Qual será o futuro do mercado de segunda mão?

O mercado pode e deve ser um dos caminhos para a transição socioeconômica que tanto precisamos ver acontecer

imagem: Pexels

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Fashion Revolution

Nos últimos anos, vislumbramos o crescimento exponencial do mercado de segunda mão e acompanhamos o enaltecimento de um dos setores mais promissores da chamada economia circular. 

Segundo dados compartilhados pelo SEBRAE [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] – 2019, a respeito do mercado de segunda mão, em 2013 cerca de 10,8 mil micro e pequenas empresas comercializavam algum tipo de produto usado. Em 2015, esse número aumentou para 13,2 mil negócios, representando um crescimento de, aproximadamente, 22,2%. Quando falamos sobre brechós e a venda de roupas de segunda mão, notamos que esse número teve um crescimento de 210% entre 2010 e 2015.

De acordo com um dos principais relatórios destinado ao cenário de second hand, disponibilizado pela gigante thredUP, o setor de segunda mão deve dobrar ao longo dos próximos 5 anos, chegando a US$7 bilhões de dólares aproximadamente. O mesmo documento aponta que, com a expansão do comércio digital aquecido pela pandemia e isolamento social, mais pessoas se disponibilizaram a consumir de tal maneira. Em 2020, aproximadamente 33 milhões de consumidores compraram algum artigo usado pela primeira vez através de sites pela Internet. 

A plataforma Google Trends (comumente utilizada para o rastreamento dos assuntos mais buscados pela rede) ressalta que, entre 2010 e 2015, o termo “consumo consciente” aumentou em 400% se comparado a períodos anteriores. Outro relatório, que tem como objetivo investigar e compreender novos hábitos de consumo – elaborado pelo Pinterest – aplicativo com mais de 400 milhões de usuários ativos), revela que o conceito “moda de segunda mão” teve crescimento de busca em 36%. Vale ressaltar que a empresa vem investindo cada vez mais em experiência do usuário e novas possibilidades para a comercialização de produtos – através de links diretos às páginas de venda, compartilhamento de vídeos, campanhas e outros formatos. 

Números que evidenciam uma proporção, no mínimo, mais interessante entre os guarda-roupas atuais.

Principalmente quando notamos que grandes marcas estão com os olhos ainda mais atentos às gerações Y e Z. Uma audiência cada vez mais ativa (para além das redes sociais), questionadora de ações que resultem em verdadeira transformação sistêmica e apoiadora de negócios de impacto positivo. Só para termos uma ideia, a estimativa é de que, até 2030, quase 20% dos armários do mundo todo sejam compostos por produtos ditos circulares [GlobalData].

Todos esses dados, estampados em centenas de pesquisas direcionadas ao comportamento de consumo, revelam que o processo de preferência por tais itens podem estar conectados a fatores como: maior busca e acesso às informações acerca de sustentabilidade e consumo consciente, maior contato midiático com propagandas e outras ações que difundem o assunto, necessidade de pertencimento a causas de impacto positivo, aquisição de produtos da moda a menores preços, baixo recurso de compra, entre muitos outros. 

 

Acessibilidade ou perpetuação sistêmica? 

Se por um lado temos somatórias infinitas que nos fazem acreditar no potencial dos brechós como expansão de uma alternativa ao formato já preestabelecido, por outro, começamos a debater um movimento ainda silencioso e que nos fomenta reflexões de extrema relevância. 

Ao longo dos últimos meses, acompanhamos alguns brechós e outras empresas inclinadas a esse mesmo tipo de entrega serem adquiridos por grandes corporações reconhecidas no mercado tradicional. A TROC, fundada em 2016 por Luanna Toniolo, teve 75% de seu negócio comprado pelo grupo Arezzo&Co (detentor de outras marcas de moda e do recém-lançado marketplace ZZ Mall). Segundo o grupo, a TROC passaria a ser uma espécie de serviço onde a sua comunidade poderia revender produtos usados e utilizar o crédito obtido para a compra de outros novos. Já o Repassa, fundado por Tadeu Almeida e denominando o maior brechó online do Brasil, detendo diversos tipos de parcerias e colabs a fim de incentivar a circularidade das peças, foi adquirido recentemente pela Renner. De acordo com Fábio Faccio, CEO da varejista, o objetivo da integração é de seguir desenvolvendo novas operações voltadas aos pilares de desenvolvimento do ecossistema, que são: inovação, digitalização e sustentabilidade.

Outro feito que merece atenção é a abertura de capital da gigante Enjoei. Em 2020, a empresa se lançou na Bolsa de Valores brasileira, fazendo uma oferta pública inicial de ações de R$1,13 bilhão. De novembro para cá, as ações da Enjoei valorizaram cerca de 8,7%.

Além das atividades citadas acima, outros nomes representativos no mundo da moda também vem desbravando o tal mercado de segunda mão. A Nike passou a receber tênis usados de seus clientes para consertá-los e colocá-los de volta ao mercado por um valor mais acessível. Stella McCartney, Burberry e Gucci também encontraram um lugar ao sol para os itens de coleções passadas. No site The Real Real é possível encontrar marcas de luxo e artigos exclusivos.

Os interesses para atender a demanda são muitos. Estima-se que 60% das varejistas estão propensas a incluir essa oferta entre seus espaços. Assim como 42% acreditam que a revenda ocupará um local de prestígio entre suas transações nos próximos 5 anos [threnUP]. 

Após acompanharmos todos esses acontecimentos, permitimos-nos perguntar: Estamos realmente nos provocando a novos modelos de negócio ou chegamos ao momento no qual o ganha ganha ultrapassa a querência (emergência) por revolução?

Analisando um sistema produtivo amparado por um desenho linear – onde extraímos, produzidos, utilizados e descartamos tudo num período cada vez menor e olhando para as cerca de 150 bilhões de novas peças de roupa [MIT] sendo produzidas anualmente e os centenas de caminhões de resíduos têxteis sendo destinados aos aterros sanitários ou incinerados a cada segundo [Ellen Macarthur Foundation], percebemos que (somente) destinar o que já foi usado para a revenda e ofertar créditos para a compra de novos produtos podem não somente não ser o suficiente para sanar tamanho problema como, também, demonstrar quão frágil é a situação a qual estamos inseridos. 

Teria o mercado de segunda mão se tornado a nova “reciclagem” da indústria da moda?

Afinal, o que melhor do que perpetuar uma produção em escala crescente e poder faturar sob mercadorias já existentes?!

 

Como ficam os pequenos negócios de segunda mão?

Se começamos essa conversa com o otimismo da ascensão de artigos que antes eram vistos apenas como puídos, desgastados, mal energizados ou que faziam (fazem) parte da vida dos menos favorecidos, chegamos ao momento de expandir nosso olhar para entender outras problemáticas dessa discussão.

Além de todos os aspectos socioculturais, a pandemia e todas as diversas crises atuais, abriram espaço para a venda de itens usados como (também) um dos recursos para a geração de renda de quem se encontrou desassistido pelo Estado. Seja por meio de um pequeno espaço físico aos arredores da vizinhança, ou através das redes sociais, os brechós e bazares se tornaram uma expressiva alternativa e forma de sobrevivência para centenas de famílias. 

Por meio da venda de peças já sem utilidade paradas no armário, pequenos garimpos ou curadorias mais bem elaboradas, pequenos empreendedores começaram a movimentar seus espaços, garantindo um ganho certeiro ao final do mês e compreendendo o que viria a ser o arranjo de uma nova condição de trabalho.

Situação que nos coloca em atenção ao cenário corrente: De um lado, temos a expansão de grandes players se posicionando a favor da circularidade, alta oferta de produtos novos e usados a valores quase irrisórios, recursos e promoção. Do outro, presenciamos o surgimento de negócios locais, com menos garantias ou acessos, pouca expertise estratégia ou recursos financeiros. 

Um contexto que sinaliza o início de uma concorrência desleal e que põe em risco o potencial do que desejamos para a indústria da moda e nossa relação com o vestir.

O mercado de segunda mão pode e deve ser um dos caminhos para a transição socioeconômica que tanto precisamos ver acontecer. Como? Viabilizando roupas e outros artigos, prolongando o tempo de vida útil do que já está posto, se distanciando da esmagadora produtificação estabelecida na ordem vigente e garantindo entregas mais significativas. 

Como inspiração, destacamos uma iniciativa promovida pela Oxfam. A “Second Hand September”. A proposta é que durante o mês de setembro, deixemos de adquirir produtos novos e, caso seja necessário (e possível), escolhamos consumir de segunda mão.

Nossa atuação segue em questionar ações ligeiramente duvidosas e apoiar os que estão à frente de mobilizações reais. Passos essenciais para sermos fronte à possibilidade de qualquer apropriação. O futuro do mercado de segunda mão precisa estar (no) presente.

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Julia Codogno é comunicadora de moda e sustentabilidade. Desenvolve seu trabalho por meio de mentorias, palestras e conteúdos educativos. É criadora de um guia digital que reúne mais de 200 marcas com iniciativas de impacto positivo. Acompanhe @juliacodogno

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