Fora da Faria
Uma coluna de negócios focada na economia real.
Fora da Faria
O Vale do Silício tropical de Pequim
Em Hainan, China acelera pesquisas, atrai empresas e testa um modelo econômico que pode ditar o futuro da inovação global
(Nesta edição, Fora da Faria abre espaço para um artigo sobre Hainan, um local ainda pouco conhecido dos brasileiros, mas que pode mexer com o mercado global. O texto é de André Ilario, graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e que atualmente cursa MBA na China, com foco em economia política internacional e relações sino-brasileiras. Um dos raros brasileiros vivendo na cidade de Yazhou, em Hainan.)
Esqueça as praias paradisíacas e os resorts de luxo que costumavam definir a ilha de Hainan. O que está sendo gestado no extremo sul da China é o experimento econômico mais audacioso do país desde as reformas de Deng Xiaoping em 1978. Com a implementação de um sistema alfandegário independente em 2025, o Porto de Livre Comércio ou (FTP na sigla em inglês), de Hainan surge como a aposta de Xi Jinping para criar um hub de tecnologia global capaz de redefinir as cadeias de suprimentos do século XXI.
No coração dessa transformação está a Cidade de Ciência e Tecnologia da Baía de Yazhou, a 60 quilômetros de Sanya, cidade turística mais conhecida do local. Lançado em 2019, o projeto funciona como uma engrenagem de precisão para indústrias do futuro, e um pool de talentos para as empresas que estão iniciando suas operações na ilha.
Em Yazhou, o asfalto ainda novo conduz a centros de pesquisa que o governo chama de “Vale do Silício das Sementes” (Nanfan Valleys), onde o clima tropical permite encurtar o ciclo de reprodução de sementes pela metade, local perfeito para centros de pesquisa e desenvolvimento no campo das ciências agrárias. Mas a ambição não para na terra: Yazhou também é o porto de partida para a tecnologia de mar profundo e exploração aeroespacial, atraindo quase 10 mil empresas e mais de 20 universidades de elite.
Para entender Hainan, é preciso olhar para o leste, para a história de Hong Kong. Por décadas, a ex-colônia britânica foi a joia da coroa e a porta de entrada obrigatória para o capital estrangeiro na China. Hong Kong opera em um modelo de dualidade, quase que um país com dois sistemas que lhe confere autonomia jurídica e financeira. O papel de Hong Kong hoje está em mutação. Pequim parece decidida a não depender mais de um único centro econômico que, por vezes, mostrou-se politicamente volátil.
Bandeiras em homenagem à China decoram as ruas de Hong Kong a espera da visita do presidente Xi Jinping
Hainan surge não apenas como uma alternativa, mas como uma Hong Kong administrada com olhar mais atento e gestão mais presente do Estado. Enquanto Hong Kong herdou suas instituições do sistema britânico, o FTP de Hainan é um projeto de design estatal e concepção centralizada pelo governo chinês, guiado pessoalmente por Xi Jinping e enraizado na cultura local. A estratégia é clara: absorver a eficiência de mercado de hubs como Hong Kong e Cingapura, mas mantendo o controle institucional firme nas mãos do Partido Comunista
A relação entre as duas ilhas é um jogo complexo de competição e complementaridade. Em uma manobra instigante, Hainan fixou sua taxa de imposto de renda corporativo em 15% para indústrias incentivadas, um valor mais agressivo que os 16,5% praticados em Hong Kong. Além disso, o sistema de “duas linhas” de Hainan, onde a primeira linha (com o exterior) é livre e a segunda linha (com o continente) é controlada, tenta replicar o dinamismo de um porto internacional sem abrir mão da segurança econômica nacional. O foco em inovação tecnológica é o que separa Hainan do modelo financeiro tradicional de Hong Kong. Ao priorizar biotecnologia, economia digital e exploração oceânica, Hainan tenta se posicionar como o centro nevrálgico da Nova Rota da Seda Marítima
O desafio é monumental. Hainan ainda é uma das províncias menos desenvolvidas da China e carece de infraestrutura básica, como um sistema jurídico internacionalmente reconhecido, que Hong Kong levou um século para construir. Então, o sucesso deste laboratório tropical dependerá de sua capacidade de atrair talentos globais não apenas com impostos baixos, mas com um ambiente de inovação real.
Se o projeto de Yazhou e do FTP prosperar, o mundo verá o nascimento de uma nova forma de centro econômico: uma potência tecnológica onde a abertura de mercado e o planejamento central chinês caminham em perfeita simbiose. O tempo dirá se Hainan será a nova Hong Kong ou se o peso das expectativas estatais será grande demais para o voo da fênix tropical.
Um projeto como esse, em outros países, levaria décadas, caso conseguissem seguir um plano de longo prazo, o que a China consegue sem hesitação devido ao seu modelo de governo. Hainan se transformou legalmente em uma zona de livre comércio em dezembro de 2025, e Yazhou saiu de uma vila de fazendeiros para uma cidade inteligente moderna em apenas 5 anos. Hoje as empresas dos segmentos focais já estão se encontrando em um congestionamento para se registrarem no novo paraíso tecnológico. O plano que já saiu do papel. O local já possui frentes de pesquisa, desenvolvimento e inovação em pleno funcionamento.
Durante a semana de 13 a 18 de abril, em Haikou, a cidade mais populosa e capital da ilha, foi palco da Expo Hainan, a maior feira internacional de produtos de consumo da região, contando com mais de 1200 exibidores. O evento, como muitos outros que acontecem na região, trouxe um vislumbre do que o projeto do FTP pretende. Os estandes mostraram carros voadores, submarinos, robôs e produtos conceito ao lado de outros já disponíveis no mercado.
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