Fora da Faria
Uma coluna de negócios focada na economia real.
Fora da Faria
Uma bomba da guerra do Irã pode explodir no seu bolso
Usar a instabilidade global como justificativa automática para manter a Selic onde está é, no limite, uma escolha política travestida de neutralidade técnica
Na próxima reunião do Copom, o Brasil voltará a encarar um velho conhecido: a escolha política de manter a Selic em patamar proibitivo, mesmo depois de a realidade já ter dado sinais claros de que o freio está mais pesado do que o necessário. A inflação de 2025 fechou dentro da meta e abaixo do teto, um resultado que em qualquer manual minimamente razoável abriria espaço para cortes consistentes de juros. Ainda assim, seguimos convivendo com uma das taxas reais mais altas do mundo, distorção que virou paisagem e é tratada como se fosse uma espécie de maldição tropical inevitável.
A comparação internacional é incômoda. Neste mês, Turquia, Argentina e Rússia lideram as maiores taxas de juros nominais do mundo, com o Brasil na quarta posição. Já em taxas de juros reais, descontada a inflação, o Brasil pula para ter a segunda maior do planeta, atrás da Rússia — que, aliás, está em guerra.
Economias desenvolvidas operam com juros reais próximos de zero, ou levemente positivos, e diversos emergentes já conseguiram reduzir suas taxas sem perder o controle inflacionário. O Brasil, ao contrário, persiste no regime em que o retorno financeiro de deixar o dinheiro parado rende mais do que investir em produção, inovação ou emprego. É como se a mensagem institucional fosse: “não produza, não invista, não contrate: aplique”. Queremos disputar o mercado global, mas não criamos as condições favoráveis para a inovação.
Na reunião anterior, o Copom acenou com a possibilidade de iniciar o ciclo de queda da Selic. Não foi um rompante heterodoxo, apenas o reconhecimento óbvio de que inflação em desaceleração cria um quadro que autoriza aliviar o pé do freio. Mas bastou o cenário externo azedar, com guerra no Oriente Médio, choque de petróleo e nervosismo em mercados, para que voltasse à mesa o argumento comodamente conhecido: diante da incerteza, melhor manter juros altos por precaução. Vamos avançar um pouco: o aumento do petróleo pode causar um pulo na inflação. É um risco. A solução então é manter os juros elevados, penalizando, por exemplo, setores da economia que dependem dos combustíveis em suas operações e que já sofrerão com os possíveis novos custos. A regra é sufocar.
É aí que o discurso técnico escorrega para a conveniência. Juros elevados não são neutros: eles significam famílias mais endividadas, crédito sufocante no cartão e no cheque especial, empresas adiando planos de investimento, companhias pequenas e médias fechando as portas. Significam um País menos competitivo, onde o custo financeiro é tão pesado que boa parte dos projetos morre na planilha, antes mesmo de virar obra, fábrica ou emprego. A conta da prudência exagerada sempre chega – e não é entregue nas mesas dos formuladores de política, mas na vida de quem depende de trabalho e renda.
Usar a instabilidade global como justificativa automática para manter a Selic onde está é, no limite, uma escolha política travestida de neutralidade técnica. Se a inflação está sob controle e os fundamentos domésticos melhoraram, insistir em um juro real estratosférico é optar por punir a economia real para garantir conforto máximo aos rentistas. Não se trata de ignorar o mundo lá fora, mas de reconhecer que transformar qualquer crise externa em álibi permanente para juros altos é uma forma sofisticada de paralisia.
Se, na próxima reunião, a guerra for erguida como desculpa para mais uma rodada de imobilismo, a metáfora se imporá: o Irã foi atacado, mas o Brasil continua a ser bombardeado pela insensatez dos juros elevados.
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