Fora da Faria

Uma coluna de negócios focada na economia real.

Fora da Faria

Feliz Carnaval e próspero Ano Novo

Há muita gente suando a camisa para transformar a sazonalidade do verão em receita, emprego e negócios

Feliz Carnaval e próspero Ano Novo
Feliz Carnaval e próspero Ano Novo
(Foto: iStock)
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Existe uma máxima no Brasil de que tudo só começa a acontecer depois do Carnaval — como se as festas de fim de ano se estendessem até a Quarta-Feira de Cinzas e, só então, os negócios voltassem a operar em ritmo pleno. Essa percepção, além de exagerada, ignora um dos períodos mais determinantes para setores inteiros da economia, quando consumo, serviços e varejo trabalham sob pressão de demanda.

O turismo é o exemplo mais visível desse vigor. Levantamento da Embratur indica que a compra de passagens aéreas internacionais para o verão de 2026 (21 de dezembro a 20 de março) superou 756 mil bilhetes, alta de 6,6% na comparação com o intervalo equivalente do ano anterior. Entre os países que mais embarcaram para o Brasil estão Argentina, Chile, Estados Unidos, Portugal e França. O resultado reforça um ano forte: 2025 termina com mais de 9 milhões de visitantes internacionais e um setor capaz de sustentar 8,2 milhões de empregos, somando vagas diretas (hotelaria, alimentação, transporte) e uma extensa cadeia indireta (eventos, comércio local, serviços e fornecedores). O turismo, segundo estimativas do setor, responde por cerca de 8% do PIB.

No varejo alimentar, o verão reorganiza a dinâmica das lojas. A estação muda o “mix” da cesta, eleva a frequência de compras e amplia itens de reposição rápida — bebidas, perecíveis e produtos para consumo imediato. Há até uma “cesta de verão” acompanhada com atenção pelas redes. A Scanntech estima que, em média, essa cesta responde por 17,7% das vendas do varejo alimentar ao longo do ano, mas sobe para perto de 20% no pico da estação (19,4% no verão de 2024 e 19,8% no verão de 2025). Em outras palavras, quase um em cada cinco reais do autosserviço pode ser explicado por hábitos típicos do calor. E não é só participação: no verão de 2025, essa cesta avançou 18,3% em valor e 16,3% em unidades em relação à média anual. Os produtos mais vendidos foram frutas, água, refrigerante e iogurte.

A sazonalidade também dita o ritmo do mercado de sorvetes. A Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes (Abis) estima mais de 11 mil empresas ligadas ao segmento, com faturamento anual acima de 14 bilhões de reais; 92% são micro e pequenas. A produção nacional já supera 1 bilhão de litros por ano. Apesar da pulverização, a liderança é concentrada: em 2025, a Abrasorvete apontou a Froneri (Nestlé e R&R Ice Cream) na dianteira, com 23%, seguida pela Unilever, com 13%, enquanto o restante se distribui entre fabricantes regionais, marcas locais e redes de franquia. Para o setor, o verão pode representar mais de 50% do volume vendido, impulsionando contratações temporárias e ampliando a força de vendas em praias, eventos e pontos de consumo. No autosserviço, o sorvete ainda funciona como “produto isca”, favorecendo compras por impulso.

Nada, porém, sintetiza melhor a “economia do calor” do que a corrida por climatização. Em 2024, as vendas de ar-condicionado chegaram a 5,88 milhões de unidades, 38% acima de 2023 — recorde associado às ondas de calor e ao conforto térmico dentro de casa. O efeito extrapola o varejo: aciona instalação, manutenção, peças e limpeza, além de pressionar a demanda de energia nos horários de pico. Quando o orçamento não comporta o ar-condicionado, o ventilador vira alternativa imediata: na Shopee, as vendas da categoria subiram 127% em dezembro de 2025 frente a novembro, um retrato típico de compra de última hora em semanas mais quentes. Para o comércio, isso significa giro rápido de estoque e venda de complementos — suportes, extensões, filtros e soluções simples de vedação e bloqueio de luz.

A ideia de que o país “só funciona” depois do Carnaval, no fundo, costuma refletir o desejo de esticar férias de uma parcela da sociedade. A economia real, porém, segue de sol a sol — e há muita gente suando a camisa para transformar a sazonalidade do verão em receita, emprego e negócios.

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