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Após 10 anos, uma mulher volta a apitar um jogo do Brasileirão

Edina Alves, que estará na Copa do Mundo da França, será a responsável pela arbitragem do jogo entre CSA e Goiás

A próxima rodada do Brasileirão masculino promete ser um marco importante para a representatividade das mulheres na arbitragem. Após mais de uma década, uma partida de futebol da série A do Campeonato Brasileiro voltará a ter uma mulher atuando como árbitra central. Edina Alves, que estará na Copa do Mundo da França este ano, será responsável por apitar o confronto entre CSA e Goiás pela sexta rodada do torneio.

A paranaense começou a carreira como assistente, mas seu sonho sempre foi ser árbitra principal. Ela pode apitar partidas masculinas desde 2016, quando atingiu o mesmo índice que os homens nos testes físicos, exigência da CBF para o cargo. Este ano, Edina já apitou as partidas América x Sport e Criciúma x Cuiabá pela Série B masculina, além de outras competições da CBF como jogos do Brasileirão de Futebol Feminino e da Copa do Brasil sub-20. Edina também foi uma das assistentes de vídeo do jogo entre Internacional e Cruzeiro, pela Série A.

O presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, Leonardo Gaciba, ressaltou que Edina é um exemplo para todos. “A Edina era bandeira, abriu mão do escudo da FIFA, de árbitra internacional, porque tinha o sonho de ser árbitra central. Então, ela voltou às categorias de base, começou a apitar na base, largando o escudo internacional de auxiliar. Ela já conseguiu alcançar o quadro internacional como árbitra central e, hoje, está chegando na Série A”, disse ao Portal da CBF.

Representatividade em campo

A última vez que uma mulher comandou a equipe de arbitragem em um jogo da primeira divisão masculina foi em 2005, na partida entre Fortaleza e Paysandu. A árbitra da ocasião, Silvia Regina, foi uma das pioneiras e será a responsável pela supervisão do árbitro de vídeo na partida apitada por Edina.

Esta referência foi tema da dissertação “Mulheres de preto: trajetórias na arbitragem do futebol profissional”, apresentada pelo pesquisador Igor Monteiro em 2016 na Universidade Federal de Juiz de Fora. Igor debruçou-se sobre a história de dez árbitras de futebol no Brasil. Ele entrevistou quatro que se formaram na década de 1980 e 1990 e outras seis que se formaram nos anos 2000. A pesquisa apontou que entre as árbitras da geração de 2000 entrevistadas, a maioria teve uma mulher que já atuava na arbitragem como referência para a inserção na carreira. “Para as árbitras da segunda geração, o fato de elas verem outras mulheres atuando foi um fator de referência para que tomassem a decisão de se tornarem árbitras”, enfatiza o pesquisador.

Igor Monteiro segue estudando o tema no doutorado e destaca que a atuação de Edina na partida é um estímulo para outras mulheres. “Durante esse período sem uma mulher apitando na série A, não foi por falta de árbitras. Posso afirmar que tínhamos árbitras muito competentes e qualificadas, com condições de fazer jogos da série A. É lamentável que tenhamos ficado mais de uma década sem árbitras mulheres na primeira divisão. Eu fico feliz com a chegada da Edina e espero que isso abra portas para mais mulheres”, enfatiza.

Donas do apito pelo mundo

Entre as 5 grandes ligas da Europa, somente a Bundesliga – Campeonato Alemão – e a Ligue 1 – Campeonato Francês – contam com uma árbitra principal mulher. A alemã Bibiana Steinhaus apita jogos da primeira divisão alemã desde setembro de 2017, enquanto a francesa Stephanie Frappart estreou na liga local recentemente, no dia 28 de abril desse ano. As duas são as únicas árbitras nas grandes ligas europeias. A primeira divisão do futebol espanhol, inglês e italiano jamais teve uma mulher apitando suas partidas. Principal competição de clubes do mundo, a Liga dos Campeões também nunca teve jogos apitados por mulheres.

Se já é difícil em vários aspectos a vida das mulheres em países como o Brasil e nesses grandes centros do futebol europeu, a coisa fica ainda mais complicada em países como o Irã, onde um jogo do Campeonato Alemão não foi transmitido pelo canal público iraniano IRIB pela arbitragem ser de uma mulher. A partida entre Bayern de Munique e Augsburg foi apitada pela árbitra Bibiana Steinhaus e, segundo jornais alemães, a decisão de não transmitir o jogo foi tomada com base nas estritas leis islâmicas do Irã, que não permitem a exibição de imagens de mulheres usando roupas que mostrem muitas partes do corpo, como short e camiseta. Vale lembrar que no Irã as mulheres são impedidas de torcer nos estádios.

Foto: Kin Saito/CBF

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