriabá explica que aldear a política é um gesto para “garantir um projeto de vida” que valorize a biodiversidade e os direitos humanos ao inserir povos indígenas como agentes nos espaços de formulação e de agendamento de um projeto de país. Ela ressalta que a articulação indígena para aldear os espaços de decisão não é um movimento inaugural de ocupação da política, mas a afirmação de disposição para colocar trajetórias históricas de luta no rol dos debates nacionais. 

A agenda política expressa no aldeamento da política instaura o enfrentamento com os criminosos que atentam contra a vida dos povos indígenas e das florestas, assim como se contrapõem às bancadas de ofensiva contra a biodiversidade que permanecem no legislativo. Ao ocupar o parlamento, as pré-candidaturas indígenas redimensionam o peso da importância dada aos corpos Yanomamis – e de outros povos que não cessam de serem massacrados com o território em nome da exploração capitalista – e fincam raízes pelo fim da matança. Posicionar uma liderança indígena como porta-voz no parlamento é inserir a vida das pautas socioambientais no centro do debate nacional e, com isso, fortalecer as discussões sobre soberania alimentar, sobre direito à terra e sobre reserva e manejo dos aquíferos na América do Sul. 

A decisão brasileira por aldear a política reconhece a necessidade de alargar a lógica de representatividade institucional. A iniciativa não é isolada na América Latina e se soma aos movimentos indígenas do Chile e do Equador que, recentemente, retomaram espaços historicamente dominados pelos algozes brancos.

Em que pese a legitimidade na reivindicação por autorrepresentação no Congresso, as pré-candidaturas indígenas são maiores que as demandas dos povos originários e envolvem uma afirmação política que atravessa agentes sociais das florestas, dos campos e das cidades. Trata-se da demarcação de um outro modo de ver a política: uma visão ancestral que cria condições de propor nas dimensões macro das pautas sociais a partir das experiências que se aliam na defesa da vida e na superação da emergência climática – que envolve a todas e todos desta e das próximas gerações. 

Aldear convoca um outro modo de se relacionar com a política e com os espaços institucionais, acionando práticas ancestrais e produzindo outros marcos para uma nova cultura política de formulação dos rumos do país. Célia é enfática ao dimensionar a potência de “assinar com a tinta do jenipapo e do urucum” para, com isso, (re)modelar a política ao toar modos ancestrais de saber nas dinâmicas decisivas. A metáfora é um modo de aterrar as particularidades do aldeamento dos fóruns de deliberação e, com isso, ecoar bases para relações de convivência com a natureza e para superação do ecocídio. 

*Daniel Macêdo é jornalista, doutorando em comunicação social pela UFMG e integrante do Intervozes. Well Leal é do povo Tabajara, doutor em sociologia pela UFPE e militante da Insurgência/PSOL em Roraima. 

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