Fora da Faria

Uma coluna de negócios focada na economia real.

Fora da Faria

Saudades do tempo em que um produto era apenas um produto

Da groselha vitaminada à cerveja proteica, a indústria transforma prazer em desempenho. Que Baco nos proteja de tanta assepsia!

Saudades do tempo em que um produto era apenas um produto
Saudades do tempo em que um produto era apenas um produto
Whey Protein (Foto: Reprodução)
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Hoje, até o prazer precisa apresentar justificativa nutricional. Comer e beber deixaram de ser apenas experiências de desejo, convívio ou indulgência para se tornarem atos submetidos à lógica da performance. Não basta mais que um produto seja gostoso, refrescante ou reconfortante. Ele precisa prometer ganho, equilíbrio e prevenção. Precisa entregar alguma coisa a mais, ainda que esse ‘a mais’ seja, muitas vezes, apenas um argumento de marketing.

É como se a vida comum tivesse sido capturada por uma gramática clínica. No mundo da medicalização cotidiana, tudo precisa conter um aditivo moralmente aceitável: vitamina, fibra, proteína, menos culpa e mais função. O mercado aprendeu a vender alívio preventivo para consumidores treinados a suspeitar do próprio prazer. Em vez de um alimento, oferece-se uma promessa. Em vez de um gosto, um desempenho.

Roberto e Erasmo já haviam formulado esse impasse com precisão em Ilegal, Imoral ou Engorda. Cantavam em 1976:

“Vivo condenado a fazer o que não quero
Então bem-comportado às vezes eu me desespero
Se faço alguma coisa sempre alguém vem me dizer
Que isso ou aquilo não se deve fazer
Restam meus botões…
Já não sei mais o que é certo
E como vou saber
O que eu devo fazer
Que culpa tenho eu
Me diga amigo meu
Será que tudo o que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda”

Passadas cinco décadas, o dilema segue de pé, apenas com nova embalagem e novos rótulos. O que antes era julgado por critérios morais ou estéticos agora passa também pelo crivo da utilidade fisiológica. Tudo o que poderia ser prazeroso e indulgente acaba detido para averiguação de calorias, sódio, vitaminas, creatina e teor proteico.

Vivemos em um tempo em que não basta ser o que se é. Os produtos também foram recrutados para a cruzada do autoaperfeiçoamento. A groselha, há décadas, incorporou as vitaminas e tentou emprestar saúde a uma bebida essencialmente açucarada. Depois vieram as fibras, os itens sem glúten, sem lactose e sem culpa. Mais recentemente, a proteína assumiu o posto de ingrediente-salvação e ocupou praticamente tudo: barras de chocolate, sorvetes, pudins, sopas, pão de queijo, achocolatados e bebidas antes associadas ao deleite, não à disciplina.

A chegada da vitamina D à cerveja zero e, agora, a invasão proteica ao colarinho de espuma talvez seja uma das expressões mais acabadas dessa lógica. Já não basta beber. É preciso beber com função e transformar cada escolha em investimento sobre si mesmo. O corpo deixa de ser apenas corpo e passa a operar como projeto permanente de correção. O mercado responde oferecendo opções para tratar da mente, melhorar o rendimento, sustentar a disposição e ajudar a carregar o peso da vida.

Aos devotos de uma vida impecavelmente saudável, cabe uma má notícia: viver faz mal para a saúde. Começa no primeiro respiro. As palmadas inaugurais da existência já anunciam que o percurso estará longe de qualquer assepsia e o mundo estará, muitas vezes, de cabeça para baixo. Nos grandes centros, com maternidades em grandes avenidas, o ar chega aos pulmões com fuligem, fumaça e alergia. As roupinhas vêm impregnadas de química industrial. A lama da infância traz parasitas. O cachorro devolve afeto em forma de bactérias nas lambidas. O primeiro beijo quase nunca respeita protocolos sanitários. E, ainda assim, há delícia em tudo isso.

Boa parte do que faz a vida valer a pena não cabe em ambientes esterilizados. Há desordem, excesso, risco e ressaca. Essas coisas que fazem mal fazem bem. Não há contradição. A vida não é um protocolo sanitário. As lembranças, inclusive aquelas que gostaríamos de esquecer, aquecem. A obsessão por higienizar a existência transforma o cotidiano em vitrine de autocontrole e confunde prudência com covardia para sair da rota. Tudo fica morno. É um adeus às paixões.

Ao adicionar um elemento saudável a qualquer produto, cria-se a ilusão de uma melhoria substantiva. Vende-se prevenção em doses publicitárias. Embala-se como cuidado aquilo que frequentemente é só reposicionamento de mercado. Consolida-se a fantasia de uma vida sem descompasso, sem cagadas (desculpem a franqueza) memoráveis. É a construção de uma biografia de páginas em branco.

Essa pedagogia da performance é menos inocente do que parece. Ela sugere que todo prazer precisa ser legitimado por alguma utilidade e que todo excesso é uma falha de gestão pessoal. O corpo correto e eficiente é um horizonte moral. Nesse processo, o prazer vai sendo enjaulado por um discurso que o tolera apenas quando vem acompanhado de benefício funcional.

Muitas das coisas boas da vida embutem algum risco higiênico, exagero ou impropriedade. Essa sempre foi, em certa medida, a moeda de troca dos prazeres mundanos. Não se trata de fazer apologia do descuido, mas de recusar a ideia de que viver bem significa adotar a vigilância permanente. Há uma diferença entre cuidado e domesticação.

As áreas de marketing olham para pequenos acontecimentos e os transformam em tendências imutáveis. Às vezes se esquecem o óbvio: o que todos têm faz com que tudo fique igual. Desconhecem que a vida envolve, sim, momentos de ilegalidade, imoralidade e gula nada saudável. Sem isso, talvez aquelas palmadas iniciais percam grande parte do sentido. O futuro cobra, é verdade. Mas há contas que se pagam sem arrependimento. Aos 67 anos posso sustentar que muitos goles, ressacas (inclusive as morais), gargalhadas, excessos e mordidas valeram muito a pena. E tudo merece intensidade e imensidade, inclusive os exageros comemorados com um grito: Evoé, Baco!

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