Transparência é poder

75% das marcas de roupa no Brasil tiveram 30% de transparência sobre suas origens em pesquisa feita pela Fashion Revolution

Artesã recebe placa da Fashion Revolution

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Meu conto preferido é “A Luz é Como a Água”, de Gabriel García Márquez, um dos principais romancistas da América Latina. Dois irmãos pedem um barco a remo de Natal. Toda quarta-feira, enquanto os pais vão ao cinema, eles deixam a luz fluir a quatro palmos e aprendem a usar um sextante e uma bússola enquanto navegam pelo apartamento no quinto andar de um prédio em Madrid.

Essa aventura se deu como resultado de um comentário despretensioso em resposta à pergunta de um dos irmãos sobre como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão. “A luz é como água. A gente abre a torneira e sai.” Alguns meses depois, os dois ganham um prêmio na escola e são recompensados com roupas de mergulho.

Na quarta-feira seguinte, eles convidam todos os colegas de classe para uma festa enquanto os pais estão fora, e acabam acendendo tantas luzes que o apartamento fica inundado, afogando o quarto ano inteiro, menos os dois irmãos. Quando os bombeiros finalmente arrombam a porta, os irmãos estão navegando em direção ao farol entre os “utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voando com suas próprias asas pelo céu da cozinha”.

A transparência é como a água. Ela começou como um gotejamento lento após o desabamento da fábrica Rana Plaza em Bangladesh. Depois foi borbulhando por entre as rachaduras. Os resultados do Índice de Transparência da Moda Brasil 2018 mostram que a transparência ainda tem muito o que filtrar no tecido da indústria no Brasil. Das marcas analisadas, 75% pontuaram 30% ou menos, enquanto 40% das marcas ficaram com zero na pontuação. A pontuação média geral é de apenas 17%. Globalmente, a transparência está se infiltrando pelos cantos mais recônditos, permeando o tecido da indústria da moda; as lâmpadas da transparência estão continuamente acesas.

O plano é que o rio da transparência se transforme em uma inundação. É evidente que a transparência no Brasil ainda não é uma torrente furiosa, fluindo para todos os cantos e fendas profundas, remodelando tudo em seu caminho; mas, da mesma forma que as marcas globais tiveram que se adaptar rapidamente a esse ambiente em transformação, as marcas brasileiras farão isso em breve.

De fato, muitas das marcas analisadas publicaram informações novas no próprio site quando souberam que seriam incluídas no Índice. As marcas que sabem usar as ferramentas da transparência para navegar o novo curso serão aquelas que irão sobreviver e prosperar no futuro. São as empresas capazes de detectar qualquer fornecedor sem autorização que esteja sendo usado para fazer seus produtos; aquelas que estão gerenciando e mitigando
riscos que podem levar a abusos ambientais e de direitos humanos; as que estão protegendo a reputação da marca.

Transparência é poder.

As marcas que ainda estão sentadas na poltrona do apartamento do quinto andar, que estão no Índice, mas ainda não aprenderam a navegar na maré da transparência, vão se afogar nessa onda. A onda está vindo; chegou a hora de se posicionar para surfar.

O lançamento da segunda edição do Índice de Transparência da Moda Brasil acontecerá em dezembro, e indicará em que medida grandes marcas da indústria estão divulgando publicamente suas informações em prol de uma maior prestação de contas. 

A cada ano, o Índice de Transparência da Moda aborda e explora um conjunto de questões consideradas importantes para a indústria da moda com maior profundidade. Em 2019, o relatório brasileiro, assim como o global, dá destaque a quatro dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU. 

Acompanhe nossas redes e fique por dentro do lançamento do Índice de Transparência e de outros temas voltados a um desenvolvimento mais sustentável na indústria da moda.

*Escrito pela fundadora do Fashion Revolution global, Carry Somers

 

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