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Discurso de filme ou política antigravidez: em qual Nike acreditar?

Empresa faz campanha tocante para a Copa do Mundo Feminina enquanto, nos EUA, atletas denunciam interrupção de contratos durante a gravidez

“Não mude seu sonho. Mude o mundo”. Esse é o slogan de um dos mais novos comerciais da Nike, empresa de material esportivo, para divulgar a Copa do Mundo Feminina, que inicia no próximo dia 7 de junho. Na produção, a atacante do Barcelona e da seleção brasileira Andressa Alves conta que quando ganhava bonecas, na infância, preferia as grandes e carecas – para usar as cabeças como bolas, iniciando, assim, sua trajetória no futebol. “Nada contra as bonecas, só que eu preferia a bola”, justifica a atleta. Um vídeo forte, tocante e que, certamente, reflete a realidade de muitas meninas que não recebem apoio para brincar com um objeto ainda tido como “masculino”.

A relevância do comercial não está em xeque. No entanto, quando se trata de esporte feminino, é preciso sempre confirmar se o belo discurso condiz com a prática adotada. Levando em consideração as negociações feitas pela empresa, o real slogan parece ser “não mude seu sonho, desde que não seja a gravidez”.

Em artigos publicados ao longo deste mês pelo jornal norte-americano New York Times, atletas patrocinadas pela Nike denunciaram redução de até 70% nos contratos após a gravidez. As medalhistas de mundiais Kara Goucher, Alysia Montaño e a multicampeã olímpica Allyson Felix, todas praticantes do atletismo, foram as principais responsáveis por divulgar a prática da empresa.

“Eu sou uma das atletas mais valiosas da Nike. Se eu não consigo garantir uma maternidade segura, quem pode? ”, questiona Allyson Felix, única atleta a ganhar seis medalhas de ouro olímpicas no atletismo. “Na semana passada, duas de minhas companheiras de equipe da Nike, as corredoras Alysia Montaño e Kara Goucher, quebraram heroicamente seus acordos de confidencialidade com a empresa para compartilhar suas histórias de gravidez em uma investigação do New York Times. Elas contaram histórias que nós atletas sabemos que são verdadeiras, mas temos muito medo de falar publicamente: se tivermos filhos, corremos o risco de cortes salariais de nossos patrocinadores durante e depois da gravidez. É um exemplo de uma indústria de esportes onde as regras ainda são feitas principalmente por homens”, completa Allyson.

Alysia Montaño, que correu grávida de oito meses o torneio dos Estados Unidos, em 2014, conta que foi “celebrada como a corredora grávida, mas, particularmente, teve que lutar com seu patrocinador para manter seu salário”.

Em seu artigo, Alysia conta, ainda, sobre a história de Kara Goucher. “Para Kara, a parte mais difícil da maternidade não era retomar o treinamento apenas uma semana após o parto em 2010. Nem quando o médico lhe disse que ela deveria escolher: correr 120 milhas por semana ou amamentar seu filho, pois seu corpo não poderia fazer as duas coisas. O momento mais difícil foi quando Kara descobriu que a Nike pararia de pagá-la até que ela começasse a correr novamente. Mas ela já estava grávida. Então, ela marcou uma meia maratona três meses depois de ter seu filho, Colt. No entanto, seu filho ficou muito doente. Kara teve que escolher novamente: estar com seu filho ou se preparar para a corrida que ela esperava que seu pagamento fosse retomado. Ela continuou treinando”.

Ainda segundo os artigos publicados pelo New York Times, Kara Goucher, chorando, relata: “Eu senti como se tivesse que deixá-lo no hospital, apenas para sair e correr, em vez de estar com ele como uma mãe normalmente faria. Eu nunca vou me perdoar por isso.”

Após as críticas expostas pelas atletas, a Nike divulgou que vai alterar a política de contratos da empresa.

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