Fora da Faria
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Fora da Faria
Uma pílula é a nova concorrente na corrida pelo mercado do emagrecimento
A orforgliprona, da Eli Lilly, promete resultados comparáveis às canetas de GLP-1 sem injeções e sem jejum
O mercado de tratamentos para obesidade e controle de peso está prestes a passar por uma revolução silenciosa, trocando as famosas agulhas por um simples copo d’água. A farmacêutica norte-americana Eli Lilly revelou recentemente os resultados da orforgliprona, sua nova aposta em formato de pílula de uso diário voltada para o emagrecimento. Diferente das populares “canetas emagrecedoras” que dominam as conversas cotidianas e as vendas nas farmácias atuais, essa inovação promete entregar resultados robustos de perda de peso em um comprimido de uso muito mais simples, abrindo um novo horizonte de adesão para pacientes que não se adaptam de forma alguma a terapias injetáveis. Concorrente direto do Rybelsus, também em pílulas, o novo produto tem a vantagem de poder ser usado sem a necessidade de jejum.
Desenvolvida inicialmente pelo laboratório Chugai Pharmaceutical e licenciada pela Eli Lilly em 2018, a molécula vem sendo testada globalmente. Suas principais indicações médicas focam prioritariamente no tratamento de adultos com obesidade (classificada por um IMC igual ou superior a 30) ou pessoas com sobrepeso (IMC a partir de 27) que possuam pelo menos uma comorbidade associada ao excesso de peso. Além do foco direto no emagrecimento, a pílula também possui estudos clínicos paralelos voltados para o controle glicêmico no tratamento de pacientes com diabetes tipo 2.
O mecanismo de ação da nova pílula da Eli Lilly segue exatamente a mesma lógica científica dos grandes sucessos atuais do mercado, como o Ozempic, o Wegovy e o próprio Mounjaro. Simula a ação do GLP-1, que é um hormônio naturalmente produzido pelo intestino humano e responsável por sinalizar ao cérebro que o corpo já está satisfeito após as refeições. Ao ativar esses receptores hormonais, a medicação retarda o esvaziamento gástrico e reduz drasticamente o apetite do paciente, levando a um déficit calórico sustentado e natural.
Os benefícios da pílula também se estendem à saúde metabólica global. Além da perda de peso expressiva, o medicamento demonstrou alta eficácia na redução de marcadores de risco cardiovascular, resultando em quedas consistentes nos níveis de pressão arterial sistólica, triglicerídeos e colesterol ruim. Em análises exploratórias da farmacêutica, a dosagem mais alta do remédio chegou a reduzir os níveis de inflamação do organismo em 47,7%.
Atualmente, o padrão-ouro para tratamentos de emagrecimento são as canetas injetáveis de aplicação semanal. A opção oral de GLP-1 disponível até agora no mercado é o Rybelsus (comprimido da semaglutida, da Novo Nordisk), mas ele exige um protocolo de uso bastante rigoroso. Deve ser tomado em jejum absoluto, com pouquíssima água, e o paciente precisa aguardar pelo menos 30 minutos antes de ingerir qualquer alimento, café ou outro remédio.
Por ser uma molécula sintética e não peptídica, a orforgliprona da Eli Lilly não é destruída pelos ácidos do estômago humano da mesma forma que as formulações de semaglutida. Na prática, isso significa que a nova pílula pode ser tomada a qualquer hora do dia, sem absolutamente nenhuma restrição em relação à ingestão prévia ou posterior de alimentos e bebidas. Essa praticidade facilita a inserção do medicamento na rotina diária de quem precisa de medicação contínua, reduzindo as chances de abandono do tratamento crônico.
A expectativa pelo lançamento é grande, especialmente pelos resultados de um estudo clínico de fase 3, batizado de ATTAIN-1. O levantamento acompanhou mais de 3.100 adultos com obesidade ou sobrepeso ao longo de 72 semanas ininterruptas. Os números finais revelaram que os pacientes que receberam a dose diária mais alta da orforgliprona (36 mg) atingiram uma perda de peso corporal média de 12,4%. Além disso, quase 60% dos voluntários que utilizaram essa dosagem conseguiram eliminar pelo menos 10% do seu peso corporal inicial, um resultado considerado clinicamente significativo e comparável à potência entregue pelas tradicionais terapias injetáveis.
O lançamento está inserido na disputa global pelo mercado de produtos para emagrecimento, a grande novidade do século. As patentes da semaglutida vencem em 2031 nos EUA e na Europa. No Brasil elas terminam neste ano. Com o lançamento da nova molécula, a Lilly terá um prazo maior de patente e mais força para definir preços e melhorar seus resultados. A previsão é de que o produto seja aprovado pelo para comercialização nos EUA no segundo trimestre e as vendas comecem ainda neste ano. Para o Brasil a expectativa do laboratório é de aprovação pela Anvisa e vendas em 2027.
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