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O Brasil sobre duas rodas

Recordistas em vendas, as motos consolidam um modelo de mobilidade impulsionado mais pela necessidade de renda do que pela escolha do consumidor

O Brasil sobre duas rodas
O Brasil sobre duas rodas
Trabalhadores de um fábrica de motos em Manaus. Foto: Reprodução/Redes Sociais/Honda
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O mercado de motos quebrou recordes em 2025, o ano mais forte de sua história no Brasil. Os números consolidam as motocicletas como símbolo da mobilidade e da economia dos aplicativos. Foram 2,197 milhões de unidades licenciadas, alta de 17,1% em relação a 2024. De acordo com a Fenabrave, a venda de veículos leves no Brasil avançou, em 2025, cerca de 2,6%. Em um cenário de crédito caro, a combinação entre necessidade de trabalho, expansão dos apps de entrega e busca por alternativas mais baratas ao carro explica o salto.

O desempenho de 2025 superou com folga o antigo pico de 2011, quando o mercado havia registrado cerca de 1,94 milhão de motocicletas, e ficou mais de 13% acima. No total, o país emplacou 5,124 milhões de veículos, com crescimento médio de 8,02%, alavancado pela venda de motos. A distribuição desse movimento pelo território mostra um país cada vez mais “motorizado” em duas rodas. Em 16 estados, as motos já são o veículo mais emplacado.

O recorde de vendas não se explica apenas por consumo, mas por uma reconfiguração do mercado de trabalho. Em dez anos, o número de trabalhadores por aplicativos — incluindo motoristas de transporte individual e entregadores — cresceu 170%, alcançando algo em torno de 2 milhões de pessoas em 2025, segundo estudos citados pelo Banco Central. Uma parcela relevante desse contingente atua sobre motos, sobretudo em entregas de comida, mercado, farmácia e pequenos pacotes, em que a agilidade e o custo operacional são decisivos. O número deve crescer com a entrada dos serviços de mototáxi.

O comprador chega às redes e concessionárias com a conta pronta: quantas corridas ou entregas são necessárias para pagar a prestação e ainda garantir algum excedente mensal? Para muitos, a moto deixa de ser bem de consumo e passa a ser ferramenta de trabalho, condição de entrada na economia de plataforma. A difusão dos consórcios — que já respondem por uma fatia relevante das vendas de motos — ajuda a destravar esse acesso, diluindo o valor e contornando o crédito mais caro.

No meio deste ciclo, novas marcas ganham espaço e alteram o jogo competitivo. Embora Honda e Yamaha sigam hegemônicas, fabricantes chinesas como Shineray (incluindo a linha de apelo mais premium SBM), CFMoto, Zontes e Haojue ampliaram presença em 2024 e 2025, com foco em nichos de média e alta cilindrada e em modelos mais equipados. Esses produtos chegam com pacotes tecnológicos robustos — painéis TFT, modos de pilotagem, conectividade e design mais agressivo — e preços geralmente inferiores aos equivalentes japoneses, o que tem atraído consumidores dispostos a buscar mais inovação.

Os números ainda são modestos perto das marcas líderes, mas o crescimento é acelerado. A trajetória da indiana Bajaj, frequentemente colocada no mesmo bloco asiático e com produção em Manaus, é um indicador: a marca comemorou em 2025 vendas de 40 mil unidades e avanço de três dígitos, mostrando como novos players conseguem ganhar escala em poucos anos. A pressão competitiva tende a obrigar as gigantes tradicionais a acelerar lançamentos, revisões de projeto e ofertas de tecnologia, elevando o patamar do mercado como um todo.

Mobilidade elétrica também cresce

As motos elétricas, por enquanto, são coadjuvantes em número absoluto, mas protagonistas em ritmo de crescimento. Segundo dados citados pela Fenabrave, os emplacamentos mais do que dobraram: no primeiro trimestre de 2025, as vendas saltaram de 1.686 para 3.452 unidades, uma alta de 104,74% na comparação anual. Ainda assim, esse universo é diminuto perto dos 2,197 milhões de modelos a combustão licenciados no ano todo, o que mantém o segmento em estágio inicial e concentrado em nichos específicos.

O avanço enfrenta barreiras conhecidas: custo ainda elevado das baterias, infraestrutura de recarga limitada e dúvidas sobre segurança e durabilidade, que têm sido discutidas em reportagens e alertas técnicos. Por outro lado, redes de delivery e empresas de logística começaram a testar frotas elétricas de pequena escala, atraídas pela redução de gastos com combustível e pela narrativa de sustentabilidade ligada às emissões mais baixas. A expectativa para 2026 é de otimismo. Embora carros de passeio apresentem uma projeção de crescimento mais modesta, as motocicletas podem surpreender novamente com um crescimento de dois dígitos.

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