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Inteligência Artificial: você pode não usar, mas vai pagar

A infraestrutura de IA está sequestrando os componentes que deveriam ir para o seu novo celular ou para a sua máquina de lavar

Inteligência Artificial: você pode não usar, mas vai pagar
Inteligência Artificial: você pode não usar, mas vai pagar
O Google e a Amazon de Bezos (ao lado) estão na linha de frente dos investimentos em Inteligência Artificial. Nos últimos dias, os anúncios de gastos bilionários na tecnologia derrubaram os preços das ações de algumas big techs, mas o otimismo voltou a vigorar após um breve momento de pânico – Imagem: Google, Michael Dadain e Miguel J. Rodriguez Carrillo/AFP
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Cansamos de ouvir que a popularização da IA é implacável e veloz. Que a enorme maioria da população já utiliza as ferramentas, de maneira consciente ou não. Mesmo que você ache que está distante da IA, você já está pagando por ela. O que começou como uma revolução tecnológica silenciosa nos centros de dados do Vale do Silício vai chegar à etiqueta de preço dos produtos eletrônicos. A chamada crise dos chips é uma ameaça, mas desta vez o vilão não é uma pandemia global ou um gargalo logístico, mas sim a demanda da Inteligência Artificial. A corrida para treinar modelos de linguagem cada vez mais potentes e sustentar a base de crescimento criou um fenômeno que economistas chamam de crowding-out: a infraestrutura de IA está sequestrando os componentes que deveriam ir para o seu novo celular ou para a sua máquina de lavar. O resultado é uma escalada de preços que promete transformar eletrônicos de consumo em itens cada vez mais caros.

A raiz do problema está no foco dos fabricantes. Essa mudança de foco deixou as fabricantes de eletrônicos tradicionais no “fim da fila”. De acordo com dados recentes da Counterpoint Research, a escassez de memórias DRAM e NAND flash já fez com que o custo dos materiais para smartphones subisse entre 10% e 30% apenas no início deste ano. A consultoria IDC reforça que a era de memórias e meios de armazenamento baratos terminou, sinalizando que 2026 é o ano em que a tecnologia se torna mais cara por restrição de oferta. Os insumos vão encarecer.

O impacto já é visível nas prateleiras. Estimativas da Semiconductor Industry Association (SIA) indicam que a indústria de chips deve ultrapassar a marca histórica de 1 trilhão de dólares em vendas em 2026, mas essa cifra recorde é inflada pela alta demanda de IA, enquanto outros setores sofrem. Os smartphones, principais vítimas dessa crise, devem ficar em média 7% mais caros este ano. Em mercados emergentes como o Brasil, onde a oscilação do dólar pode pressionar os preços, o aumento pode ser ainda mais sensível. Fabricantes de PCs, notebooks e tablets já alertaram para reajustes de até 20% para compensar o custo triplicado de kits de memória RAM DDR5.

Mesmo aparelhos que não usam IA diretamente estão na linha de fogo. Geladeiras inteligentes, máquinas de lavar com sensores e sistemas de entretenimento automotivo dependem de controladores de semicondutores que agora competem por espaço nas mesmas indústrias que fabricam processadores de alto desempenho. No setor automotivo, a ameaça é de atrasos na produção semelhantes aos vividos em 2021, elevando o preço final dos veículos zero quilômetro. O mercado global de semicondutores cresceu 22% em 2025 e projeta um salto de mais 25% para 2026, segundo o Instituto para Estatísticas de Comércio de Semicondutores (WSTS). No entanto, esse crescimento é desigual. Enquanto as empresas de infraestrutura de IA celebram lucros recordes, o consumidor final enfrenta o que especialistas chamam de “inflação tecnológica”.

No Brasil, a situação é agravada pela dependência de componentes importados. A ausência de deflação no setor de eletrônicos, que normalmente ocorre à medida que tecnologias envelhecem, foi substituída por uma rigidez de preços. Ao contrário de ficarem mais baratos, modelos que não são de última geração têm mostrado resiliência nos preços porque o custo de reposição de peças subiu.

Para que o mundo tenha IAs mais rápidas e inteligentes, a sociedade está pagando o preço na forma de aparelhos mais caros e ciclos de atualização de hardware mais longos. Até que novas fábricas de semicondutores entrem em operação plena, a recomendação para o consumidor é cautela. O luxo de ter o celular mais recente no bolso nunca custou tanto silício e dinheiro. Nesse caso o melhor é, com o perdão do trocadilho, ser mais inteligente e aguardar um pouco mais.

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